A cozinheira L. B, moradora no bairro Jorge Kalume, acordou com o som de grades sendo sacudidas na madrugada de quarta-feira. O barulho ecoava das bandas do Complexo Penitenciário Oliveira Conde (FOC), até hoje conhecido como Colônia Penal. Passava um pouco das 5 horas da manhã quando os 169 detentos do Pavilhão N começaram a balançar as grades.
Com força sincronizada e ritmo, o som produzido pela batida do aço no cimento foi contaminando todos os 15 pavilhões.
Logo, cerca de dois mil detentos estavam se revezando nas batidas. “O barulho era ensurdecedor. Os funcionários foram evacuados. As mulheres dos presos queriam entrar. A Polícia Militar queria liberar as visitas. Mas, lá dentro, agentes e detentos estavam em guerra.
Tijolos contra bombas de efeito moral. Os presos queriam invadir o pavilhão dos presos que estão no seguro (alcaguetas e estupradores)”, relata o presidente da Associação dos Servidores do Sistema Penitenciário do Acre, José Janes.
Janes chegou ao confronto às 9h30. O pavilhão N já estava em chamas e parcialmente destruído. Uma grade foi arrancada da parede e os tijolos começavam a ser retirados para servir de arma contra os agentes. Não sobrou pedra sobre pedra do Pavilhão N.
Quando se deu conta de que os presos estavam prestes a ocupar o complexo penitenciário, teve a ideia de reunir uma comissão de esposas para entrar no presídio e ver em que condições se encontravam os respectivos companheiros.
“Nós chamamos as lideranças de cada um dos pavilhões para dialogar. Afinal, a rebelião foi iniciada por falta d’água. Nós providenciamos a água mineral e as refeições do dia. Também garantimos o restabelecimento da água encanada. Algumas celas têm 45 presos e um só banheiro. Eles dormem amontoados. Imagine a fedentina se passarem dois dias sem tomar banho. A revolta é certa e o prejuízo fica para quem trabalha lá”, comenta Janes.
Ex-funcionário da empresa de água e saneamento de Rio Branco (Saerb), Janes conta que o reservatório do complexo penitenciário tem capacidade para 1 milhão de litros de água, mas estava vazio, pois havia uma bomba quebrada na ETA 2 e a empresa não tinha uma bomba sobressalente. Toda a regional Sete estava sem água, o que inclui bairros populosos como o Tucumã e o Universitário.
Segundo ele, a cidade de Rio Branco produz 1400 litros de água por segundo, mas 60% são desperdiçados. “Pela madrugada, a água jorra dos encanamentos do presídio. Assim ocorre em toda a cidade. Se corrigissem as perdas, haveria água para duas cidades do tamanho de Rio Branco”, argumenta Janes. (Assessoria)