Compartilhar matéria
Presos entre um pêndulo que, em muitos casos, traz derrotas aos partidos no poder e uma onda que, com algumas nuances, favorece a direita, diversos fenômenos estão tendo um impacto regional, para além das particularidades de cada país.
As eleições na América Latina, com seu cenário político fragmentado, levantam uma questão: por que está se tornando cada vez mais difícil vencer de forma decisiva e manter a confiança pública?
A acirrada contagem de votos no Peru, que possivelmente definirá a presidência pela terceira vez consecutiva com uma diferença de menos de 50.000 votos, combina fatores como a hiperfragmentação política em um cenário de forte polarização.
“O alto nível de competição e a pequena margem entre os candidatos mais votados, juntamente com uma significativa polarização emocional, são fenômenos regionais”, disse à CNN a cientista política Flavia Freidenberg, pesquisadora da UNAM (Universidade Nacional Autônoma do México).
“Tudo isso é como um coquetel Molotov, um grande desafio para os cidadãos, os órgãos eleitorais e a mídia”, acrescentou.
Esse cenário leva vários líderes na região a assumirem o poder com vitórias de Pirro e pouca legitimidade, enquanto os partidos tradicionais não conseguem mais construir as vantagens esmagadoras que conquistaram algumas décadas atrás.
- Papa Leão XIV visitará Peru no início de novembro
- Fujimori se aproxima da Presidência do Peru e Sánchez convoca protestos
- Vídeo: Redemoinho atinge câmera durante erupção de vulcão no Havaí
Resultados mais precisos, fotografias finais
“A pequena margem de vitória ou o nível de competitividade entre os candidatos é uma característica comum em diversas eleições latino-americanas nas últimas décadas; é um fenômeno regional. É condicionado pelas especificidades de cada disputa e pela liderança”, afirmou Freidenberg.
Há pouco mais de um ano, Daniel Noboa liderou o primeiro turno com apenas 16.746 votos de vantagem sobre Luisa González, candidata do ex-presidente Correa, embora tenha vencido o segundo turno com folga.
Na Bolívia (Rodrigo Paz), no Chile (José Antonio Kast) e na Costa Rica (Laura Fernández), as margens foram amplas, mas em Honduras, Nasry Asfura venceu por menos de um ponto percentual em uma apuração criticada por seus adversários.
A Colômbia se prepara para o segundo turno, e ainda faltam alguns meses para as eleições de outubro no Brasil, onde as pesquisas chegaram a indicar um empate técnico.
“A polarização, em princípio, tende a levar a uma fragmentação e dispersão dos votos no primeiro turno”, explicou o cientista político Daniel Zovatto, especialista em processos eleitorais, à CNN. Ele esclareceu que as campanhas variam de acordo com o sistema de cada país.
Portanto, ele enfatizou que em Honduras, onde o sistema eleitoral é de turno único, o eleitorado não se dividiu em duas listas, mas sim contou com três candidatos fortes, e que na Colômbia a diferença entre o então presidente Iván Cepeda e o candidato independente Abelardo de la Espriella foi de três pontos percentuais.
Sobre o Peru, ele disse: “É algo sem precedentes, um país viciado em eleições de segundo turno com resultados extremamente apertados, um fenômeno único”.
Zovatto também destacou que o sistema de dois turnos nem sempre funciona da mesma maneira. No Chile, três candidatos de direita dividiram os votos, mas depois uniram forças em torno de Kast contra a candidata apoiada pelo governo, Jeannette Jara.
Em contraste, na Colômbia, “em vez de fragmentação, houve uma concentração dos votos da direita e de outros setores” em torno de De la Espriella. “Depende muito dos sistemas, de como a polarização se manifesta”, acrescentou.
Polarização, mas do tipo ruim
O termo mais usado para descrever campanhas, não apenas na América Latina, não é necessariamente um fenômeno ruim e pode até ser positivo.
“Existem diferentes maneiras de entender a polarização. Em geral, ela é boa para as democracias; significa que existem pelo menos duas perspectivas, onde nem todos precisam pensar da mesma forma”, disse Freidenberg.
“O problema surge quando ela é usada como estratégia para negar a legitimidade do outro lado para competir ou vencer. Quando se torna polarização afetiva, tribalismo, uma estratégia prejudicial. Isso é algo novo na América Latina”, afirmou.
Nas campanhas eleitorais recentes, a sociedade se dividiu em campos mutuamente exclusivos, com uma percepção de inimigos em vez de adversários.
“É o que alguns autores chamam de polarização perniciosa, com blocos sólidos dividindo os países em dois”, disse Eduardo Gamarra, professor de ciência política da Universidade Internacional da Flórida (FIU), à CNN.
“Esses confrontos eleitorais, longe de serem resolvidos em um segundo turno, estão se intensificando”, afirmou.
As divisões dessa relação não podem mais ser explicadas unicamente pela tradicional disputa entre esquerda e direita.
“A ideologia em si já não explica muita coisa”, disse Gamarra, que identificou três eixos. “Um deles é muito forte, uma grande e profunda divisão de classes sociais; isso é demonstrado empiricamente por meio de dados sobre desigualdade e pobreza, por pessoas que não viram os benefícios da democracia ou do populismo”, observou.
“Outra divisão muito forte, especialmente na região andina, é a racial-étnica, que não foi resolvida”, acrescentou. O terceiro ponto que ele levantou também está ligado aos dois primeiros: a divisão geográfica, que no Peru se dá entre Lima e as regiões, e na Bolívia entre o leste e o oeste, por exemplo.
O cientista político Jesús Castellanos, professor da Universidade Central da Venezuela (UCV), destaca que o confronto político muitas vezes se concentra em torno de líderes fortes, como Hugo Chávez na Venezuela, as facções correístas e anticorreístas no Equador e as facções fujimoristas e antifujimoristas no Peru.
“Estamos diante de sistemas com características diferentes, mas com enorme polarização. São democraticamente frágeis”, afirmou o analista.
Freidenberg também falou sobre as consequências da polarização no cenário político. “Agora é estratégia de todos; não há mais espaço para o centro, existe um vazio crescente. Aqueles que estavam no centro estão se movendo para os extremos e usando a polarização como estratégia política em ambientes altamente competitivos.
É uma situação explosiva”, alertou.
A fraqueza do partido
O declínio dos grandes partidos de massa é frequentemente citado como um dos fenômenos que explicam o atual clima político. O pesquisador da UNAM oferece algumas perspectivas matizadas sobre isso.
“Desde pequena, ouço dizer que os partidos políticos estão em crise. Sempre tive minhas dúvidas sobre essa crise de representatividade. Há um problema na articulação de interesses, mais do que na própria representação”, apontou Freidenberg, argumentando que parte do conflito reside não na instituição partidária em si, mas na forma como os partidos são organizados e controlados pelas elites.
“Precisamos distinguir entre a ideia teórica de um partido e os partidos que realmente temos. Até mesmo líderes carismáticos precisam de partidos. Temos uma visão idealizada da democracia representativa”, afirmou.
Gamarra expressou uma opinião semelhante. “Desde meados da década de 90, tornou-se popular dizer que os partidos políticos eram inúteis, que era possível ter democracia sem eles.
A realidade empírica é que isso não é possível, pelo menos não a democracia representativa, que se baseia na ideia de que o povo governa por meio de seus representantes e que não é uma democracia direta”, afirmou.
“Quando esses sistemas entram em colapso, surge um problema sério: a incapacidade de reconstruir os antigos partidos, que, apesar de tudo, continuam sendo os únicos com uma base social sólida.
Há uma certa nostalgia pelos partidos depois de termos os criticado tanto. O que temos agora são pequenos grupos de indivíduos com algum dinheiro que conseguem se organizar eleitoralmente e, com algumas exceções, sem raízes profundas”, acrescentou.
Retomando o caso peruano, Gamarra destaca que a candidatura de Sánchez, que conta com o apoio do ex-presidente Pedro Castillo, possui, de fato, uma ligação com as bases sociais, enquanto Freidenberg se referiu ao caso Fujimori:
“Se olharmos para o Peru, trata-se de um sistema concebido para a democracia sem partidos. Lá, a Força Popular é um partido forte, com disciplina e clareza programática.
São fenômenos diferentes; podem existir sistemas com partidos fracos ou com partidos fortes”, comentou. O país andino registrou o recorde regional de 36 candidatos presidenciais inscritos, e nenhum deles alcançou 20% dos votos no primeiro turno.
Castellanos, da UCV, acrescentou que, com a dispersão dos movimentos políticos, “a questão ideológica se dilui” e abrem-se brechas para novas alternativas. “O enfraquecimento dos partidos permite que novas opções se infiltrem em meio à fragmentação.
Um sistema frágil abre caminho para o fortalecimento de esquemas de polarização.”
Um eleitorado desconfiado e apático
Embora a polarização favoreça campanhas mais emotivas, ela também gera descontentamento entre setores que não se identificam com os principais candidatos, situação agravada pela série de decepções causadas por líderes que não correspondem às expectativas criadas durante a campanha.
A última pesquisa do Latinobarometer revelou que 81% da região desconfia dos partidos políticos.
Gamarra, da FIU, afirmou que “em toda a região existe uma crise de confiança nas instituições públicas” e salientou que isso gera “resultados estranhos”, com maior espaço para atores externos, mas acrescentou que isso, por sua vez, reforça um ciclo vicioso.
“Quando chegam ao poder (sem um partido forte), como o Parlamento geralmente é eleito em primeiro turno, a maioria não tem base legislativa para governar. Isso agrava ainda mais a situação.
Há uma incapacidade, por parte dos novos presidentes, de cumprirem as suas promessas de campanha, de terem uma base institucional ou apoio político. São obrigados a governar através de protestos de rua”, comentou.
Em relação ao eleitorado, Castellanos destacou o papel das redes sociais, que em alguns casos exacerbam as divisões ideológicas. “Não conheço nenhuma eleição recente em que as redes sociais não tenham desempenhado um papel importante, seja na questão das notícias falsas, por exemplo, ou na possibilidade de alcançar públicos mais diversos.”
Embora o pesquisador tenha reconhecido um sentimento de “cansaço e exaustão” entre os eleitores, ele enfatizou que existe uma motivação para participar porque “eles ainda acreditam que há uma oportunidade de mudança”, sentindo que seu voto pode fazer a diferença.
“Essa é uma das principais forças da América Latina; finalmente, existem elementos que podem mobilizar a população. Pode ser a liderança, um partido ou também o desejo de mudança”, disse ele, embora o analista venezuelano tenha esclarecido que isso também depende da realidade de cada país e da credibilidade dos processos.
Para Gamarra, a desconfiança na política ocorre “em grande parte porque as promessas não são cumpridas”, o que ele define como “um enorme déficit democrático”, que por sua vez cria uma janela de oportunidade para uma liderança eficaz e ainda mais autoritária.
Com a insatisfação política, muitos eleitores só se tornam ativos nos últimos dias da campanha, decidindo seu voto ainda enquanto esperam na fila para votar. Pesquisas em diversos países mostram um alto número de votos indecisos ou em branco uma semana antes da eleição, que acabam por apoiar um dos candidatos.
No entanto, o distanciamento não se traduz necessariamente em absenteísmo.
“O nível de participação varia de país para país. A tendência nas últimas décadas tem sido de queda na América Latina, mas não podemos falar de uma crise generalizada de participação política”, afirmou Zovatto.
“Em alguns países, observamos fenômenos de maior ou menor intensidade. Em alguns casos, depende muito se o sistema eleitoral é voluntário ou obrigatório. São dinâmicas muito situacionais, com diversas variáveis em jogo”, acrescentou a pesquisadora eleitoral.
Na Colômbia, onde o voto é facultativo, a participação no primeiro turno foi de 57,9%, quase tão alta quanto em 2022, que foi a maior desde 1998. Esse número contrasta fortemente com níveis como os de 2014, quando foi de apenas 40,1% no primeiro turno.
No Peru, 74% do eleitorado participou do primeiro turno, o que, sem contar a votação de 2021 realizada durante a pandemia de Covid-19, é a menor taxa para um primeiro turno desde 1995. No segundo turno, com a apuração ainda em andamento, a participação gira em torno de 71%, uma queda de três pontos percentuais em comparação com a votação de cinco anos atrás.
“A taxa de participação está relacionada ao fato de que você é forçado a escolher entre um menu limitado de opções que ninguém considera desejáveis; você vota no mal menor”, disse Gamarra.
Segundo o analista, “o fenômeno mais dramático é o aprofundamento da desconfiança”, que, entre outros efeitos, leva a população a dar pouca margem de manobra aos seus líderes.
“Ninguém confia no próximo presidente. ‘Vamos dar uma chance a ele, mas se ele não resolver meus problemas em duas semanas, veremos…’”, parafraseou.
Em questão de meses, até mesmo líderes que venceram por ampla margem, como Kast no Chile e Paz na Bolívia, perderam popularidade e enfrentam protestos de rua. As chamadas “luas de mel” estão ficando cada vez mais curtas.
Nesse contexto, Gamarra afirmou que o que também está em jogo é o próprio significado de democracia, dadas as estratégias perniciosas de polarização.
“Existe uma noção liberal e representativa versus outra noção que confunde o que é democracia, retratando-a como um projeto que exclui minorias, persegue aqueles que não pensam da mesma maneira e busca poder hegemônico e controle sobre as instituições.”
Esse conteúdo foi publicado originalmente emVer original TópicosAmérica LatinaCosta RicaEleiçõesHondurasPeru
Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por poliannelima
