Como o amor pela educação fez uma professora de 17 anos mudar a vida de um aluno de 50

Por Everton Damasceno, ContilNet 15/10/2017 às 10:02

Maria José Oliveira da Cruz, ou Tita como é conhecida pela família, alunos e amigos mais próximos a nada comum e bem-humorada professora da rede pública do Estado. Hoje é dela a história contada pela reportagem da ContilNet para homenagear os milhares de professores acreanos que levam no sorriso do dia a dia a alegria de transmitir conhecimento e ajudam a construir os pilares da sociedade de amanhã.

Tita iniciou sua carreira nas salas de aula logo aos 17 anos/Foto: Reprodução

Tita iniciou sua carreira nas salas de aula logo aos 17 anos em uma escola pública e encarou o desafio de comandar uma sala de aula repleta de alunos que muitas vezes já chegavam cansados das obrigações do dia e quase não tinham mais força de vontade de prestar atenção nas aulas. Sem desanimar chega e tentava repassar todo conhecimento que podia de maneira irreverente e inusitada. O que Tita jamais imaginaria é que o elo criado entre professor e alunos poderia ser tão forte que ultrapassaria as salas de aula.

Seu Gege

Um dos alunos da professora era Geraldo, de aproximadamente 50 anos, apelidado pelos amigos de classe de ‘Seu Gege’ o senhor revelou à professora um sonho capaz de derreter o mais duro dos corações. Seu Gege estava na escola porque tinha um sonho de aprender a ler e escrever para poder mandar uma carta para sua irmã já não via há tantos anos.

“Seu Gege ia pra escola em busca de carinho porque vivia muito só em casa, seus filhos o deixavam abandonado em um quarto durante todo o dia. Todas as noites seu ele chegava e me contava histórias muito tristes da sua vida e dizia que seu maior sonho era aprender a escrever pra fazer uma carta pra sua irmã que não via há anos. Fiz um trabalho diferenciado com Gege, pois era preciso mais que ensiná-lo a ler e escrever, era necessário trabalhar a autoestima dele e conscientizar os filhos do papel deles na vida do pai”, contou.

Ao fim do ano letivo, Seu Gege finalmente realizou o sonho de escrever com as próprias mãos a tão sonhada carta. Tita contou a reportagem que lembra como se fosse hoje das lágrimas do aluno caindo sobre o papel a cada palavra escrita. Os filhos que antes tinham vergonha de Geraldo, o carregavam no colo como o orgulho da família na festa de formatura. Mas para a professora aquilo ainda não era o bastante.

“Eu senti que podia fazer mais, então após meses de procura, fui até Boca do Acre e encontrei a irmã de Geraldo pessoalmente e a trouxe a Rio Branco para encontrá-lo. Gege não sabia o que dizer, sorria que nem criança e repetia por diversas vezes que jamais teria como agradecer o que fiz por ele. Ele então me escreveu um poema que guardo até hoje”, disse.

“Meu anjo não é gente, tem um coração ardente, traz no peito minha salvação e com seu encanto seduziu toda uma nação. Minha professora querida que veio sé pra mudar minha vida”.

Novos desafios e a queda

Tita então resolveu encabeçar novos desafios e partiu para dar aulas na rede de ensino privada do estado onde atuou por 12 anos lecionando e influenciando na vida de jovens, mas jamais esqueceu dos dias na rede pública, onde sentia-se além de professora, parte da família de cada aluno. Em 2006 o sonho que ainda gritava no coração da “mãezona” falou mais alto e retornou as escolas públicas.

“Encontrei alunos sedentos de saber e outros sedentos tão somente de carinho e atenção. Sempre fui mãezona! Nas escolas noturnas meu carro virava ônibus só para não deixá-los até tarde nas paradas. Resgatei muitos jovens das drogas, da bebida e da marginalidade. Hoje são médicos, defensores públicos, advogados, policiais civis e militares, engenheiros e até professores”, revelou.

Tita e alguns de seus alunos/Foto: Reprodução

No entanto, apesar de realizada profissionalmente, um susto atingiu a vida da professora. O grande mal do século XXI, que não escolha nome nem rosto assolou a vida de Tita por um tempo. Uma depressão impulsionada por um quadro de obesidade mórbida acabou obrigando que Tita se afastasse das salas de aula para restaurar sua saúde.

“Em 2012 a obesidade complicou parte da minha mobilidade e precisei me afastar das salas de aula. Perdi o melhor de mim a vida não tinha mais valor nem graça. Porque depois dos meus filhos, minha maior razão de ser e viver eram eles, os meus anjos, meus alunos”, disse.

A VOLTA POR CIMA

Como boa acreana do pé rachado, a professora não recuou e foi em busca da recuperação e se prometeu voltar ao local onde deixou seu coração: a sala de aula.

Após quase 4 anos de luta e recebendo diariamente mensagens e ligações de incentivo dos alunos, Tita então recuperou a coragem e foi passo a passo resgatando a confiança que sempre teve, a garra que mostrou ao Seu Gege, a alegria que mudou tantas vidas nas escolas do estado.

“Encontrei alunos sedentos de saber e outros sedentos tão somente de carinho e atenção”, disse/Foto: Reprodução

“Hoje ainda não venci a obesidade, mas me redescobri e sei que jamais desistirei deles, dos meus anjos. Se antes eu dizia que resgatava meus alunos, hoje posso dizer com toda certeza que esses anjos me resgataram e me deram uma nova vida. Não interessa se tenho cem quilos ou não, continuo correndo, pulando corda, coordenando as festas da escola, porque é no sorriso de cada um que eu ganhei a certeza que tudo vale a pena.”

Conteúdo Original / Fonte: THALIS GUTIERRES, DA CONTILNET

Bloqueador de anuncios detectado

Por favor, considere apoiar nosso trabalho desativando a extensão de AdBlock em seu navegador ao acessar nosso site. Isso nos ajuda a continuar oferecendo conteúdo de qualidade gratuitamente.