últimas palavras
Na noite deste domingo (15), saí de casa para cumprir uma pauta tendo como destino o Parque do Tucumã, palco de escuridão e violência em Rio Branco. Conversei com moradores, fotografei as instalações, gravei vídeos com famílias. O ônibus demorou tanto que, subitamente, me veio a ideia de passar na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Tucumã.
Estava tudo bem, tranquilo, na unidade, me dizia uma paciente. Havia pouca gente na sala de espera. Entrei para beber água, e vi o vigilante conversando com um técnico em enfermagem. O assunto era outro. Mas o rapaz, ao me reconhecer como repórter, perguntou se eu já sabia sobre o que acontecera. “Veio ver seu amigo”?, indagou o profissional de saúde. “Que amigo?”, indaguei com espanto. “O Jorge Said tá aí. Rapaz, ele tá muito agitado”.
Há tempos eu não via o colega Jorge Said. Nosso último encontro fora em Porto Velho (RO), durante uma reunião de negócios, há dois anos. Pedi permissão à médica, que me autorizou a entrar na sala, no momento em que Lara, filha do jornalista, chegava também.
“Minha filha, eu nunca senti uma dor tão forte”, reclamou Said ao receber o carinho da filha. “Pai, você vai ficar bem”, confortou a menina, meio chorosa. “Eu infartei, eu infartei”, repetia o pai dela, que fazia inalação mecânica, referindo-se à dor que sentiu no peito horas antes. “Nada indica que você infartou. Vamos fazer os exames recomendados. Tente se acalmar”, aconselhou a médica.
Aos poucos, Said começou a ficar mais tranquilo. A ansiedade estava sob controle. A presença da filha e a presteza da médica ajudaram. Contei um pouco sobre mim, minha experiência na emergência de um hospital em Brasília, quando a pressão arterial foi a 22, em razão do estresse. Ele ouviu com atenção, olhando nos meus olhos.
Segurei em seu tornozelo, numa tentativa de deixá-lo mais à vontade. “Não pensa besteira. Já, já você vai pra casa”, eu disse. “Valeu”, respondeu Said ao fazer um sinal de positivo com o dedo polegar, ou como quem diz “legal”.
Deixei a sala e reencontrei o publicitário Eduardo Haddad, que estava acompanhado de sua mulher e da filha. Estavam na ante-sala, preocupados com a saúde do amigo. Papeamos rápido, mas todos tínhamos a certeza de que ia acabar tudo bem.
Porém, senti algo estranho ao ver a ambulância do Samu de prontidão, à porta da UPA, com aquele aparato todo dos paramédicos durante a transferência do paciente para o Pronto Socorro.
Não conheço os termos corretos, nem vou pesquisar, mas a verdade é que, segundo o técnico em enfermagem, o diabetes de Jorge Said estava “acima de 200” e ele permanecia em jejum até aquele horário.
Acordei às 5 horas da madrugada desta segunda-feira (15) com a notícia que nos enluta e nos faz pensar sobre o quanto é frágil a vida de cada um de nós.
O corpo de Jorge Said está sendo velado na funerária São Francisco (Rua Isaura Parente, 228, bairro Bosque) e será sepultado no cemitério Morada da Paz, em Rio Branco, entre 17h30 e 18h.