No final de 2015, o PSDB do Acre apresentou um pré-candidato à prefeitura de Rio Branco, Francineudo Souza da Costa. Ele tem 30 anos. Foi líder estudantil, ativista ambiental e já foi candidato a vereador e a deputado estadual, sendo, atualmente, primeiro suplente do partido na Assembleia Legislativa do Acre (Aleac).
Nasceu em Rio Branco, filho de agricultores que migraram para a cidade e passou a infância e a adolescência em uma região tida como uma das mais violentas da capital, a Baixada da Sobral.

Francineudo Costa foi apresentado no final de 2015 como pré-candidato do PSDB para disputar a prefeitura de Rio Branco
Trabalhou como vendedor de picolés e ajudante de pedreiro. Estudou em escolas públicas e se formou em Engenharia Florestal pela Universidade Federal do Acre (Ufac).
Caso tenha o seu nome homologado, será um estranho no ninho. Apesar de ser um líder em ascensão na oposição, representa uma minoria na política acreana, seara majoritariamente conservadora e elitista.
O jovem orgulha-se de seu passando humilde, da formação acadêmica e das influências de políticos como Marina Silva e Henrique Afonso. Acredita estar no lugar certo e na hora certa. “Para mim, a pré-candidatura é uma honra e uma enorme responsabilidade”, declarou Francineudo, agradecendo o partido e especialmente duas de suas principais expressões, o deputado federal e presidente regional, Major Rocha, e o presidente do Instituto Teotônio Vilela (ITV), o ex-deputado Márcio Bittar.
Nesta entrevista, o pré-candidato fala daquilo que mais gosta, que é a política, a seu ver a forma mais apropriada de interferir de forma proativa na vida das pessoas. “Como disse Santo Agostinho, a política é para servir”, assim concebe ele, afirmando que os tucanos não estão à procura de heróis, mas de um projeto político coletivo capaz melhorar as vida dos acreanos.
O senhor pretende ser candidato a prefeito justamente no momento em que enfrentamos a maior crise econômica de todos os tempos, inclusive com a decretação de falência de algumas prefeituras Brasil afora. Comente sobre isso?
A crise que vai se aprofundar. Isso é o que eu ouço, não é o que eu desejo. E o que está acontecendo vai ter uma repercussão muito forte porque alguns setores, que estão integrados à economia urbana, irão pagar um preço muito alto, pois as empresas terceirizadas começarão a demitir. Aqueles que estão prestando serviços associados a vários setores produtivos começam a perder os seus postos de trabalho. A classe média está pagando um preço altíssimo com inadimplência, porque uma boa parte dela já não consegue mais pagar suas contas. Como o desemprego, que aumenta a cada dia, essa situação vai piorar. Precisamos recuperar a credibilidade. A credibilidade daquilo que se diz, a credibilidade aquilo que se fala e faz. Isso é válido para o governo, é válido para a oposição e é válido para quem está assumindo posição. Esse é o momento de encarar a verdade, fazer autocrítica, enfrentar os problemas e reconhecer que resolvemos nada sozinho. No tocante à prefeitura, é preciso fazer um choque de gestão, otimizando recursos e invertendo prioridades.
Como avalia a administração do prefeito Marcus Alexandre?
Ruim. Existe um número excessivo de secretarias e cargos comissionados. O fisiologismo é estratégia do PT para se manter no poder. Às vezes até existe o setor, mas não existe orçamento para a execução dos serviços e, dessa forma, vão se avolumando os problemas. Todo esgoto da cidade vai direto para os rios e igarapés sem tratamento prévio. O transporte coletivo é precário, as ruas estão cheias de buracos, as 10 creches ficaram apenas na promessa, sem falar da criação das cinco mil vagas para crianças na pré-escola. Na zona rural o descaso é ainda maior. Amargamos o pior PIB do país, posto que o modelo econômico do governo petista é fantasioso.
Por que defende que a passagem dos ônibus não tenha aumento?
Quando soube que o prefeito planejava aumentar a tarifa do transporte público eu fiquei estarrecido, pois, no início deste ano, ele isentou as empresas de transporte público municipal do pagamento de milhões em impostos. Na oportunidade, alegou que, dentre as condições para isenção, estava a proibição de aumentar os valores das tarifas. Esse aumento, além de imoral, atinge todas as classes sociais, inclusive aqueles que possuem transporte particular, pois quem não usa transporte público paga para que outras pessoas usem, a exemplo de donas de casa e empresários. Por isso, decidi ficar ao lado dos rio-branquenses e lutar contra o aumento, porque o povo já tem padecido demais com os impactos dessa crise financeira, gerada principalmente pelo governo irresponsável da presidente Dilma, agravada pela incompetência dos gestores petistas no Acre.
A insatisfação dos cidadãos com o sistema político é cada vez maior. Tudo só piorou em termo de condições gerais, mas a população às vezes se manifesta, às vezes fica calada um tempo longo. Como interpreta isso, levando em consideração os escândalos da Petrobrás, a crise no Congresso Nacional, a possibilidade de impeachment da presidente Dilma Rousseff e as manifestações de ruas?
Francineudo Costa – Estamos vivendo uma crise de representatividade na classe política, no movimento social e na maioria das instituições. Aliada à economia, vieram as crises moral e ética. A política, que é intrínseca a todos nós, surgiu da necessidade de dialogar e equacionar interesses. Para participar da política é preciso ter grandeza, espírito público e causas para defender na sociedade. A maioria dos políticos não defende a coletividade. Estão na política com outros propósitos. Daí a frustração e indignação das pessoas. O PT nivelou a política por baixo. Era o partido da esperança e justiça social, porém se transformou num partido de criminosos.
Como avalia as administrações dos governos petistas no Acre?
A longevidade do PT acontece, basicamente, por dois fatores. O grupo se aproveitou da conjuntura favorável por causa dos desgovernos de seus antecessores e a apropriação de um discurso ideológico, que encontrou ressonância na sociedade. Depois disso, formaram alianças com políticos e empresários inescrupulosos, amordaçaram a imprensa e perseguiram os seus profissionais, investindo maciçamente em propaganda para promover as imagens de seus líderes. Tudo isso com a condescendência de membros do Ministério Público e setores do Poder Judiciário. Os petistas criaram um regime autoritário jamais visto: instituíram marcas e símbolos; criaram e articularam uma rede de agentes políticos em todos os seguimentos socais; iludiram e cooptaram lideres de prestígios nos movimentos sociais; usaram o aparato do Estado para perseguir quem não submetesse aos seus ditames; lavaram dinheiro de corrupção; e enriqueceram ilicitamente. Em síntese, implantaram o “estado do medo”, no qual quem não se enquadrasse era acusado de não gostar do Acre, numa alusão ao ufanista “Ame-o ou deixe-o”, de triste memória, legado pelo regime militar. Adolfo Hitler e Benito Mussolini, se estivessem vivos, aprenderiam muito com esse políticos.
Caso se eleja prefeito, o que faria para trazer desenvolvimento e melhoria na vida das pessoas?
Levaria investimentos e tecnologia para fomentar a produção agrícola, dotando os produtores de opções, uma vez que o desmatamento e uso do fogo estão proibidos. Abriria e recuperaria os ramais, pois a maioria está sem trafegabilidade. Colocaria em prática o zoneamento ecológico e econômico, isto é, cultivaríamos apenas aquilo que é vocacional para uma determinada região e sem agredir o meio ambiente. Traria investimentos para nosso estado, porque estamos na tríplice fronteira e, portanto, numa região estratégica. Diminuiria a carga tributária para que a iniciativa privada pudesse aqui se instalar. Faria, também, aquilo que chamo de inversão de prioridades, ou seja, ao invés de gastar exageradamente com propaganda, diárias de assessores, mordomias eu direcionaria esses recursos para a saúde, educação e produção. Seria, ainda, transparente com a coisa pública, alargando a participação das pessoas na administração. Acabaria com essa simbiose com algumas instituições autônomas. Enfim, seríamos um governo democrático, respeitador do contraditório e do estado democrático de direito. Acredito na força da juventude e que os jovens acreanos, especialmente os que moram na periferia e no interior, precisam de alternativas para ingressar no mercado de trabalho, não obstante aos sagrados direitos ao lazer e entretenimento, afastando-os do perigoso mundo das drogas e do crime.
E a reforma política? O senhor é favorável ao financiamento público de campanha?
Não apenas essa, mas também a previdenciária, a trabalhista e a tributária. Sou favorável ao financiamento público de campanha misto, com a contribuição de cidadãos, de indivíduos com um teto para essa contribuição. Precisamos acabar com a contribuição de empresas. É por isso que eu insisto, a reforma é também na postura.
O senhor gosta de falar em felicidade e numa filosofia do “bem viver”. O que é isso?
Francineudo Costa – Os povos indígenas acreditam que não é possível viver melhor sacrificando outros que vivem pior. O bem viver é o equilíbrio entre os seres humanos e destes com os elementos da vida. Trata-se de uma cosmo visão. A convivência de todos os seres humanos, com a mãe terra e todos os elementos do cosmos mais amplamente. Acredito que é possível e necessária a aproximação dessa filosofia indígena na abertura para o que é diverso, na busca de uma sociedade mais justa. Somos capazes de convivermos com as diferenças. Tudo tem que ser pluri e para que tenha sentido deve ser inter, de inter-relação entre todos, para que as coisas avancem. O poder também precisa ser compartilhado para se chegar ao pluralismo e consequentemente ao bem viver. As politicas públicas são fundamentais para se atingir essa felicidade.
