Detentas aprendem costura e sonham com ateliês e nova vida fora da prisão

Projeto alia qualificação profissional, autonomia financeira e ressocialização

Por Wellington Vidal, ContilNet 07/06/2026 às 08:00
Foto: Gleilson Miranda/Secom TJAC

Assim como a agulha e linha transformam tecidos em novas peças, o empreendedorismo tem ajudado mulheres privadas de liberdade no presídio feminino de Rio Branco a reconstruírem as próprias histórias. Por meio de uma parceria entre o Instituto de Administração Penitenciária do Acre (Iapen) e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a capacitação em costura vem abrindo caminhos para geração de renda, autonomia financeira e criação de futuros pequenos negócios após o cumprimento da pena.

Mais do que ensinar técnicas de corte, modelagem e costura, o projeto abre espaço para que mulheres em situação de vulnerabilidade enxerguem novas possibilidades de futuro. 

A analista e coordenadora do projeto Sebrae Delas, Julci Ferreira, destaca que 2026 marca a primeira participação de mulheres privadas de liberdade no 3° Encontro das Costureiras do Acre. Segundo ela, a ação busca levar conhecimento, incentivar a autonomia financeira e mostrar que o empreendedorismo pode ser um caminho de transformação social. 

ulci Ferreira reitera importância do empreendedorismo para mulheres em vulnerabilidade social. Foto: Isabelle Nascimento/Iapen

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“A proposta é justamente despertar nelas a confiança de que podem empreender, gerar renda e construir novas trajetórias quando estiverem em liberdade, empreendedorismo como uma alternativa significa dizer que o mercado de trabalho pode dizer não, mas ela sozinha vai poder se reerguer, vai poder trabalhar em algo que ela aprendeu”, ressalta.

Para a chefe da Divisão do Estabelecimento Penal Feminino de Rio Branco, Jamilia Sousa, iniciativas voltadas à capacitação profissional são fundamentais para o processo de ressocialização das internas e para a redução da reincidência criminal. De acordo com ela, oferecer qualificação dentro do sistema prisional significa ampliar oportunidades e fortalecer a reintegração dessas mulheres à sociedade.

Entre as participantes do curso está a interna, Tiana Souza*, para ela, aprender costura significa a possibilidade de deixar o presídio com um ofício e enfrentar com mais segurança os desafios da vida fora do sistema prisional.

“Quando a gente sai, geralmente enfrenta muita discriminação. Então saber que vou sair daqui podendo trabalhar e fazer alguma coisa muda muita coisa”, relata.

Mãe de família e prestes a reconstruir a vida fora do sistema prisional, os sonhos que já pareciam tão distantes de serem realizados, passaram a ter novamente espaço com a experiência vivenciada no curso. Tiana conta que já aprendeu a tirar medidas, fazer moldes e confeccionar peças de roupa e que agora, imagina transformar o aprendizado em profissão.

“Eu penso em ter um ateliê futuramente. Já me imaginei até uma estilista famosa”, diz, entre risos. Outra participante do projeto, Gorete Figueiredo*,  afirma que os cursos realizados dentro da unidade têm ajudado a reconstruir sua autoestima e a acreditar em uma nova trajetória após o cumprimento da pena.

“Eu acredito que isso vai mudar todo o meu potencial quando eu sair daqui e posso ter uma nova vida lá fora. Já fiz dois cursos aqui dentro e tenho diploma dos dois. Sou muito feliz pelo que aprendi e acredito que isso vai me ajudar bastante quando eu sair”, afirma.

Além da qualificação profissional, o projeto também fortalece valores como disciplina, responsabilidade e trabalho coletivo. 

Para mulheres que carregam o peso do encarceramento e do preconceito, o empreendedorismo surge como uma possibilidade concreta de recomeço, autonomia e reinserção social. Entre linhas, tecidos e moldes, elas aprendem que além de uma profissão, é possível construir novos caminhos para reescrever suas histórias e reconstruir a própria identidade por meio do trabalho.

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