Acre recebe apenas 2,9 pontos em proteção a defensores ambientais

Pesquisa aponta fragilidades na segurança de lideranças ambientais e comunidades tradicionais

Por Wellington Vidal, ContilNet 12/07/2026 às 10:18
Vista da Reserva Extrativista Chico Mendes, criada em 1990 no leste do Acre. Foto: Flavio Forner/Mongabay.

Apesar de o Acre ser reconhecido internacionalmente como o berço da luta de Chico Mendes em defesa da floresta, o estado obteve uma das médias mais baixas em relação à proteção dos defensores ambientais no Brasil. Os dados integram o Índice de Democracia Ambiental (IDA) de 2026 que revelou que a proteção de defensores ambientais e de direitos humanos é a dimensão mais crítica na região amazônica, a qual obteve a classificação de péssima no levantamento.

O levantamento, divulgado pela Transparência Internacional Brasil e pelo Instituto Centro de Vida (ICV), avaliou mais de 120 indicadores de governança ambiental nos nove estados da Amazônia Legal. 

Na dimensão de proteção dos defensores, o Acre atingiu apenas 2,9 pontos em uma escala de zero a cem e na colocação geral alcançou a oitava posição com nota final de 35,5 pontos, acima apenas de Roraima (22,8).

Contraste entre os indicadores

Os dados revelam um cenário contraditório. O infográfico do IDA mostra que o Acre apresentou desempenhos bastante diferentes entre as quatro dimensões avaliadas.

Sobretudo o destaque vai para o acesso à Justiça, onde o estado lidera 70,1 pontos, superando inclusive Mato Grosso (73,6) e Pará (84,8) na média regional como referência entre os estados amazônicos.

Já no acesso à informação, o Acre alcançou 35,3 pontos, resultado inferior à média da Amazônia Legal, de 44,7 pontos, indicando limitações na transparência e na divulgação de dados relacionados às políticas ambientais.

Na dimensão de participação social, responsável por avaliar mecanismos de consulta pública e inclusão de comunidades nas decisões ambientais, a nota foi de 33,6 pontos, também abaixo da média regional de 37,6, considerada ruim.

Acre recebe apenas 2,9 pontos em proteção a defensores ambientais

Ausência de políticas estaduais

Segundo o estudo, a baixa pontuação reflete a inexistência de um programa estadual estruturado para proteger defensores ambientais.

Atualmente, apenas Pará, Maranhão e Mato Grosso possuem programas próprios voltados à proteção dessas lideranças. No Acre, assim como no Amazonas, Amapá, Rondônia, Roraima e Tocantins, os casos dependem exclusivamente do Programa Federal de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas.

O relatório também aponta que faltam protocolos específicos para atuação das forças de segurança em conflitos socioambientais, mecanismos de monitoramento da violência contra jornalistas e comunicadores, além de políticas direcionadas para mulheres, povos indígenas e comunidades tradicionais.

LEIA TAMBÉM: Acre lança plano para unir produção rural e preservação ambiental até 2030

Outro problema identificado é a pouca transparência sobre as ações existentes. O levantamento informa que não foram encontradas informações públicas suficientes sobre a implementação de políticas de proteção no estado.

Um legado sob ameaça

Os números ganham ainda mais peso quando analisados à luz da história acreana. Foi no Acre que Chico Mendes construiu um dos mais importantes movimentos em defesa da Amazônia e dos povos da floresta. Seu assassinato, em dezembro de 1988, transformou-se em um símbolo mundial da violência contra defensores ambientais.

Mais de 35 anos depois, o novo Índice de Democracia Ambiental demonstra que o estado ainda enfrenta dificuldades para garantir proteção efetiva às pessoas que seguem esse legado.

Em entrevista ao ContilNet, a ativista ambiental Ângela Mendes, neta de Chico Mendes e integrante do Comitê Chico Mendes, afirmou que a baixa pontuação do Acre no Índice de Democracia Ambiental não é resultado apenas de falhas administrativas, mas de um contexto político que, segundo ela, enfraquece a atuação de defensores socioambientais.

Acre recebe apenas 2,9 pontos em proteção a defensores ambientais

Angela Mendes é a filha mais velha de Chico Mendes, defensora ambiental é também presidente executiva do Comitê Chico Mendes. Foto: Ramon Aquim

“Não acredito em falhas, acredito em um projeto político alinhado com interesses que se contrapõem à existência ou atuação dos e das defensoras socioambientais”, afirmou.

Ângela pondera que, em alguns casos, a situação também pode estar relacionada à falta de investimentos e à ausência de uma visão estratégica sobre o tema. “Em todo caso, quem sempre ganha é quem viola os direitos humanos e da natureza”, acrescentou.

Questionada sobre a realidade enfrentada atualmente por ambientalistas e lideranças comunitárias, Ângela disse que as ameaças permanecem e estão diretamente ligadas aos conflitos por terra, território e recursos naturais.

Segundo ela, enquanto essas disputas continuarem, os riscos também permanecerão. A ativista explica que esses conflitos colocam, de um lado, grupos com poder econômico interessados na exploração dos recursos naturais e, de outro, comunidades tradicionais que mantêm uma relação histórica, cultural e espiritual com seus territórios.

“Enquanto houver disputas envolvendo terra, território e bens naturais, isso não cessa”, ressaltou. Segundo ela, para que o cenário mude, o governo do Acre deve implementar um programa estadual específico, complementando a atuação do programa federal já existente.

“Defendemos que o Estado também implemente um programa específico para atender defensoras e defensores ambientais, pois os governos locais têm mais capilaridade territorial para identificar riscos e ameaças e agir com mais eficácia”, explicou.

Acre recebe apenas 2,9 pontos em proteção a defensores ambientais

Encontro entre velha guarda seringueira e a juventude amazônida durante Semana Chico Mendes no Acre | Crédito: Camila Araujo/ Cobertura Colaborativa

A ativista também voltou a defender a ratificação do Acordo de Escazú, tratado internacional voltado ao fortalecimento da democracia ambiental e da proteção de defensores socioambientais. Segundo Ângela, a adesão ao acordo representaria um compromisso formal do Estado brasileiro com a proteção dessas lideranças.

“O Brasil é um dos poucos países da América Latina que ainda não ratificou o Acordo de Escazú, e esse tratado é crucial porque estabelece o compromisso de proteger defensoras e defensores socioambientais”, concluiu.

Bloqueador de anuncios detectado

Por favor, considere apoiar nosso trabalho desativando a extensão de AdBlock em seu navegador ao acessar nosso site. Isso nos ajuda a continuar oferecendo conteúdo de qualidade gratuitamente.