ocupação
Um grupo de 20 indígenas da etnia kaxinawá, originário de uma aldeia do Rio Breu, na fronteira do Acre com o Peru, migrou para o município de Plácido de Castro, na fronteira com a Bolívia, e está prestes a unir o útil ao agradável: sem casa para morar, obteve sinal verde do prefeito Roney Firmino (PSB) para ocupar o Parque Ecológico da cidade, de 34 hectares, abandonado há vários anos pelo poder público municipal.
Tudo começou a mais de 600 de quilômetros em linha reta de Plácido de Castro, na aldeia Glória de Deus, na margem do Rio Breu, que tem menos de 20 metros de largura e pode ser atravessado a nado para alcançar o território peruano. Foi lá que o indígena Elimar Kaxinawá, 36 anos, tecladista, formou a banda Forrozeiros da Floresta, em 2005, com outros três amigos da mesma etnia que tocam bateria, guitarra e cantam.
Forrozeiros da Floresta começou a se apresentar na aldeia Glória de Deus, depois passou a receber convites para animar festas povoados e até em municípios do Vale do Juruá. Com isso, os artistas foram se distanciando cada vez mais da Terra Indígena Kaxinawa/Ashaninka, de 31,2 mil hectares. Os kaxinawá se autodenominam huni kuin (povo verdadeiro) e formam uma população com mais de 8 mil pessoas no Acre.
Há dois anos e meio, Adaildo Kaxinawá, 26 anos, foi o primeiro da etnia a desembarcar em Plácido de Castro, município na margem esquerda do Igarapé Rapirrã. Basta atravessar uma precária ponte de madeira de 18 metros de extensão sobre o igarapé, para estar em Vila Evo Morales, que faz parte do departamento boliviano de Pando, a 97 quilômetros de Rio Branco.
A banda Forrozeiros da Floresta quase se desfez quando Adaildo, cantor da banda, decidiu morar em Plácido de Castro. Mas logo Elimar e os demais integrantes também decidiram mudar para o município. Eles passaram a animar as festas, principalmente de aposentados, fizeram muitas amizades, e passaram a morar num casa de madeira oferecida compartilhada com uma moradora que nasceu na cidade.
O sucesso da banda foi tanto que parentes e amigos dos músicos também passaram a mudar para Plácido de Castro, todos ocupando a mesma casa, que foi pintada com kenês (desenhos) que representam animais, plantas e valores da espiritualidade huni kui (kaxinawá). Já são 10 mulheres, 10 homens e 40 crianças na casa, mas a dona, que estava casada com um kaxinawá, se separou dele e pediu a devolução do imóvel.
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Amigo dos músicos da banda Forrozeiros do Forró, o ex-vereador Allison Ferreira, que ocupa o cargo de diretor de Articulação Cultural da prefeitura de Plácido de Castro, ficou preocupado com o destino dos indígenas, que manifestaram intenção de permanecer no município.
Antes de conversar com o prefeito, Ferreira visitou a área do Parque Ecológico de Plácido de Castro na companhia dos indígenas. Os kaxinawa se animaram com a nesga de floresta dentro da cidade e indagaram se poderiam viver nela, pois a casa de madeira que ocupam está pequena e terá que ser devolvida.
O diretor de Articulação conversou com o prefeito Roney Firmino (PSB), que gostou da ideia e autorizou os indígenas a construírem suas casas dentro da área do parque. Firmino argumenta que é melhor a área ser ocupada pelo pessoal da banda Forrozeiros da Floresta e seus parentes e amigos do que permanecer abandonada.
“Eu sou a favor que os indígenas fiquem. É uma nova cultura para nosso município. A presença deles poderá resultar na reativação do parque. Temos muito a aprender com eles, que são os donos originais de nossas florestas. A partir de um bom projeto, os índios podem se tornar até em atrativo turístico para nossa cidade”, sonha Allison Ferreira.
Elimar Kaxinawá, o tecladista da banda Forrozeiros da Floresta, está entusiasmado com a possibilidade de deixar a casa apertada e construir sua morada dentro do Parque Ecológico. Plácido de Castro é vizinho de Vila Evo Morales, que abriga um amontoado de comércio varejista de produtos importados da Ásia frequentado por turistas e sacoleiros acreanos.
“Nós chegamos aqui e sempre fomos muito bem recebidos pelo povo da cidade. Queremos ficar e continuar animando as festas com nossa banda. A cidade é boa, o povo também. Aqui perto tem Vila Evo, onde a gente pode comprar muita coisa. Nós queremos nos organizar para mostrar mais e mais a nossa cultura”, disse Elimar Kaxinawa.
Consultado pela reportagem, o antropólogo Marcelo Piedrafita Iglesias, da assessoria indígena do governo do Acre, considera natural a disposição das famílias kaxinawá de se estabelecerem em Plácido de Castro.
Autor da tese de doutorado “Os Kaxinawá de Felizardo: correrias, trabalho e civilização no Alto Juruá”, Piedrafita conviveu muitos anos e é um produndo conhecedor da etnia. “Essa turma da aldeia Glória de Deus que está em Plácido de Castro é muito boa. Essa banda fez mito sucesso nas florestas do Alto Juruá. O que está acontecendo é união do útil ao agradável”, concluiu o antropólogo.

