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A gente tem violado as “casas” dos Rios? (*)

Por Marina, ContilNet Fonte: Edição: Marina Pinheiro 10/03/2015 às 14:06

violacaodosriosIldefonso de Sousa

Não fosse a tormenta de milhares de alagados (desabrigados e desalojados) pela cheia das aguas barrentas do Rio Acre, o derradeiro final semana de fevereiro, e o primeiro de março, em Rio Branco, AC (vieses paralelos em municípios acreanos de lindos mananciais), teria sido sem defeito: perfeito.

O pagamento feito. Na economia acreana, movida a contra cheque esse capital é vital; e não só na Capital. Em todo Acre é visível seu efeito.

No sábado, 28, tarde arejada e ensolarada, belos entardecer e anoitecer à margem direita do rio, numa rua arborizada, e sem rastro de poeira: gente feliz no calçadão da Gameleira.

Pouco antes, por volta do meio-dia, a chuva havia lavado as ruas da cidade; o tempo limpou, e o sol as secou.

Nos 3 (três)dias anteriores, pouco chovia; e, paradoxal e concomitantemente, quanto mais o sol saía, mais o rio subia.

No Alto Acre, as águas abaixavam. Embaladas, vinham das cabeceiras do rio, em desabaladas carreiras. As do Riozinho do Rola, revoltadas, mais se avolumavam.  Não tivesse havido a breve estiagem, aquele momento lindo não teria acontecido. Sem bar lotado. Tudo alagado. E o local sitiado.

Começava o transbordo das águas do rio no calçadão da Gameleira. A gente vinha sentir e curtir o rio; alegre, sorria, ouvia som automotivo alto, e dançava; fazia poses para selfies, fotografava, filmava; e caminhava descalça no prazeroso contato com a água fria. Quem diria?

N’água tão farta, barcos e equipamentos de motonáutica, faziam incursões e evoluções. As embarcações ancoradas, agigantadas, alçavam o nível da rua; majestosamente, surgiam à altura dos veículos; e se sobressaiam aos pedestres, meio encantados, se sentindo extra terrestres.

À madrugada de domingo, 1, não choveu. A rapaziada e a moçada, meio cansada, saía da balada lotada; na madrugada vinha descansar e namorar no calçadão da Gameleira.

Mas, o rio não parava de subir; a Gameleira alagada, isolada. Mais chuva, e, no final do dia, a ponte metálica é interditada na grande cheia, nesse “inverno”…

Nesse “inverno”, não só nesse final de semana, como nos demais, não houve desatenção do (des) governo do Acre na remoção de balseiros presos nas pilastras das pontes. Num final de semana do ano passado – de “inverno” sem cheia significativa no rio… – os balseiros “se esqueceram” de avisar as autoridades, que, sexta-feira à noite, sábado, até a manhã de domingo, desceriam e se acumulariam nas pilastras das pontes, especialmente, a metálica. Os (ir)responsáveis pela sua retirada adiaram a tarefa para segunda-feira.

À metade da tarde daquele domingo, a tarefa não podia mais ser postergada; o entulho tanto, a pique de derrubar a ponte metálica, que teve de ser interditada; o trânsito intenso se engarrafa no Centro da cidade; e inferniza o lazer da gente. “Jornal”, “líder” da totalidade da imprensa impressa chapa branca local, elogia a “pronta” remoção dos balseiros pelo (des)governo do Acre, na edição de terça-feira.

No último domingo, 1, com o alagamento da Gameleira, e o isolamento do 2o Distrito pelo Centro da cidade, a única opção de interação da gente com o rio, passou a ser outro calçadão, à margem esquerda do rio; no revitalizado e lindo Mercado Velho, que ficou superlotado. A nova passarela, sem serventia – da Gameleira para o Centro, o pedestre usa a passarela da ponte metálica, quem vem da Seis de Agosto, a da ponte de concreto –; e o desafio de tanta gente de brio, tão encantada com o rio.

Segunda-feira, 2, amanhece… A gente padece… As águas do rio não param de subir; a 1a ponte de concreto é fechada.  A cheia de 1997, com 17,66 m, é igualada. E a mesma quantidade de desabrigados, 7 mil pessoas; no desgosto…

O autor vivenciou ambos fenômenos naturais; conferiu a absoluta semelhança entre eles; o registro de ponto de referência, indelevelmente guardado à sua memória (margem direita do rio, início de rua quase sob a 2a ponte, detrás da Seis de Agosto); merece história. Nesses distintos momentos do século passado e corrente (1997/2015), de marcantes de cheias, as imagens da Rua Seis de agosto…

O autor ama as águas, é parceiro dos santos guerreiros de nefasto assoreamento dos leitos dos mananciais d’água – bem coletivo! E é convencido de que tanto no fundo do leito do rio, ponto que a régua da Defesa Civil alcança na aferição da cota, como na sua referência, não há assoreamento…

Na terça-feira, 3, a pista dupla, da 4a ponte, é bloqueada por alagados na luta para serem abrigados; revoltados contra tanto sofrimento.

O trânsito, caótico no Centro da cidade, é fechado. Restou a 3a ponte, a Via Verde. As águas do rio continuam a subir. Idem a quantidade de pessoas alagadas; muitas delas se recusam deixar suas casas por causa de nojentos “ratos d’água” (ladrões). Na madrugada as águas haviam superado impensáveis 18,00 m.

Na quarta feira, 4, sobem mais; é colocado peso na ponte metálica – sua estrutura, assentada em pilastras de concreto, poderia ser levada de roldão pela corredeira. As águas se estabilizam, em 18,34; ao depois, 18,40 m.

O Campus do IFAC, um dos abrigos aos alagados, o Terminal Urbano, e casas nunca atingidas, invadidos pelas águas do rio. Ou é a gente que tem violado a “casa” do rio?…

As águas que transbordam o poluído Canal da Maternidade, trazem piracema de mandi – e pessoas de toda idade pescam o alimento fresco e farto ofertado pelo rio.

Na quinta-feira, 5, as águas do rio começam a baixar; na manhã de sexta-feira, 6, 18,00 m. Mas a montante no Alto Acre sobem… Na Capital a 4a ponte, o Terminal Urbano são reabertos, etc. Quiçá a tendência seja diminuir os tormentos.

O governador nas últimas eleições tanto falou das dez mil casas da “Cidade do Povo”, destinadas aos moradores em áreas de risco, sujeitas a desbarrancamentos e alagamentos.

O sério ministro da Integração Nacional, Gilberto Occhi (PP), em duas visitas seguidas, e recentes ao Acre, concluiu, o óbvio: o gargalo na disponibilidade de parte dessas casas aos flagelados não era “burocrático”; tinha outras motivações…

E novecentas casas são disponibilizadas, às carreiras, nas corredeiras dessa calamidade pública. Publicamente o ministro, criticou o projeto eleitoreiro do (des)governo do Acre, de só liberá-las em data futura; e próxima às eleições…

Ademais,  (e)leitor,  parte considerável dessas casas, no mínimo, em desvio de finalidade, são ocupadas por outrem não egressos de áreas de risco. Outras pessoas…

No Brasil, não só no exercício da política, precisam-se de: Novas pessoas… 

      

(*) Ildefonso de Sousa Menezes, produtor rural, 65; 41 anos no Acre. É Advogado do Brasil (filiado ao PMDB, em 2001).

 
 
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