Política e meio ambiente

Considerado um dos maiores líderes políticos e intelectuais do país, o indígena Aílton Krenak escreveu um importante capítulo na história do Acre, no final da década dos 1980, quando ajudou, junto com Chico Mendes, conceber a Aliança dos Povos da Floresta.
Neste sábado (9), Ailton Krenak compareceu ao lançamento do livro homônimo, no Rio. Trata-se de uma coletânea de textos de sua autoria de entrevista que já concedeu desde o final da década de 1970.
Prefaciado pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, o livro traz entrevistas que evidenciam a trajetória de Krenak na luta pelos direitos indígenas, sobretudo como alguém capaz de pensar a realidade brasileira a partir de um ponto de vista original e poético.
O livro dedica um capítulo inteiro à Aliança dos Povos da Floresta e outro é “acreano”, pois reproduz uma entrevista de Krenak ao antropólogo Terri Vale de Aquino.
No domingo (10), após o lançamento do livro, Ailton Krenak, que vai com frequência ao Acre, concedeu entrevista exclusiva em que opina sobre Evo Morales, o conceito de “bem-vivir” e sobre a possibilidade de exploração de petróleo no Vale do Juruá.
Leia os melhores trechos:
Na última semana, tivemos a visita do presidente Evo Morales ao Acre. A Bolívia se destaca com propostas políticas inovadoras como esta ideia do “bem-vivir” e também com a proposta de um estado plurinacional. Diante disso, qual o significado possível desta visita ao Brasil, e mais precisamente, ao Acre?
Achei muito simpática esta visita, pois a princípio representa a possibilidade da expansão dos horizontes deste “bem vivir”, difundindo práticas solidárias de economia. Contudo, estas experiências de troca de produtos regionais e de transferências de tecnologias entre fronteiras vizinhas são toleradas pelo mercado porque o território onde elas ocorrem não vão afetar em nada o domínio que já existe das economias globais. Eu olhei isso e pensei: governos regionais podem fazer estas trocas, mas é diferente do que seria por exemplo a articulação de um conjunto de estados e nações da América do Sul, desenhando uma proposta para o futuro desta região do mundo onde a ideia do “bem vivir” fosse a plataforma dos governos nacionais. Este intercâmbio de governos regionais trocando figurinha uns com os outros não altera a qualidade do viver, o viver vai continuar sendo governado, bem ou mau pelo fluxo de recursos naturais e de grana que o mercado imprime no mundo de hoje com o ritmo dele. Mas, me incomoda muito mais nesse sentido, o fato de que tanto Brasil quanto Bolívia continuam sendo fornecedores de matéria prima e de recursos naturais para esta economia global.
Lula e Evo possuem trajetórias semelhantes. Qual a comparação possível entre o atual momento político no Brasil e na Bolívia?
No caso da Bolívia temos um índio governando um estado nacional, enquanto nós aqui no Brasil estamos passando esta fase deprimente da vida política brasileira. Estamos assistindo a um desgoverno escrachado, com um congresso metendo os pés pelas mãos, o judiciário fazendo uma clara afronta ao executivo. Os poderes da república estão todos esquizofrênicos. Na Bolívia temos a presença de um governo que evoluiu ao ponto de ter uma constituição plurinacional, de aceitar isso do ponto de vista do ordenamento jurídico daquele país. Eles tiveram coragem de anunciar na sua constituição que eles são um estado plurinacional. Porque lá tem quétchua, aymará, chamba, bolivianos, enfim: etnias que constituem aquele estado plurinacional. Só isso já mostra que eles tem mais maturidade que a nossa sociedade brasileira que é infantil a ponto de achar que admitir a existência de nações indígenas iria ameaçar a integridade do Brasil. Se for olhar a idade mental da Bolívia, e a idade mental do Brasil, o Brasil está no perrengue. A Bolívia consegue suportar a ideia de um estado plurinacional e se você falar isso no Brasil, as pessoas acham que você está inventando. Acho que foi importante a visita do Evo no Brasil, aos nosso parentes lá no Acre. O Acre é uma região com presença indígena importante na Amazônia, mas teria sido ótimo se ele tivesse incluído a visita à algumas comunidades indígenas para ele explicar melhor esta ideia do “bem vivir”
O “bem vivir” é conceito indígena andino. No campo político há sempre esta disputa entre duas formas de pensamento que se refletem em duas formas de produção: o capitalismo e o socialismo. O “bem-vivir” pode ser uma alternativa também no campo político?
O “bem-vivir” é uma tradução livre de uma expressão quéchua “Sumak Kawsay”, mas o seu significado é mais amplo. O “Sumak Kawsay” designa um tipo de autonomia que não se relaciona com realidades externas. Faz parte da tradição dos povos que viveram no Tawantinsuyo (Império Inca). É um mundo que dá conta de si mesmo, pois o Império Inca não estava em relação de interdependência com outros impérios. Não vejo socialismo em lugar nenhum. Se existe alguma disputa hoje é do mercado com o mercado. O mundo inteiro é dominado por esta ideia de mercado. É uma realidade que transpassa qualquer realidade. Nem na China tem socialismo. A China tem o capitalismo mais voraz que come o planeta inteiro junto do com EUA e Europa. Quando você vem com uma poesia como essa do “Sumak Kawsay”, você está tentando abrir um horizonte , uma utopia para comunidades em pequenas regiões do planeta, como Butão ou Bolívia, ou alguma ilha na polinésia que não faz diferença para o resto do mundo e que vão ser tolerados como experiências locais de autonomia que não criam nenhuma onda, que não vão repercutir em praças e mercados, que não vão alterar o fluxo do saque. Porque as economias globais são alimentadas pelo saque.
Alguma outra tradução?
Uma tradução também possível para “Sumak Kawsay” talvez poderia ser também “sustentável”. Talvez a ideia de “sustentável” tenha a ver com isso. Mas uma coisa só é sustentável se ela se auto sustenta. Sua respiração só é sustentável se você puder respirar sozinho. Se você precisa de um aparelho para respirar, isso já não é sustentável: o aparelho é externo. Uma economia não vai ser “bem vivir” se ela depende de fluxos externos. Se você está respirando de maneira equilibrada você é sustentado por sua respiração. Na hora em que você começar a quebrar a sua respiração, que você começar a sentir ansiedade, expectativas de coisas de fora, seja para consumir, ou suprir, você já está criando dependência. Então esta autonomia não é apenas material, ela é também espiritual, de princípios, de pensamento, da capacidade da cultura se suprir no coletivo, de existir sem ter que ficar se garantindo com recursos que não são próprios daquele lugar. O mundo suporta uma ecovila, mas uma prática proposta disso para o mundo não dá. Também não é sustentabilidade uma autonomia às custas dois outros. Um empreendimento se diz “sustentável” na Amazônia mas às custas de uma boa parte do saque que ele faz e retorna como compensação aos danos que ele imprimiu para ser implantado. Se um empreendimento tem que compensar, já nasceu errado. Neste sentido, sustentável mesmo, só amor de mãe.
E esta proposta, cada vez mais presente, da exploração de Petróleo no Juruá? Como isso se desenha dentro deste conceito de sustentabilidade?
Se você tem que tirar alguma coisa de algum lugar a primeira pergunta é para quê? Para que petróleo? O mundo já está empapuçado de petróleo. O Brasil tem o Pré-sal que já é a promessa de um banho de petróleo no planeta. Planeta que já está pagando um custo absurdo por viver consumindo uma energia que é extraída de dentro da terra, uma energia fóssil, morta. E nós vamos ficar buscando novos lugares no planeta para gente furar? Já sabendo que é uma energia extremamente suja, danosa. Não é melhor deixar onde ela está? Temos que explorar a possibilidade de novas energias limpas, a buscas por novos recursos que não sejam tão prejudiciais e não insistir num recurso que já está previsto como esgotado. É uma pena que uma região tão importante do ponto de vista de sua riqueza natural esteja sendo empacotada na mesma visão de urgência e de saque que está embutido na ideia do Acre explorar petróleo ou gás natural. O Rio de Janeiro já faz isso, São Paulo já faz isso. O Acre perseguir um modelo que já dá claros sinais de esgotamento, ao invés de tentar algo diferente, é como correr atrás do próprio rabo. Agora uma das regiões mais remotas da Amazônia vai aplicar esta mesma ideia essa extrativa, burra? Talvez alguém diga que seja possível fazer esta exploração sustentável. De certo que engenheiros vão dizer isso. Mas ela é sustentável nela mesma apenas. O entorno vai pagar um preço absurdo. O preço de uma invasão. A vida das pessoas não vai ser a mesma, as culturas regionais não serão as mesmas quando você tiver um motor desse tamanho ligado na cabeça da as pessoas dia e noite.