Nos quatro cantos do Estado ecoam as reclamações dos prefeitos da maioria dos 22 municípios do Acre. Eles creditam os problemas administrativos às “heranças malditas” de administrações anteriores, além da queda no repasse do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), fator que estaria, em tese, engessando as finanças das prefeituras. Em meio a essa e outras adversidades, o único que parece não sofrer com os rigores da crise é Zezinho Barbary (PMDB), do município de Porto Walter, distante cerca de 700 km da capital e ligado apenas pelas vias fluvial e aérea.
O município se tornou uma referência quando o assunto é gestão pública municipal. De acordo com Barbary, os motivos do sucesso de sua administração estariam ligados ao planejamento, organização e seriedade no tratamento com o dinheiro público. “Antes imperava o assistencialismo”, lembrou o alcaide, reafirmando que todo centavo arrecadado é investido no bem-estar dos moradores.

Babary: “O município está sendo reconstruído”
Além da principal marca da administração, o trabalho, os servidores estão sendo valorizados, recebendo em dias, da mesma forma que acontece com os fornecedores e prestadores de serviços. A cidade, agora, está sempre limpa, um realce a mais na beleza natural da localidade.
O carinho e a atenção dispensados às mulheres, crianças e idosos também fazem a diferença. Tudo isso elevou a autoestima dos portowaltenses e se tornou- um orgulho para os seus mais de 10 mil habitantes. Além de manter os serviços essenciais funcionando integralmente, a prefeitura dá ênfase a setores prioritários como a saúde, educação, infraestrutura e produção. Foram construídas 18 escolas na zona rural e urbana, algumas delas dotadas com equipamentos de informática e ambiente climatizado.
Foram construídas 18 escolas na zona rural e urbana, algumas delas dotadas com equipamentos de informática e ambiente climatizado.
A prefeitura construiu ainda postos de saúde, com destaque para uma Unidade Básica em Saúde (UBS), que atende exclusivamente os agricultores. A prefeitura administrada por Barbary foi a única do Acre a pagar o 14º salário aos educadores; houve incentivo à piscicultura, entre outros apoios à agricultura familiar; a água potável chegou às comunidades rurais; foi realizado festivais do milho; entrega de casas populares; construção de um novo porto; estádio de futebol, quadras poliesportivas e a academia do idoso.
Na área de apoio ao pequeno produtor, a prefeitura adquiriu oito baleeiras para transporte dos produtos dos ribeirinhos e dispõe de um maquinário moderno. Toda e qualquer generalização com os políticos é injusta. Está aí a provar a administração de Barbary. Honrando os quase 64% dos votos que recebeu, ele fez, em apenas três anos, aquilo que é o verdadeiro e único propósito da política: servir aos cidadãos.
Colocando a administração à disposição dos movimentos sociais, o prefeito apoia e encaminha as reivindicações da população, principalmente das camadas mais necessitadas. Ele conclama a população para participar da gestão porque, de acordo com ele, além de legitimá-la, as novas ações se pautariam na discussão e elaboração coletiva, o que as tonariam verdadeiramente democráticas e populares. “Todas as ações têm como propósito desenvolver o município e melhorar a vida das pessoas”, resumiu o prefeito, que concedeu a seguinte entrevista:
ContilNet – Há exatos três anos, quando o senhor assumiu, como se encontrava o município?
Babary – Estava completamente abandonado. Recebemos uma herança maldita, ou seja, uma administração totalmente endividada. Eram mais de R$ 7 milhões com o INSS, cerca de R$ 2,8 milhões com a Eletroacre e quase R$ 400 mil em precatórios, além de nove de 13 itens que deixaram a prefeitura em situação de inadimplência. Havia, também, dívidas trabalhistas, com prestadores de serviço e fornecedores. Sem contar que a cidade parecia que havia sido bombardeada. O mato estava por toda parte, e o lixo não era recolhido adequadamente. Era uma situação muito grave e a população, que estava com a estima lá embaixo, não acreditava que um gestor público pudesse resolver aquela situação.
Infelizmente, criou-se a cultura do assistencialismo e da promoção pessoal à custa do cargo e dinheiro públicos. Quando o erário está em questão, sendo necessário dizer não, faço isso sem nenhum problema.
O que é pior, os sucessivos cortes no FPM ou as dívidas e desmandos deixados por prefeitos anteriores?
Sem sombra de dúvidas que são as heranças malditas. Elas comprometem todo o planeamento, impedindo qualquer espécie de parceria ou convenio com outros entes públicos ou agências de fomento. Se não tivéssemos que pagar tanta dívida, teríamos feitos muito mais pelo nosso município.
ContilNet – Se existe uma Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), por que o senhor recebeu a prefeitura com tantas dívidas?
Essa pergunta eu não sei responder. A LRF não é para impedir que os gestores repassem dívidas para os seus sucessores? Acho que essa lei não tem aplicabilidade nos municípios. Não conheço administradores mais burladores das leis do que os meus antecessores. Eles foram muito além da irresponsabilidade.
Foi preciso tomar algumas medidas antipáticas, mas que eram necessárias para a reestruturação do município.
ContilNet – Em sua opinião, por que esses gestores irresponsáveis e corruptos não estão presos?
Sinceramente isso é um problema da Justiça do Brasil. Como um administrador do dinheiro público faz tantos estragos e continua andando por aí com cara de paisagem? Como se fosse um bom moço. E o que é pior: tentando confundir as pessoas. Isso é uma aberração e uma vergonha.
ContilNet – O senhor conseguiu resolver os problemas da prefeitura?
Essa pergunta pode ser respondida pela população. Mas farei alguns esclarecimentos: negociamos e parcelamos as dívidas, pagando-as rigorosamente todo mês. Os precatórios foram quitados em um ano, o mesmo acontecendo com todas as ações trabalhistas. Também foram pagos todos os fornecedores e prestadores de serviço. Tudo isso só foi possível por causa do planejamento, da organização e respeito ao dinheiro público, além da colaboração dos vereadores e da minha equipe de trabalho.
ContilNet – “Arrumada a casa”, o senhor começou uma peregrinação pelos ministérios e gabinetes em Brasília?
Antes disso foi preciso tomar algumas medidas antipáticas, mas que eram necessárias para a reestruturação do município. Porém, já havíamos conclamado os vereadores, comerciantes e a população em geral para nos apoiar. Foram momentos difíceis que estão, agora, totalmente superados. As idas e vindas a Brasília eram para alocar emendas e firmar convênios com os ministérios. Para isso, sempre tive o apoio do meu partido, o PMDB, e da Amac.
Eu costumo dizer que a maior, mas a maior mesmo de todas as realizações, foi tirar o município da inadimplência.
ContilNet – O senhor não faz nenhuma acepção de pessoas ou partidos quando o assunto é interesse do município. Por quê?
Isso são relações institucionais, isto é, nada têm a ver como relações partidárias. Infelizmente alguns políticos e gestores são politiqueiros, o que acaba prejudicando a população. Quem me acompanha sabe que sequer penso em reeleição, mesmo porque a atividade política não é um meio de vida para mim. Não sou íntegro, melhor deixar esse rótulo para Jesus Cristo, porém tento fazer as coisas corretas.
ContilNet – Comenta-se que o senhor é grosseiro no trato com as pessoas? Isso é verdade?
Não. Graças a Deus recebi uma boa educação de meus pais. O que algumas pessoas precisam entender é que tomo decisões administrativas, sempre obedecendo as leis. Infelizmente, criou-se a cultura do assistencialismo e da promoção pessoal à custa do cargo e dinheiro públicos. Quando o erário está em questão, sendo necessário dizer não, faço isso sem nenhum problema.
ContilNet – Em meio ao atual descrédito da classe política, é possível fazer uma administração ética?
Não só é possível como é necessário. Tive uma boa formação familiar, graças a Deus, firmei valores e princípios cristãos que formaram o meu caráter. Quanto à necessidade de se fazer uma gestão ética, é só ver como está a situação da maioria das prefeituras Brasil afora. As legislações e os órgãos de controle estão mais rígidos. O resultado da tentativa de corrupção e desmandos já conhecemos: prisões e inelegibilidades.
ContiNet – Quais foram as principais realizações da sua administração?
Babary – O município está sendo reconstruído. Os serviços essenciais funcionam integralmente; foram adquiridos máquinas e equipamentos; a piscicultura e água potável chegaram às comunidades; foram construídas 18 escolas, algumas delas dotadas com equipamentos de informática e ambiente climatizado; foi realizado os festivais do milho; a entrega de casas populares; e a cidade foi transformada num canteiro de obras. Mas eu costumo dizer que a maior, mas a maior mesmo de todas as realizações, foi tirar o município da inadimplência, do Serasa como costumo dizer.
ContilNet – E a crise política que o Brasil está passando?
A imensa maioria dos políticos não defende a coletividade. Estão lá com outros propósitos. Daí a frustração e indignação da maioria das pessoas. Sou católico. Um religioso disse que a política é para servir, ou seja, é para devolver às pessoas aquilo que é dela.
Contilnet – É possível reverter esse quadro?
Não tenho dúvidas. Precisamos criar uma nova política, fincada em princípios e valores cristãos, além da solidariedade e justiça social. Eu refleti muito antes de entrar na política, pois muitas pessoas dizem que é coisa para pessoas sem caráter e pudor. Temos que mudar a opinião dessas pessoas. Se pessoas sérias e comprometidas não escolherem o caminho da política, deixaremos as portas abertas para os mal-intencionados. Acredito que Porto Walter pode se tornar um lugar melhor. Assim, não tenho dúvidas que podemos mudar esse cenário de descrédito.
Defendo uma urgente reforma política. É inegável a necessidade de modificarmos o cenário político do Brasil, com mais transparência e moralidade nos processos eleitorais e de governo
ContilNet – O senhor defende uma reforma politica?
Defendo uma urgente reforma política. É inegável a necessidade de modificarmos o cenário político do Brasil, com mais transparência e moralidade nos processos eleitorais e de governo. Atravessamos hoje uma crise representativa global que se manifesta mais visivelmente entre os jovens. Os parlamentares no Brasil precisam entender que estão perdendo os canais democráticos de representação política. A população não compreende a atuação dos poderes estabelecidos. Existem disputas e, muitas vezes, atrelamentos partidários entre o Legislativo, Executivo e Judiciário. A reforma política deve permitir à sociedade participar de forma efetiva dos destinos do país.
ContilNet – O senhor é candidato à reeleição?
Sou candidato a terminar o meu mandato. Sinceramente, não decidi nada sobre isso. A população precisa ser consultada. Não trabalhei um único dia pensando em reeleição.
ContilNet – O senhor agradece muito. Por quê?
Por causa da generosidade do povo portowaltense. Esses agradecimentos também se estendem aos voluntários que fizeram parte dessa união por um município de oportunidades. Estou com o coração transbordando de vontade de mudar o que está aí. Dedico-me de corpo e alma neste projeto, defendendo os interesses do nosso povo. Por fim, agradeço ainda a minha família e tantos amigos que estão me apoiando nesse desafio.
