
Família Pereira lidera o mercado da mandioca na capital acreana/Foto: ContilNet
Ele já foi chamado de o ‘Rei do Abacaxi’, o “Rei Mamão” e agora é o “Rei da Mandioca”. Mas por que um agricultor, que nunca recebeu apoio governamental ou de instituição bancária, consegue produzir tanto e ainda ser próspero? A resposta, em forma de adagio, veio do nosso principal personagem: “acorde cedo, tome um banho e vá trabalhar”.
A maioria dos integrantes da família Pereira, como eles gostam de ser chamados, sempre moraram na propriedade que tem hoje 450 hectares, rede de energia, ramal asfaltado, gado leiteiro e de corte, duas camionetes e uma casa confortável. Mas essa história de sucesso teve muitos percalços, principalmente para Euzébio Teixeira Pereira, 57, e Aldenora Silva de Araújo, 49, hoje professora aposentada.

Euzébio e Aldenora com dois dos filhos mostram, orgulhsos, quadro com fotografia da propriedade/Foto: ContilNet
O casal teve cinco filhos (quatro homens e uma mulher), mas apenas três mantêm vínculos com a ‘Colônia São Francisco’. Os irmãos Euzelio e Eudelon, 30 e 26 anos respectivamente, e a estudante de Ondontologia Euselane, 18, que mora com o marido na propriedade. Os outros dois filhos mais velhos, domiciliados em Rio Branco, são empresários do setor de autopeças.
Mas essa história começou em 1978, ano em que o casal comprou um pequeno lote numa região conhecida como Seringal Humaitá, distante 28 quilômetros de Rio Branco. “Foi somente em 1981 que o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) loteou e batizou o lugar como o mesmo nome do antigo seringal. Aqui não existia nada, nem mesmo a Estrada de Porto Acre”, lembrou seu Euzébio, que nasceu na zona rural da capital e só estudou até a antiga 4 série.
O sucesso com o abacaxi e mamão
Mesmo com a criação de gado e a possiblidade da piscicultura, o foco do produtor sempre foi a agricultura. Há15 anos, através de uma técnica de enxerto conhecida como indução floral, ele consegui produzir abacaxis durante o ano inteiro. Abastecia os supermercados locais e chegou a exportar para o vizinho município de Rondônia. “A produção de abacaxis foi o negócio mais rentável de toda a minha vida”, revelou o agricultor.

Os produtores abastecem o Araújo, a maior rede de supermercados do Acre/Foto: ContilNet
E por que foi? Seu Euzébio nem titubeia: “Porque, como sabemos, a monocultura esgota a terra. O calcário e os adubos são caros e eu nunca tive apoio de nenhum órgão do governo”, desabafou o homem, referindo-se às três esferas de poder (União, Estado e Município). “Não entrei na criação de peixes porque a ração é cara e não existe assistência técnica”, explica.
Neste mesmo período de “vacas gordas”, a família Pereira, usando técnicas próprias e o plantio direto (quando o solo fica sempre coberto por plantas em desenvolvimento e resíduos vegetais), também plantava o mamão de forma consorciada. “Também ficamos conhecidos como os reis do mamão”, disse, sorrindo.
Mandioca e agroindústria
O cultivo da mandioca não foi por acaso, segundo o filho Euzélio de Araújo Pereira. A nossa reportagem chegou no momento em que ele, o pai, a mãe e dos ajudantes enchiam uma caminhonete do produto, que abastece toda a rede de supermercados Araújo. “São de oito a nove toneladas por semana”, disse ele, ressaltando que a propriedade ainda funciona com mão de obra familiar.
Ainda segundo Ezélio, a escolha da mandioca foi por causa da procura e rapidez da colheita. “Enquanto o abacaxi levava 22 meses para estar pronto, a mandioca precisa só de oito para a colheita”, justificou. “Teve um político que prometeu implantar uma fábrica de fécula (goma) em Rio Branco, mas, como se pôde ver, ficou só na promessa, criticou ele, fazendo um questionamento: “como poderiam implantar uma fábrica se não existe produção em larga escala?”.
E foi por esse e outros motivos que ele e irmão, Eudelon, ambos formandos em Administração de Empresa, resolveram investir numa fábrica de processamento de mandioca. “Temos um desperdício em torno 40%. Já aprendemos as técnicas de congelamento e vamos vendê-las fatiada”, garante Ezelio, informando que, para a fábrica funcionar, falta apenas o alvará da prefeitura de Rio Branco.

Família da zona rural que se tornou líder no plantio de mandioca sem nenhum apoio de governos
Versatilidade do produto
A mandioca é utilizada para elaborar uma série de produtos, farinhas e amidos naturais ou modificados. Além da fécula, de consumo direto em alimentos (biscoitos, bolos, pudins, molhos) ou industrial (alimentos processados, têxteis, papel, tintas, medicamentos). Em uma segunda transformação, pode-se produzir polvilho azedo, do qual se prepara uma série de produtos da culinária, como biscoitos doces e salgados, e o popular pão de queijo.
Além disso, a mandioca produz raspas, farinhas de raspas, pellets e álcool. Ainda podemos citar os produtos regionais (beiju, tapioca, carimã ou massa puba, tucupi e tacacá), que demonstram como a mandioca é importante como base alimentar e como componente da cultura brasileira.
