Acre enfrenta desafios para preservar infraestruturas, aponta DNIT

DNIT tem realizado inspeções periódicas nas pontes federais

Por Wellington Vidal, ContilNet 21/06/2026 às 08:25

O avanço da erosão em estruturas públicas como a Ponte Frei Paolino Baldassari, em Sena Madureira, e o Calçadão do Mercado Velho, em Rio Branco, acendeu o alerta para os desafios que as mudanças climáticas e os eventos extremos impõem à infraestrutura acreana.

Apesar de não haver risco estrutural imediato nas pontes federais que cortam o estado, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) reconhece que chuvas intensas, cheias e processos erosivos podem aumentar a pressão sobre essas estruturas e exigir monitoramento constante.

Segundo o superintendente regional do DNIT no Acre, Ricardo Araújo, o cenário climático observado nos últimos anos tem demandado atenção redobrada dos órgãos responsáveis pela infraestrutura. Ele cita 2025 como exemplo de um período atípico, marcado por chuvas acima da média e ocorrências associadas às enchentes.

Acre enfrenta desafios para preservar infraestruturas, aponta DNIT

Órgão esclareceu que espaço corresponde à junta de dilatação/Foto: Reprodução

A principal preocupação ocorre quando os processos erosivos alcançam os pilares que sustentam as pontes. “Quando a erosão atinge grandes profundidades, pode comprometer a sustentação dos pilares. Por isso, o monitoramento constante é fundamental”, afirmou.

Para reduzir os riscos, o DNIT realiza inspeções periódicas nas pontes federais. As avaliações incluem análise de pilares, fundações, tabuleiros, juntas de dilatação e outros componentes estruturais. Os dados coletados servem para definir prioridades de manutenção e intervenções preventivas.

Ricardo aponta que as inspeções mais recentes indicam que as pontes da malha federal acreana permanecem em boas condições estruturais e que os s problemas mais frequentes estão relacionados ao desgaste natural de componentes, especialmente das juntas de dilatação, que passam por manutenção e substituição quando necessário.

“Em regiões amazônicas, onde os cursos d’água mudam constantemente, o monitoramento é uma ferramenta essencial para identificar alterações antes que elas representem riscos à segurança da ponte”, concluiu.

Embora o DNIT afirme que as pontes federais do Acre não apresentam riscos estruturais imediatos, especialistas alertam que os efeitos das mudanças climáticas podem acelerar processos naturais capazes de afetar a infraestrutura a longo prazo.

Erosão e clima: efeito indireto, mas relevante

Para o professor doutor em Geografia da Universidade Federal do Acre (Ufac), Anderson Mesquita, os impactos das mudanças climáticas sobre a erosão são indiretos, mas contribuem para intensificar processos já presentes no ambiente amazônico.

“Chuvas mais intensas, mais fortes, aliadas ao tipo de solo e à degradação podem gerar processos erosivos intensos”, explicou.

Segundo ele, o aumento do volume de chuvas em curtos períodos favorece o escoamento superficial e a instabilidade do solo, podendo provocar ravinas e voçorocas, formas avançadas de erosão causadas pela ação concentrada da água da chuva.

Acre enfrenta desafios para preservar infraestruturas, aponta DNIT

Professor Anderson Azevedo Mesquita é doutor em Geografia e docente na Universidade Federal do Acre (Ufac). Foto: cedida

O pesquisador também destaca que o comportamento dos rios está diretamente ligado às alterações climáticas. “O rio tende a encher mais quando as chuvas se tornam mais abundantes e a secar mais rápido quando há redução das chuvas”, afirmou.

Esse processo interfere na dinâmica das margens dos rios e pode intensificar fenômenos como desbarrancamentos e “terras caídas”, comuns na região amazônica.

Para o coordenador da Defesa Civil Municipal de Rio Branco, coronel Cláudio Falcão, a erosão representa uma ameaça constante para as fundações de pontes devido às características do solo da região.

Acre enfrenta desafios para preservar infraestruturas, aponta DNIT

Erosão ameaça estrutura da Passarela Joaquim Macedo/Foto: Everton Damasceno/ContilNet

Segundo ele, o solo acreano absorve grande quantidade de água durante o período chuvoso e, posteriormente, sofre processos de acomodação à medida que essa água escoa.

“Essa acomodação do solo pode expor partes das fundações e aumentar a instabilidade de pontes e outras estruturas próximas aos rios”, explicou.

Eventos extremos e pressão sobre a infraestrutura

Anderson Mesquita alerta ainda para a tendência de aumento dos eventos extremos, como chuvas intensas em curtos períodos e estiagens prolongadas.

“Esses eventos serão cada vez mais frequentes nos próximos anos em decorrência do aquecimento global”, afirmou.

Para ele, o cenário exige planejamento e ações integradas de gestão ambiental e urbana. “A cidade precisa ser vista como um sistema vivo, com gestão inteligente, investimento em saneamento, educação ambiental e políticas de gestão de risco”, destacou.

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Coordenador da Defesa Civil Municipal, tenente-coronel Cláudio Falcão/Foto: Gustavo Monteiro

Falcão ressalta que a combinação entre chuvas intensas, enchentes e a ausência de mata ciliar em determinadas áreas contribui para acelerar os processos erosivos.

“As enchentes sempre serão um risco, a retirada da vegetação das margens faz com que a água escoe com mais velocidade e aumente a erosão. Isso acaba comprometendo edificações, especialmente as pontes”, afirmou.

O coordenador citou casos observados em municípios acreanos, como Sena Madureira e Tarauacá, onde fenômenos de erosão e desbarrancamento têm gerado preocupação. 

Acre enfrenta desafios para preservar infraestruturas, aponta DNIT

Erosão pode ter ocasionado queda de ponte em Sena Madureira. Foto: Gleison Júnior

 

 

Sobre as ações preventivas, Falcão explicou que a Defesa Civil atua principalmente na identificação e gestão dos riscos após a construção das estruturas.

“Nosso papel é fazer a percepção e a gestão do risco. Quando identificamos ameaça de desmoronamento ou comprometimento estrutural, realizamos vistorias, sugerimos revisões e, se necessário, a interdição da área”, afirmou.

Diante do cenário, especialistas reforçam que deve haver investimentos contínuos em monitoramento, manutenção preventiva e planejamento urbano no estado do Acre.

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