Brasil
Um clima de apreensão se alastrou pelo meio literário brasileiro. Primeiro foi a suspensão do Prêmio Portugal Telecom após a venda da patrocinadora. Depois, o cancelamento da Jornada de Passo Fundo, que, pressionada pela crise, decidiu suspender sua edição de 2015 e, consequentemente, seu Prêmio Zaffari Bourbon. Tudo isso enquanto a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) enfrenta dificuldades para conseguir verbas e fechar seu orçamento, e a tradicional Livraria Leonardo da Vinci, que nutriu gerações de leitores no Rio, se prepara para fechar as portas por dificuldades financeiras.
Bons ventos, porém, começaram a soprar de alguns lados. Apesar de a Jornada de Passo Fundo e o Zaffari & Bourbon continuarem suspensos, o Prêmio Portugal Telecom será ressuscitado com a entrada em cena do Itaú Cultural; a Flip segue vendendo ingressos desde ontem (já com algumas mesas esgotadas); e a Da Vinci negocia com um possível comprador. Enquanto isso, a Academia Brasileira de Letras, que concede o mais antigo prêmio do país, o Machado de Assis, desde 1911, anuncia que nada muda. Além do prêmio principal, que dará R$ 100 mil a Rubem Fonseca pelo conjunto de sua obra, outros sete autores serão premiados com R$ 50 mil cada (o anúncio oficial sai mês que vem, e a premiação logo depois).
— Os recursos são da própria Academia, sem qualquer tipo de patrocínio — explica Domício Proença Filho, secretário-geral da ABL. — Prêmios como o nosso e o Portugal Telecom são consagradores. Perdê-los seria difícil, um estímulo a menos para a produção literária nacional. É claro que é muito bom escrever um romance, mas os prêmios têm fundamental importância.
Na última segunda-feira à noite, em São Paulo, o Jabuti anunciou que também segue no páreo. Com mudanças. Duas novas categorias foram criadas — adaptação e infantil digital. A primeira será dedicada a obras adaptadas, por nova redação ou por transformação de textos em imagens, incluindo histórias em quadrinhos. A segunda abrange conteúdos para o público infantil combinados a elementos multimídia interativos. Além disso, os organizadores decidiram unificar as categorias arquitetura e urbanismo e artes e fotografia, contemplando obras compostas por pesquisas, ensaios e textos. Criado em 1959 e um dos mais tradicionais do país, o Jabuti paga R$ 3.500 para os vencedores de cada categoria (28 neste ano) e R$ 35 mil para os vencedores de livro do ano — ficção e não ficção.
— Estamos apenas nos adaptando aos novos tempos — diz Marisa Lajolo, curadora do Jabuti, que reconhece: — Vivemos um momento muito ruim economicamente. E a cultura, em razão dessa ideia de que não é primeira necessidade, é a primeira a perder. É muito ruim um evento como a Jornada (de Passo Fundo) não acontecer. Não só pelo evento, mas pela formação do público leitor, pela manutenção de programas com os escritores envolvidos.
Curador da Flip 2015, Paulo Werneck destaca a importância das premiações em sistemas literários maduros:
— Nos últimos 15 anos, o surgimento de alguns prêmios mudou a vida dos escritores, que têm em geral uma rotina apertada. Por isso, é importante a mobilização para que não sejam extintos. Werneck fala indiretamente tanto do Portugal Telecom (de 2003), cujas mudanças serão anunciadas na próxima semana, quanto da Jornada de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, que tem atrelado o Prêmio Zaffari & Bourbon (de 1999).
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MOBILIZAÇÃO PELA INTERNET
Com a venda da Portugal Telecom para a francesa Altice, as operações no Brasil da empresa portuguesa foram transferidas para a Oi, que recebeu recomendação da operadora francesa para cancelar o patrocínio ao prêmio literário. Sem apoio institucional, a curadora Selma Caetano cogitou realizar uma nova edição praticamente sem recursos. Até a entrada em cena do braço cultural do Banco Itaú, que vai dar continuidade ao concurso criado há 13 anos e, nesse tempo, criou uma tradição em países lusófonos.
— É importante que eventos literários perenes como o (antigo) Portugal Telecom continuem existindo. E é importante que sejam garantidos pelo governo, pela sociedade e por instituições — diz Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural, lembrando que o novo prêmio deve ter o nome e o regulamento anunciados na próxima semana e que o valor concedido, de R$ 200 mil, será mantido (R$ 50 mil para romance, poesia, conto/crônica e o Grande Prêmio Portugal Telecom).
No Sul, a Jornada de Passo Fundo não teve o mesmo destino. A 16ª edição evento, que se realiza em geral no mês de agosto há mais de 30 anos, está suspensa por falta de patrocínio. Organizado pela prefeitura da cidade, pela Universidade de Passo Fundo (UPF) e por uma comissão gestora, arrecadou apenas R$ 1,5 milhão (R$ 750 mil do governo municipal), quando precisava de R$ 3,5 milhões.
— O mais provável é que não teremos mesmo condições de realizar o evento este ano, passamos do prazo — diz o prefeito de Passo Fundo, Luciano Azevedo. — Um dos principais problemas é a falta de recursos, especialmente do governo federal e de apoios de estatais.
No domingo, a professora Tânia Rösig, que idealizou a Jornada, confirmou em comunicado a decisão da UPF de cancelar o evento. Por antecipar a informação, foi afastada da coordenação geral pela universidade. Em nota divulgada ontem, a instituição confirmou o cancelamento da 16ª edição e informou que está “desenvolvendo um plano estratégico para a próxima edição do evento”. O comunicado continua: “Diante desse contexto, e da conjuntura atual, ficou evidenciada a necessidade de reestruturação de seu formato, o que, por conseguinte, demandou a promoção de alterações inclusive na coordenação geral dos trabalhos”.
Na semana passada, um grupo de escritores se mobilizou em favor da Jornada. Milton Hatoum e Nélida Piñon divulgaram carta aberta e petição on-line em defesa do evento. O escritor Fabricio Carpinejar, colunista do site do GLOBO, e o psicanalista Mário Corso também se uniram em torno da festa literária: lançaram uma campanha de financiamento coletivo para angariar R$ 400 mil.
— Nós vemos essas iniciativas com muito orgulho e nos sentimos realmente acolhidos — diz Azevedo sobre a movimentação dos autores em torno da Jornada. — O problema é que seria necessário algo muito grande para reverter o quadro. A única decisão que seria transformadora é uma decisão do governo federal.
Outro prêmio de prestígio no cenário nacional, o São Paulo de Literatura, que se realiza no segundo semestre, está garantido este ano, mas não sem ser atingido por cortes do governo de São Paulo. Uma resolução assinada pelo governador Geraldo Alckmin, autorizando a edição 2015, já saiu, e a secretaria de Estado da Cultura está finalizando detalhes do edital.
— Em função do atual quadro econômico no país, a secretaria tenta racionalizar o uso do orçamento, buscando garantir a continuidade dos programas e, principalmente, preservando o atendimento à população e aos artistas — diz o secretário Marcelo Araújo. — Estamos concentrando a redução nas áreas administrativas. Procuramos assegurar a premiação aos autores. Com isso, vamos absorver qualquer economia necessária em outros custos.
Destinado a romances em português, o São Paulo de Literatura distribui R$ 400 mil, sendo R$ 200 mil para livro do ano; R$ 100 mil para livro de estreante com mais de 40 anos, e R$ 100 mil para autor estreante com menos de 40 anos (a divisão foi criada há duas edições com o objetivo de ampliar a visibilidade dos iniciantes).
— Há poucos prêmios literários no país. Então, qualquer mudança é significativa. O Jabuti é menos relevante em termos financeiros. Mas é grave o fato de o Portugal Telecom ter corrido risco. Premiações como esta têm papel importante para os autores. É difícil viver de literatura no país. Sem elas, fica quase impossível — diz Carlo Carrenho, diretor do PublishNews, site que monitora o mercado editorial no país.
