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Pesquisadores mapeiam 350 km de estradas milenares no Acre: “Monumental”

Por Maria Fernanda Arival, ContilNet 21/06/2026 às 08:20
As estradas foram mapeadas com apoio do LIDAR

As estradas foram mapeadas com apoio do LIDAR/Foto: cedida

A imensidão verde da Floresta Amazônica no Acre esconde, sob as copas das árvores, uma rede conectada de engenharia pré-colombiana que desafia a antiga tese de que a região era um “vazio demográfico” antes da chegada dos colonizadores europeus. A pesquisa, envolvendo pesquisadores brasileiros e finlandeses, contou com a participação de uma acreana.

O uso recente da tecnologia LIDAR (Light Detection and Ranging), um sensor de mapeamento a laser capaz de “penetrar” a densa vegetação e enxergar o relevo do solo, permitiu aos arqueólogos identificar centenas de quilômetros de estradas milenares que interligavam os famosos geoglifos no estado.

As revelações fazem parte de um esforço internacional de uma pesquisa que une cientistas brasileiros e estrangeiros das Universidades de Helsinque e Turku, na Finlândia. Os resultados mais recentes, que comprovaram a existência de caminhos conectando os sítios arqueológicos, foram publicados em uma das revistas científicas mais prestigiadas do mundo, a Antiquity.

Imagem pelo LIDAR (à esquerda) e como ela é vista por satélite

Imagem pelo LIDAR (à esquerda) e como ela é vista por satélite/Foto: cedida

O artigo, chamado “Ancient Amazonian Earthwork Roads: Unveiling Ceremonial, Livelihood, and Networking Significances”, é assinado por Risto Kalliola, Martti Pärssinen, Alceu Ranzi e Antonia Damasceno Barbosa.

CONFIRA O ARTIGO: Ancient Amazonian Earthwork Roads: Unveiling Ceremonial, Livelihood, and Networking Significances

Para Antonia Damasceno, arqueóloga acreana e superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Acre, a descoberta é um marco científico e pessoal: ela é a primeira arqueóloga nascida no Acre a assinar a pesquisa.

“Sempre existiu a ideia de que a floresta é virgem, que aquele espaço nunca foi ocupado ou modificado, mas quando o LIDAR nos mostra essas estruturas monumentais por baixo das árvores, percebemos que nossos ancestrais modificaram a paisagem de forma gigantesca — e o mais incrível: de forma totalmente sustentável”, destaca.

Até pouco tempo atrás, o mapeamento dos geoglifos dependia fortemente de imagens de satélite convencionais ou de sobrevoos em áreas já desmatadas para a pastagem. Áreas de mata fechada apareciam nos mapas arqueológicos como “vazios”. Com o LIDAR, essa barreira ruiu.

O resultado revelou que os geoglifos não eram monumentos isolados. A extensão total das estradas e ramais interligados chega a 350 km.

“O processo é um trabalho de muitos anos de uma equipe multidisciplinar da Universidade Federal do Pará, da Universidade Federal do Acre, do Instituto Geoglifos da Amazônia, da Universidade de Helsinque, da Universidade de Turku, são muitas pessoas envolvidas, e a gente foi juntando esses dados com fotografias aéreas, com imagens de LIDAR, e muito trabalho de interpretação de Google Earth, e se chegou a esses mapas e a essas estradas. É um trabalho coletivo e demorado que chegamos agora a essa a publicar esse resultado que aí está à disposição do público”, explicou o professor Alceu Ranzi.

Segundo a arqueóloga do Iphan, essas vias funcionavam de forma análoga aos ramais rodoviários modernos do Acre: não se trata de uma única grande rodovia, mas sim de uma soma de múltiplos caminhos conectando aldeias, centros cerimoniais e recursos hídricos.

“Os sítios estão interligados. Eles têm uma conexão, caminhos e estradas que se conectam; não há nada desassociado. Começamos a estabelecer padrões de assentamento”, explica a arqueóloga. As estimativas apontam que essa rede de estradas acompanhe o período de ocupação dos geoglifos, que remonta desde o primeiro século da era cristã até 700 anos antes de Cristo, alcançando uma profundidade histórica de até 3.000 anos.

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Sítio Arqueológico Jacó Sá foi tombado pelo Iphan em 2018/Foto: Uêslei Araújo/Sema

O professor explicou que a pesquisa iniciou há 25 anos. “Todos os anos, durante esses 25 anos, no mês de junho e julho nós estamos trabalhando. Então, quando a gente produz alguma coisa é o resultado de muito esforço e estamos muito felizes em poder oferecer à comunidade essas respostas do que são os geoglifos, quem construiu, quando construiu, que idade tem, e agora descobrimos que todas essas figuras estão interligadas entre si. Havia comunicação por essas estradas e esse artigo específico é para mostrar que eles não eram figuras isoladas, que eles estavam conectados por estradas”, destacou.

“Existe um mundo de informações e locais que ainda desconhecemos”, admite Antonia. O foco atual dos pesquisadores é entender a funcionalidade de cada caminho. “Muitas estradas levam a igarapés e fontes de água, outras ligam estruturas entre si, e algumas parecem levar a lugar nenhum”, disse.

Pesquisadores mapeiam 350 km de estradas milenares no Acre: “Monumental”

A pesquisa iniciou há muitos anos/Foto: cedida

No artigo, os autores citam a “Civilização Aquiry”, que faz referência ao povo que vivia no território onde hoje é o Acre.

“O termo civilização Aquiry foi dado pelo Dr. Parssinen, que discutiu comigo qual nome seria para a gente dar a essa a essa civilização. E aí eu disse que essa civilização poderia ser dada o nome de Aquiry, que houve um documento em 1865, do William Chandless, em que ele escreveu que o Rio Aquiry era o principal afluente do Purus, que depois esse Aquiry se transformou em Acre, então por isso, a gente deu o nome de civilização Aquiry”, explicou.

Nos locais onde foi possível observar para onde as estradas se dirigiam, os pesquisadores concluíram que cerca de 40% delas levando à beira dos rios. Outros 10% das estradas terminam nos geoglifos e em outras grandes estruturas de terra escavada e batida.

“É possível concluir que esse povo era um povo extremamente organizado, era uma civilização complexa, e possivelmente essas estradas aqui da Amazônia, elas se conectavam com as estradas dos Andes. Não eram restritos daqui. Havia comunicação entre as civilizações andinas, anterior aos Incas, que mercadorias transitavam entre essa região. Eles aqui viviam nesse mundo interior se comunicando entre si. Uma civilização extremamente complexa, com engenharia, com arquitetura, com astronomia, arquitetos, engenheiros com geometria. Eu digo em algumas das minhas palestras que, enquanto o Pitágoras estava desenvolvendo seu teorema lá na Grécia, os acreanos, eu digo acreanos antes do Acre, estavam desenvolvendo geometria monumental na Amazônia. É um mundo fantástico que está se abrindo para a humanidade”, disse.

O professor destacou que o mapeamento realizado por ele, em conjunto com os demais pesquisadores, é inédito.

“Eu acho que esse mapeamento é sim algo inédito que foi revelado agora. Em 2008 esteve aqui no Acre um pesquisador que publicou na revista Science americana, o Charles Mann, que é autor de um livro chamado 1491: Novas Revelações das Américas Antes de Colombo, e ele diz nesse artigo que a descoberta dos geoglifos do Acre, que na época era apenas do Acre, era o maior acontecimento, era o mais extraordinário acontecimento na arqueologia amazônica dos últimos tempos”, ressaltou.

Representatividade

Além do valor histórico, Antonia faz questão de enfatizar a importância da representatividade local na ciência. Por lei, pesquisas estrangeiras em solo nacional exigem a contrapartida de cientistas brasileiros. Ao lado de nomes históricos da arqueologia regional, como o professor Alceu Ranzi, Antonia participou ativamente da consolidação dos dados.

Pesquisadores mapeiam 350 km de estradas milenares no Acre: “Monumental”

Antonia e Alceu em atividade de campo/Foto: Cedida

“A gente costuma valorizar o que está lá fora e esquece de valorizar o que está no nosso território, no nosso quintal. Fico maravilhada porque é gente da terra que está escrevendo a nossa história, não um cientista de fora que não conhece a nossa realidade. Estar em uma revista conceituadíssima sendo uma acreana de Tarauacá… isso mostra que estamos fazendo história”, conclui.

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