O Acre compartilha uma antiga fronteira com o Peru, mas o verdadeiro potencial turístico dessa vizinhança ainda esbarra na barreira da desinformação. É o que aponta a pesquisa de mercado “Conectividade Aérea Internacional: Avaliação Econômica dos Voos entre Acre e Peru”, realizada pela Fundape em parceria com a Seplan e o Fórum Empresarial de Inovação e Desenvolvimento. O diagnóstico revela que, enquanto monumentos globais como Machu Picchu são amplamente consolidados no imaginário acreano (77,2% de reconhecimento), ativos fundamentais como a gastronomia andina — eleita consecutivamente uma das melhores do mundo — são ignorados por quase dois terços da população local.
De acordo com o estudo, apenas 35,9% dos entrevistados no Acre reconhecem o valor e o prestígio da culinária peruana. Da mesma forma, outros destinos andinos de forte apelo visual e cultural, como a Montanha Colorida (40,4%) e a histórica cidade de Cusco (39,9%), registram níveis de conhecimento superficiais no estado. Para os coordenadores do estudo, esse apagão de repertório atua como um filtro invisível, retendo a transformação da demanda potencial em embarques e viagens efetivas.
A Rota Quadrante Rondon como ponte cultural Para reverter esse cenário, o projeto da Rota Quadrante Rondon (Rota Sul-Americana 3) liderado pelo Governo Federal por meio do Ministério do Planejamento e Orçamento propõe ir muito além do transporte de cargas e commodities. O objetivo estratégico é transformar o corredor logístico em uma plataforma viva de intercâmbio cultural e turismo integrado, conectando a sociobiodiversidade da Amazônia acreana à mística da Cordilheira dos Andes.
“O mercado já vende Machu Picchu sozinho de forma global, mas falta ao nosso ecossistema local apresentar o resto do Peru ao consumidor, o que diversifica os itinerários e eleva o gasto médio dos viajantes”, avalia a coordenação técnica do relatório.
Com o desenho da rota aérea ligando Rio Branco a Lima e Puerto Maldonado, e Cruzeiro do Sul a Pucallpa, o Acre se consolida geograficamente como o portal natural do Brasil para o universo andino.
Turismo de mão dupla: O Acre precisa fazer a lição de casa
No entanto, representantes da rede hoteleira e coordenadores de turismo local alertam que um corredor aéreo sustentável e lucrativo exige aviões cheios nas duas pernas da viagem.
Para que o turismo de “mão dupla” funcione, o Acre precisa se estruturar urgentemente para atrair e receber o visitante peruano, superando a atual escassez de condições objetivas de atendimento internacional.
O relatório lista uma série de ações emergenciais que o estado precisa adotar:
Capacitação Receptiva: Treinar e credenciar guias de turismo e equipes de hotelaria para o atendimento fluente em espanhol.
Serviços Bilíngues: Adotar sinalização turística e cardápios bilingues nos principais pontos de visitação e na rede de serviços.
Calendário de Eventos: Organizar e divulgar ativamente no Peru um calendário anual de festas, negócios e eventos do Acre para atrair o público dos departamentos vizinhos.
Deixada por conta própria, a operação corre o risco de ficar presa a fluxos sazonais e de via única. Mas, se conduzida com campanhas de difusão massiva da cultura peruana no Acre e com a estruturação de roteiros receptivos atraentes em solo acreano, a Rota Quadrante Rondon deixará de ser apenas uma rota de passagem para se tornar um motor de inclusão social, emprego e desenvolvimento humano na Amazônia.

