Análise: EUA ainda estão divididos sobre aceitar cultura “woke”

Por CNN Brasil 21/06/2026 às 08:32

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Nos anos anteriores à candidatura ao Senado dos Estados Unidos, o político James Talarico afirmou que existem seis sexos, declarou que “Deus é não-binário” e considerou “existencial” que os americanos reduzissem o consumo de carne para combater as mudanças climáticas.

Enquanto os republicanos o atacam por esses comentários, chamando-os de “woke”, o representante estadual do Texas agora se distancia de algumas das declarações, classificando-as como “constrangedoras”.

Esses não são necessariamente os temas que mais preocupam a maioria dos americanos: como uma série de pesquisas realizadas este ano demonstrou, esse tema seria a economia.

Mas em todo o país, candidatos republicanos bombardeiam os eleitores com anúncios sobre o combate à esquerda “woke” — ou acusando seus adversários de não o fazer.

Os republicanos estão especialmente mobilizados contra James Talarico e ansiosos para torná-lo um ponto vulnerável para os democratas além do Texas.

O candidato democrata ao Senado, James Talarico, fala em um comício no Rich’s Houston em 27 de maio de 2026 em Houston, Texas. Talarico realizou o comício após o segundo turno das primárias e para explicar seu plano sobre como enfrentará o candidato republicano Ken Paxton • Danielle Villasana/Getty Images

Uma nova pesquisa da CNN conduzida pela SSRS sugere que o público está profundamente dividido sobre os contornos gerais da chamada guerra cultural.

Pouco menos da metade dos americanos acredita que a sociedade foi longe demais na aceitação de diferentes culturas, identidades de gênero, orientações sexuais e origens, enquanto um pouco mais da metade rejeita essa caracterização.

No último ano, republicanos e independentes passaram a afirmar com mais frequência que o nível de aceitação da sociedade foi longe demais, elevando em 6 pontos a parcela geral do público que adota essa visão em relação ao verão passado.

Cerca de oito em cada 10 republicanos dizem se sentir assim, da mesma forma que 47% dos independentes políticos.

“Coisas que você nunca pensaria duas vezes antes de dizer há cinco anos, agora as pessoas de repente estão dizendo: “Ah, você não pode falar isso””, disse Ed Shedlock, um republicano da Louisiana que participou da pesquisa.

“Algumas pessoas vão cancelar outras por algo tão insignificante que nem vale a pena ter uma conversa com elas”, acrescentou Shedlock.

Quando questionados sobre qual seria o maior problema social atualmente, pessoas tendo que ser cautelosas demais com o que dizem, ou pessoas se sentindo confortáveis demais para fazer declarações ofensivas, os americanos estão praticamente divididos de forma igual.

Outras divisões são mais desequilibradas. Apenas cerca de um terço dos americanos acredita que o país melhoraria com um retorno aos ideais da década de 1950 sobre os papéis tradicionais de gênero.

Outros 45% dizem que seria pior — ante 34% em 1997, uma mudança que se deve principalmente a um crescente consenso entre as mulheres americanas.

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Como as primárias republicanas estão sendo moldadas

Essas questões têm sido particularmente potentes nas primárias do Partido Republicano, onde os políticos enfrentam um eleitorado amplamente preparado para uma reação contra a aceitação cultural.

Em nível nacional, o governo do presidente americano Donald Trump fez dos esforços para reverter iniciativas de diversidade um pilar inicial e proeminente de seu segundo mandato.

Às vésperas do segundo turno republicano de 23 de junho para governador da Carolina do Sul, a vice-governadora Pamela Evette invocou a “horda woke” em anúncios destacando como ela foi desconvidada a discursar na South Carolina State University após protestos de estudantes.

“Vou garantir que, se instituições liberais cancelarem conservadores, nós cancelaremos seu financiamento”, ela diz nos anúncios. “Sou Pamela Evette, e a horda woke não vai conseguir nada — e não vai tirar nada — de nós.”

Em Nevada, o vencedor recente de uma primária republicana para uma cadeira aberta na Câmara, David Flippo, veiculou anúncios contra seu principal concorrente, James Settelmeyer, acusando-o de ser um “liberal woke fingindo ser republicano”. O comercial cita uma série de votos que Settelmeyer deu como senador estadual.

No Texas, o político James Talarico já enfrenta anúncios republicanos destacando seus comentários passados sobre questões sociais.

Ele disse em uma entrevista à rede CBS News no mês passado que algumas de suas declarações “erraram o alvo”, mas acusou seu oponente republicano, Ken Paxton, de “recortar intencionalmente meus comentários constrangedores para distrair” de suas próprias vulnerabilidades políticas.

Os democratas adotam uma abordagem diferente

Do outro lado do corredor, democratas e independentes de tendência democrata têm uma visão diferente na pesquisa da CNN, dizendo, por 60% a 18%, que, em vez de ter ido longe demais em sua aceitação, a sociedade não foi longe o suficiente.

“A melhor parte de ser americano é que nos apoiamos mutuamente”, disse Danny Minaya, um democrata que vive em Nova York e afirmou que a aceitação social não havia ido longe o suficiente.

“Você luta pelo mais fraco, você defende a pessoa que está sendo pisoteada, você defende a pessoa que precisa ter seus direitos protegidos. Agora, não parece que estamos fazendo isso.”

Há, no entanto, algumas divisões dentro do partido.

Entre democratas e simpatizantes do partido, as mulheres têm 8 pontos percentuais a mais de probabilidade do que os homens de enxergar um problema no discurso ofensivo, e 14 pontos percentuais a mais de probabilidade de afirmar que a sociedade não avançou o suficiente na aceitação das diferenças de cultura, identidade de gênero e orientações sexuais — embora maiorias em ambos os gêneros compartilhem essas visões.

Brancos alinhados ao Partido Democrata têm 20 pontos percentuais a mais de probabilidade do que pessoas de outras raças alinhadas ao mesmo partido de afirmar que a aceitação social não avançou o suficiente, e cerca de 24 pontos percentuais a mais de probabilidade de dizer que um retorno aos papéis de gênero dos anos 1950 tornaria o país pior.

Divisões semelhantes existem entre graduados universitários e aqueles sem diploma.

No centro do debate sobre “wokeness” está um período que começa por volta de 2019, quando os democratas se moveram para a esquerda em sua retórica e posições, à medida que um campo repleto de candidatos competia pela indicação do partido para desafiar o presidente Donald Trump na eleição do ano seguinte.

Um desses candidatos era a então senadora da Califórnia Kamala Harris, que afirmou em um questionário de 2019 para um grupo de direitos civis que apoiava cirurgias de transição de gênero para imigrantes detidos e presos federais.

A ex-vice-presidente dos EUA, Kamala Harris em Washington • 20/1/2025 SAUL LOEB/Pool via REUTERS

Quando ela surgiu como candidata presidencial democrata cinco anos depois, a campanha de Trump se valeu da resposta ao questionário em anúncios que declaravam: “Kamala é a favor de they/them, o presidente Trump é a favor de você.”

Jackie Frank, uma democrata de longa data que mora na Flórida e participou da pesquisa, atribui a esse tipo de ataque o mérito de ter ajudado Trump a vencer a presidência e de ter garantido a vitória ao governador republicano Ron DeSantis em seu estado.

“Cresci numa época em que houve uma virada sobre ser muito cuidadoso com a forma de se dirigir às pessoas e com o que se dizia, e então o pêndulo oscilou para “woke” se tornar uma palavra ruim” entre os republicanos, disse ela.

Opiniões sobre se raça e gênero são vantagens

A maioria dos homens e dos americanos brancos rejeita a ideia de que obtiveram vantagens em suas vidas por terem nascido nessas demografias.

Mas poucos sentem que foram alvos de discriminação: apenas 8% dos americanos brancos dizem que sua raça foi uma desvantagem em suas vidas, e apenas 1 em cada 10 homens afirma que seu gênero foi uma desvantagem.

Americanos brancos alinhados ao Partido Democrata têm três vezes mais probabilidade do que aqueles alinhados ao Partido Republicano — 72% contra 24% — de afirmar que sua raça foi uma vantagem em suas vidas.

Pessoas de cor alinhadas ao Partido Democrata têm mais probabilidade do que as alinhadas ao Partido Republicano, 51% contra 30%, de afirmar que sua raça foi uma desvantagem.

Há um padrão semelhante em relação ao gênero: 49% dos homens alinhados ao Partido Democrata, em comparação com 22% dos homens alinhados ao Partido Republicano, dizem que seu gênero foi uma vantagem na vida.

Já 48% das mulheres alinhadas ao Partido Democrata, em comparação com 23% das mulheres alinhadas ao Partido Republicano, sentem que seu gênero foi uma desvantagem.

Jennifer Agiesta e Edward Wu, da CNN, contribuíram para esta reportagem.

A pesquisa da CNN foi realizada entre 2.480 adultos em todo o país pela SSRS, de 7 a 31 de maio, por meio de uma combinação de entrevistas online e por telefone.

As amostras da pesquisa foram originalmente extraídas de duas fontes — uma amostra baseada em endereços e uma amostra de discagem aleatória de números de celulares pré-pagos — e depois combinadas.

Os entrevistados foram contatados por correio, telefone ou mensagem de texto. Os resultados para a amostra completa têm margem de erro amostral de mais ou menos 2,7 pontos percentuais.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por afonsobenites

Conteúdo Original / Fonte: afonsobenites

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