
Ademar Bogo
De lá para cá quase nada mudou; seja na França, na Grécia ou no Brasil. O Estado continua sendo um nódulo dolorido sobre o corpo da sociedade, que se alimenta do esforço de quem trabalha. As maiores mudanças, desde a Comuna de Paris, ocorreram nas ilusões e o que antes era visto como um instrumento violento passou a ser admirado como uma excrescência de estimação, capaz de ajudar a construir, com verbas públicas, o caminho da nova sociedade. Por isso, o Estado, em vez de ser combatido passou a ser cuidado como parte do patrimônio dos trabalhadores, cujo acesso se dá pelos partidos que dividem as tarefas entre si, a torto e a direito.
A visão fetichizada do Estado, do governo e da via institucional que tende a reproduzir a ideia de que o poder encontra-se nas instâncias políticas e não na força do capital e da propriedade privada, leva os trabalhadores a pensar que o Estado e o governo lhes pertencem. A ilusão leva as massas e, com elas, contingentes de mentes intelectualizadas, bem intencionadas, a acreditar que o poder se conquista através da competência e do respeito democrático.
Acontece então que, de um mandato para outro, a população se vê atacada por mãos de ferro que há poucos dias acenavam amorosamente nos comícios. Ou seja, nos momentos de crise, as forças cuidadoras da ordem, que prometeram o reino da liberdade, sabem de que lado devem ficar e o discurso que devem usar. Ao invés de aproveitarem o momento e, com mãos cirúrgicas, atacar a excrescência ou o nódulo e livrar-se de vez da classe dominante que se beneficia do velho parasita, fazem o contrário e penalizam a população com o aumento dos impostos, dos preços, dos juros etc., simplesmente para arrancar dos bolsos dos contribuintes, o ouro que darão de agrado aos bancos, aos credores e demais parasitas, para que se acalmem, não ameacem o mandato e contribuam financeiramente nas próximas eleições.
Mas errados não estão os capitalistas urbanos ou do agronegócio em exigirem que o Estado e o governo lhes sejam fiéis e protetores; foi para isso que os criaram. Errados são os partidos e os movimentos populares, cujas lideranças conhecem teórica e prática a natureza de tais instrumentos, mas que, no exercício dos mandatos e nas negociações amigáveis das pautas envelhecidas, preferem ouvir histórias de ninar e não contar aquelas que pregam a ruptura.
Então se juntam os eufóricos com aqueles que estão tomados pelo sono, provocado pelas histórias de ninar e combinam em tapar os buracos da corrupção abertos na estrada pública, jogando com os dedos, a areia de grão em grão.
Dito de outro modo, a dívida política da segurança pública e o respeito aos direitos humanos, as péssimas condições de atendimento à saúde, a desqualificação do ensino, a negação da reforma agrária, o desvio de verbas públicas, as altas taxas de juros etc., serão resolvidos com a aprovação do FINANCIAMENTO público ou privado das campanhas eleitorais?
Nesse caso, já é hora de perguntar, para que servem os movimentos e os partidos em tempos de crises? É ocupar-se em receber minguadas verbas públicas e com os desejos morais ou embrenhar-se no combate para derrotar aqueles que as provocam?
Ademar Bogo é filósofo e escritor.