Armando Boito Jr.
Os leitores que residem em bairros burgueses e de alta classe média devem ter testemunhado a gritaria, o panelaço e o buzinaço ocorridos à noite, dia 08 de março, no momento em que a presidenta Dilma Rousseff falava em cadeia nacional.
O protesto impressionou pela sua força e espontaneidade. Por que a temperatura subiu tanto? Quem está disposto a lutar pelo impedimento da presidenta?
A oposição neoliberal ortodoxa no Brasil é dirigida pelo grande capital internacional e pela fração internacionalizada da burguesia brasileira, mas a sua base militante é a classe média abastada que se concentra na Região Sudeste – não estou me referindo a toda classe média, mas à fração superior dessa classe social.
Por que esse setor social está incrementando suas iniciativas contra o governo e intensificando sua militância? Uma resposta acabada a essa questão exigiria pesquisas e levantamentos que não dispomos. Mas, podemos juntar informações disponíveis, recorrer à teoria política e tentar traçar uma explicação verossímil.
A revolta da fração abastada da classe média dirige-se especificamente contra a política social dos governos do PT. A corrupção e sua apuração mais que suspeita pelo Judiciário não é o motivo principal. Tanto é assim, que esse mesmo setor social faz vistas grossas para a corrupção do PSDB.
O que ocorre é que, à medida em que os governos petistas foram insistindo em inovações distributivistas na área social, a oposição da fração abastada da classe média foi se intensificando.
No processo político, as contradições desenvolvem-se, acumulam-se, e podem chegar a um ponto de ruptura. Do programa Bolsa Família ao programa Mais Médicos, a revolta da alta classe média só fez crescer. Agora, a tigela encheu até à boca e os coxinhas irão para a rua.
Primeiro, foi o Bolsa Família. A alta classe média sentiu-se ofendida. Os indivíduos que integram essa fração de classe julgam que a sua posição social privilegiada é fruto do seu esforço pessoal e dos seus méritos individuais. Consideram os trabalhadores de baixa renda preguiçosos e incapazes que mereceriam, por isso, viver mal como vivem.
A transferência de renda seria estimular a preguiça e cometer injustiça com quem trabalha e tem méritos. A resistência ao Bolsa Família foi ampla, mas difusa e, em alguns casos, envergonhada.
Depois disso, vieram medidas que atacaram, ainda que perifericamente, posições assentadas desse setor social: quotas para egressos do ensino público e para negros nas universidades e no serviço público.
Nesse caso, além da reação difusa, mas nem por isso ineficiente – até hoje, a USP, Unesp e Unicamp lograram impedir a implantação de cotas -, houve resistência organizada e ativa, por exemplo, na Universidade de Brasília. Como devem se lembrar, o caso foi parar no STF. A alta classe média perdeu: as cotas foram consideradas constitucionais.
Mais recentemente, vieram a extensão dos direitos trabalhistas aos trabalhadores e trabalhadoras domésticas e, finalmente, o programa Mais Médicos. A promoção dos empregados domésticos bateu no bolso da classe alta classe média além de privá-la da relação paternalista e autoritária que mantinha com suas domésticas.
O programa Mais Médicos mobilizou todas associações médicas do país que, com um discurso anticomunista e racista, hostilizaram e hostilizam os médicos cubanos. Ainda está para ser feita uma pesquisa sobre a hostilidade de que tais profissionais têm sido alvo nas clínicas e postos de saúde. A agitação política em torno da corrupção na Petrobras foi a gota que fez transbordar a tigela.
A alta classe média está em pé de guerra. São mais de doze anos sob governos petistas, implantando sucessivas medidas ameaçadoras. Chega! A solução que vislumbram é o impedimento da presidenta. Pior. Essa posição contaminou setores populares.
A corrupção na Petrobrás é, muito legitimamente, motivo de revolta no meio popular. Em São Paulo, por ocasião da gritaria e do buzinaço durante a fala da presidenta, ouvimos de testemunhas que frentistas de postos de gasolina e entregadores de pizza confraternizaram-se aos brados de “Fora Dilma”.
A geografia do voto na eleição presidencial do ano passado também mostrou que parte dos setores populares foram atraídos pelo discurso do PSDB e da mídia.
Diante dessa maré montante da reação, o governo e o PT têm praticado uma política de avestruz. Esconderam-se, não se defenderam, não organizaram e não mobilizaram os trabalhadores contra essa maré montante da reação.
Esperemos que a manifestação do próximo dia 13 marque uma mudança nessa posição. A crítica necessária e incontornável ao ajuste fiscal deve vir acompanhada da denúncia do golpismo.
Fora do PT, algumas organizações socialistas e comunistas insistem, apesar das crescentes evidências em contrário, na velha tese de que o PT e o PSDB seriam farinha do mesmo saco.
O cenário é cada vez mais preocupante e a disputa nas ruas dia 13 e dia 15 será decisiva.