Excrescência parasitária

Por Marina, ContilNet 04/03/2015 às 19:15

Ademar Bogo

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Ademar Bogo

O título acima pertence a Karl Marx e é extraído da análise que o mesmo fez da Guerra Civil na Fran­ça, na qual, a Comuna de Paris – apesar de seu curto reinado – de­monstrou em 1871, que era possível e necessário superar a estrutura do Estado e colocar em seu lugar o po­der popular.

De lá para cá quase nada mudou; seja na França, na Grécia ou no Bra­sil. O Estado continua sendo um nó­dulo dolorido sobre o corpo da so­ciedade, que se alimenta do esforço de quem trabalha. As maiores mu­danças, desde a Comuna de Paris, ocorreram nas ilusões e o que antes era visto como um instrumento vio­lento passou a ser admirado como uma excrescência de estimação, ca­paz de ajudar a construir, com ver­bas públicas, o caminho da nova so­ciedade. Por isso, o Estado, em vez de ser combatido passou a ser cui­dado como parte do patrimônio dos trabalhadores, cujo acesso se dá pe­los partidos que dividem as tarefas entre si, a torto e a direito.

A visão fetichizada do Estado, do governo e da via institucional que tende a reproduzir a ideia de que o poder encontra-se nas instâncias po­líticas e não na força do capital e da propriedade privada, leva os traba­lhadores a pensar que o Estado e o governo lhes pertencem. A ilusão le­va as massas e, com elas, contingen­tes de mentes intelectualizadas, bem intencionadas, a acreditar que o po­der se conquista através da compe­tência e do respeito democrático.

Acontece então que, de um man­dato para outro, a população se vê atacada por mãos de ferro que há poucos dias acenavam amorosamen­te nos comícios. Ou seja, nos mo­mentos de crise, as forças cuidado­ras da ordem, que prometeram o rei­no da liberdade, sabem de que la­do devem ficar e o discurso que de­vem usar. Ao invés de aproveitarem o momento e, com mãos cirúrgicas, atacar a excrescência ou o nódulo e livrar-se de vez da classe dominan­te que se beneficia do velho parasita, fazem o contrário e penalizam a po­pulação com o aumento dos impos­tos, dos preços, dos juros etc., sim­plesmente para arrancar dos bol­sos dos contribuintes, o ouro que da­rão de agrado aos bancos, aos credo­res e demais parasitas, para que se acalmem, não ameacem o manda­to e contribuam financeiramente nas próximas eleições.

Mas errados não estão os capita­listas urbanos ou do agronegócio em exigirem que o Estado e o governo lhes sejam fiéis e protetores; foi para isso que os criaram. Errados são os partidos e os movimentos populares, cujas lideranças conhecem teórica e prática a natureza de tais instrumen­tos, mas que, no exercício dos man­datos e nas negociações amigáveis das pautas envelhecidas, preferem ouvir histórias de ninar e não contar aquelas que pregam a ruptura.

Então se juntam os eufóricos com aqueles que estão tomados pelo so­no, provocado pelas histórias de ni­nar e combinam em tapar os bura­cos da corrupção abertos na estra­da pública, jogando com os dedos, a areia de grão em grão.

Dito de outro modo, a dívida polí­tica da segurança pública e o respei­to aos direitos humanos, as péssimas condições de atendimento à saúde, a desqualificação do ensino, a negação da reforma agrária, o desvio de ver­bas públicas, as altas taxas de juros etc., serão resolvidos com a aprova­ção do FINANCIAMENTO público ou pri­vado das campanhas eleitorais?

Nesse caso, já é hora de pergun­tar, para que servem os movimen­tos e os partidos em tempos de cri­ses? É ocupar-se em receber min­guadas verbas públicas e com os de­sejos morais ou embrenhar-se no combate para derrotar aqueles que as provocam?

Ademar Bogo é filósofo e escritor.

 

Conteúdo Original / Fonte: Brasil de Fato

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