Série
Por muitos anos, os fãs do Demolidor viveram a frustração de ver o herói retratado nas telas em um péssimo filme.
A tal ponto que muitos, até hoje, não pronunciam o nome de Ben Affleck, que viveu Matt Murdock na versão para o cinema. Mas a espera por algo digno do herói de Hell´s Kitchen foi recompensada com sobras.
A série produzida pela Marvel e a Netflix, que estreou na sexta-feira, é uma das melhores produzidas pelo serviço de streaming. Mesmo para quem nunca leu um quadrinho do Demolidor.
A série se passa no mesmo universo dos filmes dos Vingadores. Apesar de não serem citados nominalmente, os heróis do supergrupo pairam sobre a série. Como quando uma corretora de imóveis cita o ‘incidente’, se referindo à destruição de parte de Nova York durante a invasão alienígena do primeiro filme dos Vingadores.
Ou quando aparece no escritório do jornalista Ben Urich a primeira página do jornal no dia seguinte ao ataque. Ou ainda quando um dos bandidos faz uma piada sobre o Demolidor não ter uma armadura ou um martelo mágico.
Mas apesar de estar no mesmo universo, a estética de o Demolidor está a anos-luz de distância do clima ‘clean’ de Vingadores, Capitão América, Homem de ferro e outros filmes da Marvel. Mesmo com uma boa dose de violência, os filmes precisam receber uma classificação para maiores de 13 anos nos EUA, por isso, sangue de verdade é uma coisa rara.
Mas aparentemente, o sangue economizado nesses filmes está sendo todo usado na série. Além das fantásticas cenas de luta, há vários momentos totalmente gore, como quando o Rei do Crime arranca a cabeça de um desafeto, esmagando-a com a porta de um carro.
As cenas de luta merecem um comentário à parte, especialmente a que se passa em um apertado corredor no segundo episódio.
Apesar do Demolidor usar golpes inspirados em artes marciais, as sequências me lembram mais uma luta de boxe, não pelos movimentos, mas pela maneira como Matt recebe os golpes, cai e se levanta sempre, antes da ‘contagem’. Como seu pai, um boxeador profissional, o ensinou: ‘Não é como você cai, mas como você levanta’. A relação de Matt com o pai, e a origem do Demolidor, são contadas em flashbacks ao longo dos episódios.
A cena do corredor, que dizem teria sido gravada em uma única tomada, é emocionante mais pelo que não mostra. Com a câmera focada no corredor, a luta muitas vezes se passa nos quartos, onde só escutamos os sons da briga e aguardamos, sem folêgo, para ver o desfecho. Confiram abaixo umas das melhores sequências de ação dos últimos tempos (me lembrou uma cena, também em um corredor, do filme ‘Oldboy’).
A fotografia da série ajuda a criar um clima sombrio e claustrofóbico e é particularmente feliz na hora de mostrar os poderes do Homem sem medo. A série não tenta ser didática demais com essas habilidades do Demolidor. Ao contrário, usa muito bem efeitos sonoros e cenas desfocadas para ir apresentando ao pouco as habilidades do herói, criando um interessante efeito visual e sonoro.
Outro destaque da série é o nêmesis do Demolidor, o Rei do Crime. Assim como Matt, o vilão Wilson Fisk também tem sua origem contada em flashback, mostrando um garoto gordo e sensível, que sofreu com um pai autoritário e violento.
Até matá-lo, em um ataque de fúria. Adulto, assim como Matt Murdock, quer transformar a cidade em que vive, usando os principais cartéis criminosos de NY em seus planos. Apesar da sensibilidade de um amante das artes, o que leva a bela Vanessa a se envolver com ele, sucumbe a ataques devastadores de fúria, se contrariado.
