CONTINUA SARADONA
Aos 64 anos de idade o primeiro travesti do Acre, Adalberto Rodrigues, que despertava olhares curiosos nos anos 80 quando passava vestido de mulher nas ruas de Rio Branco, está “saradaço”, ou “saradão”, como se diz no ‘linguajar estético’ dos jovens de hoje.
Adalberto, conhecido como Patrícia –ou Patty para os amigos – tem muita história para contar. Com 64 anos de vida, enfrentou muitas lutas e conheceu de perto o preconceito e as dificuldades de morar, na época em que se assumiu travesti, em uma cidade pacata e conservadora, como era Rio Branco há cerca de três décadas.

Após muitos anos encontrei Patrícia no aniversário do senador Sérgio Petecão, que completou 55 anos no dia 19 de abril, e comemorou a data com uma grande festa em sua fazenda mais famosa, a “Boi Cagão”, localizada há dez quilômetros do centro da cidade.
Conheci Patty no início dos anos 80, logo que vim de Sena Madureira morar na capital do Acre. Antes, nunca tinha visto um travesti, nem em fotografia. Naquela época a televisão estava chegando ao Vale do Iaco, e os autores de novelas nem sonhavam em exibir as cenas que vemos hoje.
Logo que comecei a escrever no jornal “O Rio Branco”, em 1982, conheci o saudoso José Chalub Leite, que na época trabalhava no Serda, órgão do governo estadual , e algum tempo depois voltou a editar o periódico mais antigo do Acre. Lembro as matérias e notinhas que ele publicava mostrando as “extravagâncias” da Patrícia e mais três travestis: a Karla, a Iña e a Raimeka. Este quarteto era famoso em Rio Branco…
Há muitos anos eu não via nenhum dos quatro. Não sabia nem se ainda estavam vivos. Fiquei surpresa e feliz ao reencontrar a Patrícia no aniversário do senador Sérgio Petecão toda bem vestida, abanando-se com um leque e com uma boa aparência física. Nem parece que está chegando aos 70.
Sem perder tempo, pedi que concedesse uma entrevista ao portal ContilNet Notícias e ela, prontamente, atendeu-me. Esbanjando simpatia e demonstrando vigor, Pat disse que está sumida da mídia por conta da rotina puxada. Ela trabalha para o senador Sérgio Petecão, e também como diarista em casas de família.
Perguntei o que havia mudado em sua vida dos anos 1980 para cá. Ela disse que o preconceito diminuiu, e que está decepcionada com a atual situação do país. Patty fala também dos seus sonhos, sobre a forma como vê a política hoje e o Brasil que quer no futuro.
Veja a conversa com o primeiro travesti do Acre.
ContilNet Notícias – Dos anos 1980 até hoje, o que mudou na sua vida e o que você tem feito?
Patty – De lá pra cá tenho feito a mesma coisa, não mudou muito não. O que mudou foi a questão do preconceito, né? Mudou mais. Depois que fizeram algumas coisas, como a Parada Gay, as palestras sobre as diferenças de gêneros e todo mundo foi ‘ficando de bem’.
ContilNet – Você sofreu muito preconceito quando decidiu se assumir?
Patty – Ah, muito! Muito preconceito mesmo… Era humilhada em plena praça, às vezes tinha que correr de marginais e me esconder. Nunca apanhei de ninguém, mas presenciei amigas minhas apanhando. Uma vez, por exemplo, em época de Carnaval estávamos nas proximidades da prefeitura [de Rio Branco] e tivemos que correr até a beira do Papoco! Consegui escapar debaixo de uma casa cheia de lama, mas ela não.
ContilNet – E o que eles fizeram com sua amiga?
Patty – Bateram muita nela, obrigaram ela fazer um monte de coisas terríveis. Não gosto nem de lembrar.

ContilNet – Como está sua vida amorosa?
Patty – Tenho um namorinho aqui, outro ali (risos). Mas, fora isso, não estou com ninguém, não. Quando arrumo alguém, é ele na casa dele e eu na minha.
ContilNet – Você teve filhos?
Patty – Não.
ContilNet – Já namorou com mulher?
Patty – Não, nunca namorei.
ContilNet – Como você descobriu que gostava de homens?
Patty – Descobri na infância, aos três ou quatro anos de idade. Estava tentando me entender, né? Pegava as roupas da minha irmã, vestia. Coisas de homem eu não queria. Fui crescendo assim. Apesar disso, tenho sete irmãos e quatro deles são homens.
ContilNet – Mas entre esses quatro homens você está se incluindo (risos)?
Patty _ Sim, fui batizada com o nome de Adalberto. Em casa a minha família me chama de Bento! (risos).
ContilNet – O que você faz para se manter em forma?
Patty – Olha, eu nunca fumei, nunca bebi exageradamente. Bebo só uns copinhos de cerveja. Mas o que eu amo mesmo fazer até hoje é dançar. Mas nunca fui de muita noitada, gosto de dormir cedo. Já fiz programas, mas nunca fui de ficar em beira de esquina. Hoje eu vivo da ajuda de amigos como o Petecão, eu trabalho com ele, e das diárias que faço em casas de famílias.
ContilNet – Qual o tipo de serviço que você presta nas casas onde trabalha?
Patty – Às vezes algumas pessoas me ligam quando querem um almoço bem bacana ou uma refeição ‘caprichada’. Faço de tudo, até faxina! Tenho que me virar porque esse governo está uma tristeza. Não oferece oportunidade de emprego, saúde, educação. No posto [de saúde] lá perto da minha casa às vezes consigo remédio, mas nem sempre tem.
ContilNet – O que espera do futuro?
Patty – Um Brasil melhor! Que nossos representantes deixem de tanta ‘roubalheira’, né?