Participei nesta terça-feira (25) da sabatina promovida pela TV Rio Branco com os candidatos ao Governo do Acre. Antes de qualquer coisa, parabenizo a equipe liderada por Narciso Mendes e Marcio Nunes pela organização do evento, que teve a energia de um debate e nos deu a sensação importante de início de disputa.
Os candidatos foram desafiados por uma fala contundente e necessária do grande Narciso: “Economizem energia e sejam práticos em suas propostas. O eleitor está cansado de discursos longos e não cumpridos”.
O disparo do jornalista mudou até o rumo das discussões: os postulantes ao Palácio Rio Branco foram mais específicos em seus projetos para o Acre.
O clima esquentou
O momento mais tenso da sabatina foi quando a governadora Mailza Assis pediu direito de resposta diante da afirmação do senador Alan Rick de que a Delegacia de Combate à Corrupção estava desativada. A equipe constatou que o órgão segue em funcionamento, e o direito foi concedido à candidata do Progressistas.
Alan não gostou muito!
O senador não concordou com o direito de resposta, por entender que Mailza só teria essa prerrogativa se sua honra tivesse sido atacada. Por um momento, Alan chegou a retrucar o apresentador, quando ele deu a Mailza um minuto para esclarecer a situação.
“Eu também quero um tempo de fala, então”, pontuou o senador.
O que percebi
Me atentei a um fato muito importante, que liga todos os candidatos da direita — a saber: Mailza, Alan e Bocalom — e extrapola o debate: os três comungam de um passado recente, e é bem difícil um apontar o dedo para o outro quando os três já estiveram no mesmo barco, em uma aliança que ainda está fresquinha na mente da gente.
Para entender
Alan e Mailza estavam juntos, há poucos anos, na gestão de Gladson. A irmã do senador, a publicitária Mirla Miranda, já foi porta-voz do ex-governador e diretora de uma das pastas do seu governo. Saiu do cargo por conta da decisão de Cameli de ter Mailza como candidata. É difícil falar mal de uma gestão da qual se fez parte por um bom tempo.
Além disso…
Mailza e Gladson trabalharam com muitas emendas de Alan e em parceria com o senador em diversos projetos. Os três têm mais coisas em comum do que se imagina…
Mailza e Bocalom
É difícil até para a governadora apontar os erros na gestão do ex-prefeito Tião Bocalom, e vice-versa. Primeiro porque ela é uma das grandes responsáveis pelas duas vitórias dele na Prefeitura de Rio Branco, sendo uma grande entusiasta do seu projeto. Os dois se apartaram muito recentemente por conta da decisão de Bocalom de ser candidato ao Governo.
Quanto ao Boca…
Eleito com apoio da máquina governamental em seu último mandato, o ex-prefeito tinha, até ontem, o ex-governador Gladson Cameli e o senador Marcio Bittar como seus candidatos ao Senado. Tudo mudou porque o velho Boca se viu deixado de lado pelos dois, tendo agora apenas um candidato no pleito: o deputado Eduardo Velloso.
Governo Gladson
Também é delicado para Alan e Bocalom colocar o peso das acusações de corrupção feitas na gestão do Governo Gladson apenas no colo de Mailza, já que ambos defenderam essa gestão por muito tempo e foram beneficiados por ela, mesmo que indiretamente. Todos, de alguma forma, comungam de um mesmo passado recente.
Parece o desenho do Homem-Aranha

Quando vejo alguns discursos partindo desses três, me vem logo à mente o meme do Homem-Aranha apontando para o Homem-Aranha — imagem retirada de um episódio do desenho animado do personagem, na sua versão dos anos 60. Nela, duas pessoas fantasiadas de herói apontam uma para a outra. A crise é, sobretudo, estética — já dizia o velho Twitter.
É preciso focar em projetos
Não estou aqui dizendo que a crítica não deve ser feita. Pelo contrário: há contradições quando ela é lançada, mas a ausência dela enfraquece o debate. É preciso criticar e oferecer um contraponto, um outro lado, uma saída. Aliás, é isso que precisa ser dito com mais frequência pelos candidatos: o que será feito com os problemas que estamos enfrentando. Arrastar corrente não resolve nada, em absoluto.
Thor também não está livre
Ao fazer críticas pesadas aos governos de direita, Thor também precisa olhar para os erros cometidos nas gestões de duas décadas da Frente Popular — grupo que hoje está na sua base — e preparar o peito para dar conta do recado. É importante dizer: o médico é um dos mais preparados no debate. Tem repertório qualificado.
“A contradição nos pertence”
Comungar de um passado recente não é um demérito, nesse caso. Audre Lorde, a escritora americana, já apontava que “a contradição nos pertence”. Mas é preciso estar ciente dessas contradições e não deixar que o debate recaia no ataque pessoal. O Acre merece mais.

