Por Leonardo Melgarejo
“Na sua opinião, o que é amizade nos dias de hoje?”, tema escolhido para redação no Vestibular da UFRGS deste ano, talvez possa nos ajudar a superar o impacto causado pela indicação dos ministros Aldo Rebelo (MCTI) e Kátia Abreu (MAPA).
Isolada por seus temores, acossada pelo tema da governabilidade e aceitando a influência de amigos imaginários, a presidenta pode estar olhando apenas o curto prazo, onde as parcerias efetivas parecem de pouco valor.
Minha filha escreveu sobre isso na redação para o vestibular: na solidão de cada um, estamos todos sós, e isso pode levar à busca de qualquer tipo de apoio. Uma espécie de cegueira, que permite ao personagem Fabiano, de Vidas Secas, conversar com o cachorro Baleia, mas não com os filhos. Que leva o personagem Theodore, do filme futurista Her, a se apaixonar pelo sistema operacional do próprio celular, buscando ali soluções para problemas do cotidiano.
Nesta linha, a presidenta, sujeita ao fato de que as questões econômicas parecem estar sendo trabalhadas com receitas frágeis (de novo, a “governabilidade”, Ver texto de L.G.Beluzzo em http://www.cartacapital.com.br/blogs/outras-palavras/201cajuste-fiscal201d-a-vitoria-da-oligarquia-financeira-5748.html) e, ao mesmo tempo, consciente da importância da agricultura de exportação para o atendimento de compromissos de governo, estaria optando por gestores que lhe parecem adequados para tocar o barco adiante, atendendo as safras do já e do agora.
Aldo Rebelo, que se notabilizou por resolver com rapidez impasses relacionados à ocupação de terras agricultáveis, perdoando crimes ambientais e reduzindo áreas de amortização em beiras de rio, permite, de fato, expectativas similares para o caso da liberação, no Brasil, de árvores, insetos e grãos transgênicos. Processos interrompidos em países mais cautelosos serão agilizados no Brasil.
Agentes internacionais do agronegócio exultarão: crescerá a exportação de soja e celulose; crescerá mais ainda a importação de fertilizantes e agrotóxicos. E o Governo Dilma poderá “aprimorar o funcionamento dos órgãos responsáveis pela aprovação de novas tecnologias, permitindo que elas sejam ofertadas rapidamente aos produtores rurais” (ver http://www.canaldoprodutor.com.br/sites/default/files/proximo_presidente_web.pdf ), atendendo reivindicação da Confederação Nacional da Agricultura – CNA) .
Já Kátia Abreu é a própria CNA. Com ela crescem as possibilidades do agronegócio obter sua tão desejada CTNBio dos agrotóxicos (“Estabelecimento de um novo marco regulatório para registro e reavaliação de agroquímicos e fertilizantes” e a “Criação de um colegiado técnico para reduzir a ingerência ideológica nas análises e acelerar a conclusão dos processos dos agroquímiocos”) .
Mais grave, Kátia e Rebelo, juntos, permitem esperar apropriação de recursos do MCTI por interesses privados, colocando as universidades federais a fazer pesquisa básica que dará sustentação àqueles interesses.
O que pensar de programas realmente importantes sob o ponto de vista da estruturação nacional, claramente de longo prazo e contraditórios em relação àquelas perspectivas e interesses do Agronegócio? O que pensar da Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO), construída de forma participativa pela sociedade e o governo, como desdobramento de reivindicação das mulheres do campo (http://fetase.org.br/mobilizacoes/marcha-das-margaridas/ ), que tanto se empenharam pela manutenção do Governo Dilma?
O que esperar de iniciativas que apontam para a valorização da agricultura familiar, das comunidades e povos tradicionais, como áreas livres de agrotóxicos e transgênicos, como a agroecologização dos assentamentos e a supressão da pulverização aérea de venenos, entre outros pontos do PRONARA (Programa Nacional de Redução do Uso de Agrotóxicos. Ver http://www.cpafap.embrapa.br/interagindo/index.php/pt-br/noticias/157-programa-nacional-de-reducao-de-agrotoxicos-pronara-resulta-de-demanda-da-sociedade-diz-pesquisador), já aprovado no mérito pela CNAPO (Comissão Nacional de Agroecologia e produção Orgânica – http://planetaorganico.com.br/site/index.php/planapo-decreto-7794/ )?
As perspectivas são ruins, se contarmos com uma presidenta isolada, distante das bases reais, esquecida de que o desenvolvimento só existirá apoiado em horizontes largos e, pior, aconselhada por ministros como Kátia e Rebelo.
Felizmente a sociedade não espera. Sabe que não pode contar com mudanças iniciadas, construídas e finalizadas pelo Governo; sabe que é possível a cada um fazer sua parte e que em parceria, somos fortes. As organizações sociais apontam vasta multiplicidade de bons exemplos onde o Governo pode se espelhar. Vejam o caso da Área Livre de Transgênicos e Agrotóxicos da ABAI – Fundação Vida para Todos (http://www.fvida.org.br/), onde ocorrem as Festas da Semente Crioula de Mandiritua, PR. Construída em território doado por Marianne Spiller, aquela fundação também garante educação para 300 jovens, e só existe porque Marianne deu o grande passo da solidariedade e encontrou outros, que doaram seu tempo, trabalho e confiança. Palavras dela: “Aqui somos muitos, trabalhando pela vida de todos”.
Conversar com Marianne sempre alimentou minha certeza de que todos nós, a presidenta incluída, podemos encontrar objetivos maiores do que aqueles que se esgotam a cada mês, e sempre encontraremos apoio e parceiros, em pessoas e organizações comprometidas com o futuro de todos.
Mas, como a presidenta Dilma já optou por Kátia e Aldo, cabe torcer que dê preferência aos conselhos de ministros mais próximos de seus compromissos históricos e mais sensíveis a questões de longo prazo, ao protagonismo social, à agricultura familiar, à reforma agrária, à agroecologia e à saúde pública.
Interlocutores como Pepe Vargas, Miguel Rosseto e Patrus Ananias podem ajudar a Presidenta a lidar com armadilhas ocultas em sua obsessão pelo curto prazo. Que o tema de redação deste vestibular da UFRGS nos sirva de alerta a todos e que ela, em sua solidão, consiga evitar diálogos imaginários e deixe de confundir bajuladores com amigos.
*Leonardo Melgarejo é agrônomo e fotógrafo, além de doutor em Engenharia e coordenador do GT Agrotóxicos e Transgênicos da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA).
