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Como agir no caso de uma catástrofe

Por Marina, ContilNet Fonte: BBC 10/02/2015 às 14:00

150204202054 manchester airport 464x261 gettyInstinto

150204202054 manchester airport 464x261 gettyApesar da rapidez da tragédia, da ventania, do mar revolto e do tempo que as equipes de resgate levaram para chegar, especialistas em sobrevivência ficaram abismados com o altíssimo número de vítimas.

O relatório oficial com o resultado das investigações do acidente concluiu que muitas pessoas se afogaram simplesmente porque não fizeram nada para se salvar. “Um número considerável de pessoas… parece ter sido incapaz de pensar ou agir racionalmente por causa do medo”, afirma o texto.

O que pode ter acontecido? Alguém que pode responder é John Leach, um instrutor de sobrevivência militar que pesquisa o comportamento de pessoas em ambientes de extremo estresse na Universidade de Portsmouth, na Grã-Bretanha.

Ele analisou a atitude de sobreviventes e vítimas de dezenas de desastres ocorridos em todo o mundo durante décadas e descobriu que, em situações de vida ou morte, cerca de 75% das pessoas ficam tão desnorteadas que não conseguem pensar com clareza nem planejar uma fuga. Elas ficam mentalmente paralisadas.

Apenas 15% das pessoas conseguem manter a calma e tomar decisões que podem salvar suas vidas. Os 10% restantes são puro perigo: eles perdem completamente o bom senso e colocam todos os outros em risco.

Reação rápida

As histórias de sobrevivência sempre se concentram em saber o que esses 15% têm de tão especial que os ajudou a permanecer vivos. Mas, para Leach, deveríamos nos perguntar: por que tanta gente morre quando tem capacidade física de se salvar? Por que tantos desistem ou não conseguem se ajustar à situação de desespero?

Segundo o pesquisador, na maior parte dos desastres, não é preciso ter habilidades especiais para sobreviver. Você só precisa saber o que fazer.

Os engenheiros que criam planos e procedimentos de evacuação costumavam assumir que as pessoas responderiam imediatamente ao ouvir um alarme, ao sentir cheiro de fumaça ou ao perceber que seu barco está adernando.

Mas, como mostram alguns casos recentes, o verdadeiro desafio é fazer com que as pessoas reajam rapidamente.

Foi o que ocorreu no aeroporto de Manchester, na Grã-Bretanha, em agosto de 1985, quando um Boeing 737 com destino à ilha grega de Corfu sofreu uma pane no motor durante a decolagem, provocando a morte de 55 pessoas.

“O mais impressionante foi esse grande número de vítimas, apesar de o avião nunca ter saído do chão e ter freado em uma posição que permitiu que os bombeiros rapidamente apagassem o fogo nas turbinas”, afirmou o relatório da investigação do incidente.

Em vez de perderem a razão ou correrem desesperadas para as saídas, é a relutância das pessoas ao pânico que as coloca em um risco maior.

Um dos maiores exemplos de passividade coletiva ocorreu nas torres do World Trade Center, em Nova York, durante os ataques de 11 de setembro de 2001.

Um estudo do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos (NIST, na sigla em inglês) concluiu que a maioria dos sobreviventes do impacto do primeiro avião esperou uma média de seis minutos antes de começar a sair da Torre Norte pelas escadas. Alguns chegaram até a esperar por meia hora, seguindo seus afazeres normalmente.
Instinto dormente

A principal explicação psicológica para esse tipo de comportamento – passividade, paralisia mental e continuar a agir normalmente diante de um desastre – é que ele é provocado por uma incapacidade de algumas pessoas de se adaptarem a uma mudança súbita em seu entorno.

A sobrevivência requer um comportamento direcionado a um objetivo: ao sentirmos fome, procuramos comida; ao sentirmos solidão, procuramos companhia. Isso normalmente é algo fácil e instintivo.

Mas em um ambiente ou em uma situação desconhecida, particularmente alguma que cause tensão extrema, estabelecer objetivos de sobrevivência requer um esforço consciente muito maior.

“Em uma emergência, geralmente as coisas acontecem mais rápido do que você consegue processá-las”, explica Leach.

Jerome Chertkoff, psicólogo social na Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, dá um exemplo: “Ver-se em uma situação de perigo de vida é algo que aumenta a sua excitação emocional, e uma grande excitação faz com que as pessoas considerem um número limitado de alternativas.

Isso pode ser ruim quando você está tentando decidir como agir, já que a opção que mais o ajudaria a escapar com vida pode nem passar por sua cabeça”.

Isso explica por que nas situações de emergência, muita gente deixa de tomar atitudes que poderiam parecer óbvias em circunstâncias normais.

Preparo é fundamental

Por isso, a maioria dos especialistas em sobrevivência acredita que a melhor maneira de pensar com mais clareza é se preparar para uma emergência com antecedência.

“A prática torna as ações automáticas, sem a necessidade de se perder muito tempo pensando”, diz Chertkoff. Isso significa prestar atenção na localização das saídas de emergência quando você entra em um cinema ou em outro tipo de espaço fechado, ler as instruções de evacuação deixadas no seu quarto de hotel e sempre prestar atenção nos procedimentos de segurança que os comissários de bordo demonstram no avião.

Ou seja, a maioria dos sobreviventes sobrevive não porque são mais corajosos, mas porque estavam mais bem preparados.

As chances de uma pessoa se ver em uma situação catastrófica são relativamente pequenas. Mas é uma boa ideia imaginar o que você faria, sem cair em uma paranoia, claro.

“Você só tem que se perguntar uma coisa: qual será minha primeira reação se alguma coisa ruim acontecer? Conhecendo essa resposta, todo o resto tenderá a funcionar melhor”, afirma Leach.

 
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