imigração
No denso e detalhado relatório de campo que a professora Letícia Mamed produziu para o MPT, ao qual a reportagem teve acesso, consta que do Haiti ao Brasil, os imigrantes pagam, em média, de US$ 2 mil a US$ 5 mil pela viagem em grupos até o Acre. Ao todo, a viagem do Haiti ao Brasil tem uma duração média de 15 dias a 20 dias, podendo, em alguns casos, se estender até mais de um mês.
Os imigrantes saem, em sua maioria, da capital haitiana, Porto Príncipe, e seguem de ônibus até Santo Domingo, capital da República Dominicana, que fica na mesma ilha, onde compram passagem de avião ou barco e seguem até o Panamá. Da Cidade do Panamá, prosseguem de avião para Quito ou Quayaquil, as duas maiores cidades do Equador.
Ao desembarcarem no Equador, os imigrantes passam pelo serviço de fiscalização do aeroporto como turistas, se reorganizam durante alguns dias e seguem em viagem para Lima, capital do Peru, em ônibus ou veículo fretado, segundo alguns relatos, com trechos percorridos a pé.
Nesse percurso, evitam a cidade peruana de Tumbes, na fronteira entre Equador e Peru, onde há o serviço policial de migração dos dois países. Para tanto, os coiotes conduzem os grupos de imigrantes por rotas alternativas (florestas, ramais, travessia de rios a nado) até o ingresso em território peruano.
No Peru, passam pelas cidades de Mâncora, Talara, Piura, Chiclayo, Trujilo, Chimbote, Huaraz, até chegarem a Lima, após viagem terrestre com duração, em média, de 25 a 30 horas. Em Lima, também há uma reorganização da viagem durante alguns dias, mas ela segue por via terrestre, pela rodovia Interoceânica, responsável pela ligação do Peru ao Brasil.
Partindo de Lima, passam por Cusco e chegam a Puerto Maldonado, capital do departamento de Madre de Dios, que faz fronteira com o Acre. A viagem de Lima até a fronteira dura cerca de 25 horas. Em Puerto Maldonado, os coiotes definem o prosseguimento em táxi ou em carros alugados, que levam os imigrantes até Iñapari, cidade peruana separada de Assis Brasil (AC) pelo Rio Acre. Nesse trecho a viagem dura mais quatro horas.
No Posto Alfandegário de Assis Brasil, na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Bolívia, os imigrantes se apresentam ao serviço de controle migratório da Polícia Federal, para registrar em seus passaportes a data de ingresso em território brasileiro.
Após isso, pela mesma rodovia Interoceânica, seguem até as cidades gêmeas de Epitaciolândia e Brasiléia, onde existe a delegacia de Polícia Federal responsável pela região de fronteira, unidade na qual dão entrada à solicitação de refúgio. De Epitaciolândia até Rio Branco, onde existe um abrigo, são 235 quilômetros na BR-317, e os imigrantes enfrentam mais duas ou três horas de viagem de táxi.

Sem dinheiro, alguns percorrem parte do trecho a pé pedindo carona. Excetuando os haitianos, os imigrantes das demais nacionalidades, que não se beneficiam do visto humanitário, fazem o mesmo percurso fugindo da fiscalização. Quando chegam em Rio Branco, os imigrantes buscam a sede da Superintendência da Polícia Federal para se regularizarem e seguir viagem para outras regiões do país.
Até abril de 2014, estava sediado na cidade de Brasileia o acampamento público de acolhida dos imigrantes. Entretanto, após a mudança dessa estrutura de serviço para Rio Branco, depois de passarem pela PF, os imigrantes se dirigem até o novo endereço do abrigo.
“O trecho da viagem pelo território peruano, além de ser o mais longo, também é indicado pelos entrevistados como o mais perigoso, em razão das práticas de extorsão contra os imigrantes. De acordo com inúmeros relatos e denúncias, agentes da própria polícia peruana, associados a informantes, coiotes e motoristas, compõem essa rede de tráfico e corrupção, assegurando a dinâmica migratória pela região”, assinala a professora Letícia Mamed.
Em relatos mais pontuais sobre a viagem, imigrantes lembram que nesse trecho muitos se tornam vítimas de roubo, cárcere, espancamentos, estupros e até mortes, situação que é agravada pelo desconhecimento da rota, do idioma local e especialmente pela condição de indocumentados. “Assim, ao chegarem ao Acre, muitos apresentam problemas de saúde decorrentes da longa viagem e estão psicologicamente transtornados pela violência que sofreram no caminho”, acrescenta a professora.
Letícia Mamed assinala que a consolidação da rota migratória inaugurada pelos haitianos até o Acre despertou a chegada de imigrantes de outros países ao acampamento montado em Rio Branco. Segundo dados oficiais divulgados recentemente, 13 diferentes nacionalidades, além do Haiti, possuem registro de passagem pelo local: Bahamas, Bangladesh, Camarões, Colômbia, Cuba, Equador, Gâmbia, Gana, Mauritânia, República Dominicana, Senegal e Serra Leoa. “Mas, independente das rotas percorridas, todos chegam em grupos e a partir do contato com as redes de tráfico de pessoas”, afirma a pesquisadora.
Ela destaca a presença dos imigrantes advindos do continente africano, especialmente os senegaleses, cujo número vem crescendo de modo considerável desde o ano de 2013, fazendo deste o segundo maior grupo de estrangeiros presentes no Acre.
Entretanto, embora a chegada ao Acre seja, em grande parte, pela mesma rota entre Equador, Peru e Brasil, e todos sejam recebidos igualmente no acampamento de imigrantes, a convivência entre eles nem sempre é cordial e solidária.
A rota percorrida pelos imigrantes africanos inicia de avião, em Dakar, capital senegalesa, e inclui escala em Madri, na Espanha, e prossegue para o Equador. Ao chegarem em Quito ou Guayaquil, os imigarantes passam então a seguir a mesma rota dos haitianos até o Acre, via Interoceânica.
