O avanço da erosão em estruturas públicas como a Ponte Frei Paolino Baldassari, em Sena Madureira, e o Calçadão do Mercado Velho, em Rio Branco, acendeu o alerta para os desafios que as mudanças climáticas e os eventos extremos impõem à infraestrutura acreana.
Apesar de não haver risco estrutural imediato nas pontes federais que cortam o estado, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) reconhece que chuvas intensas, cheias e processos erosivos podem aumentar a pressão sobre essas estruturas e exigir monitoramento constante.
Segundo o superintendente regional do DNIT no Acre, Ricardo Araújo, o cenário climático observado nos últimos anos tem demandado atenção redobrada dos órgãos responsáveis pela infraestrutura. Ele cita 2025 como exemplo de um período atípico, marcado por chuvas acima da média e ocorrências associadas às enchentes.
A principal preocupação ocorre quando os processos erosivos alcançam os pilares que sustentam as pontes. “Quando a erosão atinge grandes profundidades, pode comprometer a sustentação dos pilares. Por isso, o monitoramento constante é fundamental”, afirmou.
Para reduzir os riscos, o DNIT realiza inspeções periódicas nas pontes federais. As avaliações incluem análise de pilares, fundações, tabuleiros, juntas de dilatação e outros componentes estruturais. Os dados coletados servem para definir prioridades de manutenção e intervenções preventivas.
Ricardo aponta que as inspeções mais recentes indicam que as pontes da malha federal acreana permanecem em boas condições estruturais e que os s problemas mais frequentes estão relacionados ao desgaste natural de componentes, especialmente das juntas de dilatação, que passam por manutenção e substituição quando necessário.
“Em regiões amazônicas, onde os cursos d’água mudam constantemente, o monitoramento é uma ferramenta essencial para identificar alterações antes que elas representem riscos à segurança da ponte”, concluiu.
Embora o DNIT afirme que as pontes federais do Acre não apresentam riscos estruturais imediatos, especialistas alertam que os efeitos das mudanças climáticas podem acelerar processos naturais capazes de afetar a infraestrutura a longo prazo.
Erosão e clima: efeito indireto, mas relevante
Para o professor doutor em Geografia da Universidade Federal do Acre (Ufac), Anderson Mesquita, os impactos das mudanças climáticas sobre a erosão são indiretos, mas contribuem para intensificar processos já presentes no ambiente amazônico.
“Chuvas mais intensas, mais fortes, aliadas ao tipo de solo e à degradação podem gerar processos erosivos intensos”, explicou.
Segundo ele, o aumento do volume de chuvas em curtos períodos favorece o escoamento superficial e a instabilidade do solo, podendo provocar ravinas e voçorocas, formas avançadas de erosão causadas pela ação concentrada da água da chuva.

Professor Anderson Azevedo Mesquita é doutor em Geografia e docente na Universidade Federal do Acre (Ufac). Foto: cedida
O pesquisador também destaca que o comportamento dos rios está diretamente ligado às alterações climáticas. “O rio tende a encher mais quando as chuvas se tornam mais abundantes e a secar mais rápido quando há redução das chuvas”, afirmou.
Esse processo interfere na dinâmica das margens dos rios e pode intensificar fenômenos como desbarrancamentos e “terras caídas”, comuns na região amazônica.
Para o coordenador da Defesa Civil Municipal de Rio Branco, coronel Cláudio Falcão, a erosão representa uma ameaça constante para as fundações de pontes devido às características do solo da região.
Segundo ele, o solo acreano absorve grande quantidade de água durante o período chuvoso e, posteriormente, sofre processos de acomodação à medida que essa água escoa.
“Essa acomodação do solo pode expor partes das fundações e aumentar a instabilidade de pontes e outras estruturas próximas aos rios”, explicou.
Eventos extremos e pressão sobre a infraestrutura
Anderson Mesquita alerta ainda para a tendência de aumento dos eventos extremos, como chuvas intensas em curtos períodos e estiagens prolongadas.
“Esses eventos serão cada vez mais frequentes nos próximos anos em decorrência do aquecimento global”, afirmou.
Para ele, o cenário exige planejamento e ações integradas de gestão ambiental e urbana. “A cidade precisa ser vista como um sistema vivo, com gestão inteligente, investimento em saneamento, educação ambiental e políticas de gestão de risco”, destacou.
Falcão ressalta que a combinação entre chuvas intensas, enchentes e a ausência de mata ciliar em determinadas áreas contribui para acelerar os processos erosivos.
“As enchentes sempre serão um risco, a retirada da vegetação das margens faz com que a água escoe com mais velocidade e aumente a erosão. Isso acaba comprometendo edificações, especialmente as pontes”, afirmou.
O coordenador citou casos observados em municípios acreanos, como Sena Madureira e Tarauacá, onde fenômenos de erosão e desbarrancamento têm gerado preocupação.
Sobre as ações preventivas, Falcão explicou que a Defesa Civil atua principalmente na identificação e gestão dos riscos após a construção das estruturas.
“Nosso papel é fazer a percepção e a gestão do risco. Quando identificamos ameaça de desmoronamento ou comprometimento estrutural, realizamos vistorias, sugerimos revisões e, se necessário, a interdição da área”, afirmou.
Diante do cenário, especialistas reforçam que deve haver investimentos contínuos em monitoramento, manutenção preventiva e planejamento urbano no estado do Acre.






