BC corta ‘hedge’ e dólar salta

Por Wania Pinheiro, ContilNet 05/05/2015 às 14:24

dolar subirleve sinal

O dólar amplificou ontem em relação ao real o leve sinal externo de alta por causa da decisão do Banco Central de restringir a oferta de swaps cambiais destinados à rolagem dos que irão vencer no começo de junho. A autoridade indicou que pretende renovar não mais do que 80% do lote de US$ 9,656 bilhões em contratos antigos a serem liquidados no dia 1°. Na passagem de abril para maio, reduziu a quantidade diária de papéis de 10,2 mil para 8,1 mil, externando a intenção de levar ao resgate cerca de US$ 1,961 bilhão, ou seja, irá retirar do mercado proteção cambial no valor de quase US$ 2 bilhões. Na falta do BC, este volume terá de ser suprido por instrumentos de hedge privados e também por dólares “cash”, o que exerce pressão de alta sobre a moeda. E o dólar fechou com valorização de 2,24%, cotado a R$ 3,0807. Mas tal pressão tende a se exaurir nos próximos dias. À medida que investidores e empresas forem conseguindo refazer sua proteção, o dólar voltará a refletir as condições favoráveis a uma tendência de baixa.

dolar subirO BC não pode ser acusado de ter desrespeitado as regras definidas em nota oficial, expedida em 24 de março, por meio da qual comunicou ao mercado sua decisão de acabar com a oferta diária de swaps cambiais novos. Na nota, diz que “os swaps cambiais vincendos a partir de 1º de maio de 2015 serão renovados integralmente, levando em consideração a demanda pelo instrumento e as condições de mercado”. Esse compromisso de renovação integral valeu apenas por um mês, abril, quando foram rolados todos os US$ 10,115 bilhões que venceram ontem, primeiro dia útil de maio.

Neste mês, já vale a ressalva feita na nota, a condicionalidade relativa às “condições de mercado”. Efetivamente, elas mudaram. Em abril, o dólar acumulou desvalorização de 5,57% porque o robusto fluxo de capitais externos de investimento respondeu positivamente ao cenário externo mais favorável às aplicações de risco – um reflexo da expectativa de que o Federal Reserve (Fed) só deve, no melhor dos mundos, subir o juro básico americano no fim do ano – e também à distensão da crise política interna que ameaçava o ajuste fiscal.

O mercado cambial mudou e, já que o BC pode, a decisão de tirar de circulação swaps velhos no montante de quase US$ 2 bilhões é coerente com as diretrizes traçadas pela política monetária. Ao insistir no severo aperto monetário, mantendo o ritmo de alta da Selic em uma velocidade incompatível com a desaceleração da atividade econômica, e, simultaneamente, provocar a alta do dólar, o BC está dizendo que a inflação se combate com juro e não com taxa de câmbio. A autoridade mostrou que não irá ceder à tentação, recorrente do Plano Real para cá, de utilizar o câmbio apreciado para neutralizar pressões inflacionárias. A alta do juro é um vigoroso estimulante à entrada de capitais de fora, sobretudo os mais especulativos. Mas, ao permitir a valorização da moeda americana por meio da limitação da oferta de instrumentos de hedge, o BC anula esse efeito.

Insistir na manutenção de uma taxa de câmbio competitiva, acima dos R$ 3,00, equivale a tentar contrabalançar o impacto negativo do rigor monetário sobre o setor produtivo. O pior dos mundos estaria na conjugação de juros elevados e câmbio apreciado. As empresas não teriam para quem vender tanto internamente quanto no mercado externo.

Se o cenário global se alterar negativamente, se a aversão a risco retornar, o BC poderá voltar atrás em sua sinalização de corte de 20% da rolagem dos swaps antigos. A própria nota do dia 24 de março fornece esse “plano B” ao avisar que “sempre que julgar necessário, o Banco Central do Brasil poderá realizar operações adicionais por meio dos instrumentos cambiais ao seu alcance”.

Se a intenção oficial é utilizar apenas o “instrumento monetário” – a taxa Selic – para impedir que o IPCA como um todo seja contaminado pela alta dos “preços relativos” (câmbio e tarifas públicas), os contratos de juros futuros só poderiam mesmo ter subido ontem na BM&F. A taxa do contrato mais líquido, com vencimento em janeiro de 2017, avançou de 13,46% para 13,55%. O contrato para janeiro de 2021 passou de 12,71% para 12,86%.

O pregão não quis ver o lado positivo da mudança da postura cambial do BC. Os gastos com os juros da dívida, que subiram de R$ 56,34 bilhões em fevereiro para R$ 69,49 bilhões em março, crescem não só porque a Selic está em alta, mas também como reflexo das despesas com os swaps cambiais. Ao reduzir a oferta de swaps, o BC irá baixar o volume de estoque dessas operações dos atuais US$ 112,83 bilhões para cerca de US$ 110,8 bilhões. Não é muito, mas já é o começo da descompressão de uma conta que contribui decisivamente para o aumento da dívida bruta como proporção do PIB.

O DI futuro prefere focar no lado negativo, a suposta deterioração das expectativas inflacionárias relatada pelo boletim Focus. A mediana do total de cem previsões fornecidas por instituições para o IPCA acumulado este ano subiu de maneira quase imperceptível de 8,25% para 8,26%, enquanto que o grupo das cinco que mais acertam palpites elevou as suas de 8,67% para 8,73%.

Em primeiro lugar, chama a atenção a discrepância entre os dois grupos. Um dos dois tem de estar muito errado. A desarmonia prejudica a confiabilidade da pesquisa? Em segundo lugar, poucos notam a queda no prognóstico que interessa mais diretamente aos investidores. Trata-se do IPCA acumulado para os próximos 12 meses. Ele caiu agora de 6% para 5,96%, quando estava em 6,11% há quatro semanas. A projeção para 12 meses é utilizada para um cálculo essencial, o do juro real “ex-ante”, o critério de taxa real da economia mais observado na hora da tomada da decisão de investimento. Como o juro nominal para o mesmo período – o do swap pré/DI de 360 dias – só sobe e a projeção de IPCA só cai, o juro real não para de subir. Enquanto o IPCA recuava, o swap de 360 dias subia de 13,52% no fim de março para 13,67% no fim de abril. Resultado: o juro real saltou de 6,98% para 7,28%. É muito juro real para uma economia que vai cair este ano, segundo o Focus, 1,18%. Está na hora de o BC suspender o seu aperto monetário.

Luiz Sérgio Guimarães
luiz.sergio@brasileconomico.com.br

 

Conteúdo Original / Fonte: Luis Sérgio Guimarães, do IG

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