Enxergando além das limitações, o acreano Armando Borges, de 45 anos, se prepara para as provas do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) de 2017. Mesmo sendo deficiente visual, Armando afirma que isso nunca o impediu de realizar seus sonhos, que incluem chegar ao mestrado nos próximos anos.
Concursado em 2007 como técnico de gestão administrativa, Armando está atualmente lotado na Biblioteca Pública do Estado do Acre, onde realiza diversas atividades, incluindo cursos de Braille, onde atua como ministrador.
O trabalho é complementado pelas experiências educacionais e acadêmicas de Armando. Formado em Letras/Vernáculo na Uninorte, o técnico também está fazendo uma especialização na área da inclusão social, além de estar concluindo o curso de Ciências Sociais na Universidade Federal do Acre (Ufac).

Funcionário público e estudante universitário, Armando é um exemplo de superação no Acre. Foto: ContilNet
“É importante que todos se sintam capazes de participar dos processos sociais. Persistir é um ato de resistência. Ao estarmos inserido dentro destas atividades, seja na faculdade ou no Enem, eu e outras pessoas estamos dizendo: ‘Estou aqui. Eu existo e quero participar’”, declarou Armando.
Para o exame deste ano, o técnico explica que o principal objetivo é testar conhecimentos e se preparar para tentar uma vaga em um novo curso nos próximos anos. Para o Enem, existem pessoas treinadas para auxiliar deficientes visuais durante a realização da prova. São chamados de ledores, prestando atendimento em duplas e podendo atuar também como transcritores de respostas.
“Os ledores são solicitados no ato da inscrição. Eles fazem a leitura de toda a prova, e eu vou dizendo qual alternativa é a minha escolhida. O Braille em si é muito demorado, por isso não é indicado para exames. Por exemplo: uma página transcrita para o Braille pode chegar a 12 páginas, dependendo do ajuste dos parágrafos”, explicou Armando.
Além desse apoio e dos fiscais de sala, também existe uma permissão concedida para a gravação em sala, para que exista um respaldo legal em caso de má-conduta: “As leis existem para garantir nossa participação com dignidade e respeito. Participo também pelo aspecto da inclusão, por saber que existe essa chance. Mesmo com a acessibilidade, nunca é 100% funcional. Mesmo com a tecnologia atual, nós – deficientes ou não – ainda precisamos de auxílio humano”.

“Persistir é um ato de resistência”, afirmou o candidato do Enem 2017. Foto: ContilNet
SOBRE O ATENDIMENTO DIFERENCIADO
O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), ao longo dos últimos anos, vem aprimorando o atendimento diferenciado para os participantes do Enem. Agora, além dos serviços voltados para sabatistas, gestantes, deficientes físicos, idosos e lactantes, a oferta também se estende a pessoas com baixa visão, visão monocular, cegueira, deficiência auditiva, surdez, deficiência intelectual, surdocegueira, dislexia, discalculia, déficit de atenção, autismo e em classe hospitalar.
Para participar do processo seletivo nessas condições, os estudantes devem informar, no ato da inscrição, o tipo de deficiência que possuem e, em seguida, indicar qual auxílio necessitam. Além disso, se houver interesse, os participantes também podem solicitar uma hora de acréscimo para resolução das questões, que serão corrigidas sob critérios diferenciados de avaliação.
Além de comprovar as necessidades especiais por meio de laudos médicos, os candidatos também recebem ligações dos funcionários do Inep após a solicitação e o encerramento do prazo das inscrições, para confirmar o auxílio requerido e a necessidade de tempo extra, dependendo do tipo e do grau da deficiência.
