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Ao completar 250 anos, as linhas divisórias dos Estados Unidos estão ficando evidentes. As divisões partidárias e regionais agora rivalizam com o os conflitos internos mais intensos do país, com exceção da Guerra Civil.
As tensões crescentes entre as coalizões políticas vermelha e azul está permeando praticamente todos os aspectos da vida americana, especialmente sob a pressão avassaladora da presidência polarizadora e transgressora de normas de Donald Trump.
Até mesmo a celebração deste aniversário marcante dividiu o país nos já conhecidos campos antagônicos.
O conflito interno em uma nação é um conceito difícil de quantificar, mas diversos indicadores – as divergências políticas cada vez maiores entre os estados, os confrontos incessantes de Trump com líderes políticos democratas, o desaparecimento praticamente total da cooperação bipartidária no Congresso e o aumento da violência política – sugerem que os EUA se encontram no patamar mais elevado dessa escala.
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Os Estados Unidos já enfrentaram períodos de tensão elevados anteriormente e, com exceção da Guerra Civil, sempre encontraram maneiras de administrar, se não necessariamente resolver, suas divergências. No entanto, vários aspectos únicos apontam agora para uma divisão crescente e imprevisível.
Um fator central entre eles é o papel de Trump que, talvez mais do que qualquer um de seus antecessores, considerou vantajoso acirrar as discordâncias latentes do país.
“O que há de diferente desta vez é que não existem apenas divisões fundamentais, mas divisões que estão sendo deliberadamente fomentadas pelo líder da nação”, afirmou Donald Kettl, ex-diretor da Escola de Políticas Públicas da Universidade de Maryland.
Um ponto raro de unidade neste país profundamente dividido é que a maioria dos americanos, de ambos os partidos, espera que nossas divisões apenas se aprofundem nos próximos anos.
EUA já viveram períodos de intensa tensão interna
Não existe uma “era de ouro” da união americana, a exceção mais próxima é, provavelmente, a década de predominância do Partido Democrata-Republicano após a Guerra de 1812, período que os contemporâneos chamaram, com certo exagero, de “Era dos Bons Sentimentos”.
Diferenças regionais, raciais e econômicas estão entrelaçadas na bandeira americana desde o início.
Mas essas diferenças se mostraram muito mais difíceis de conter em alguns momentos do que em outros.
Nada, é claro, se compara aos anos em torno da Guerra Civil. Ao longo das décadas de 1840 e 1950, o país atravessou crises sucessivas que foram desfazendo, progressivamente, os laços que uniam o Norte e o Sul.
Praticamente nenhuma instituição ou questão da vida americana conseguiu transcender a crescente hostilidade entre as regiões: o conflito em torno da escravidão dividiu denominações religiosas e reconfigurou os partidos políticos (com o Partido Republicano surgindo com a voz dos protestantes do Norte que se opunham à expansão da escravidão).
Monte Rushmore, na Dakota do Sul • Foto: Pexels/ Pixabay/ Reprodução
Esse descompasso culminou no enorme banho de sangue da Guerra Civil. Persistiu, então, em um conflito contínuo entre o governo federal e os brancos sulistas recalcitrantes, que empreenderam uma campanha de violência sistêmica para impedir que os escravizados libertos obtivessem direitos políticos e sociais.
Esse longo confronto só terminou quando o Norte abandonou seu compromisso com a Reconstrução e permitiu que os estados do Sul impusessem as leis de segregação Jim Crow.
Manisha Sinha, historiadora da Universidade de Connecticut e autora de “The Rise and Fall of the Second American Republic”, observou que a celebração do centenário da Declaração de Independência, em 1876, ocorreu justamente quando o Norte consentia que o Sul voltasse a subjugar sua população negra.
“Era pra ser um momento de reconciliação entre o Norte e o Sul, mas não foi uma paz muito justa”, disse ela em entrevista.
“A celebração aconteceu às custas da população negra do Sul, que perderia progressivamente seus direitos… sem falar que sofreria uma violência racista terrível.”
Diversos historiadores apontariam outros dois períodos que, além da era da Guerra Civil, geraram as maiores tensões internas da nação até o momento.
Um deles surgiu logo no inicio da nova nação, por volta dos anos 1800. Embora os fundadores, em grande parte, não previssem o surgimento de partidos políticos, um intenso conflito partidário eclodiu imediatamente após os dois mandatos de George Washington como o primeiro presidente dos Estados Unidos.
De um lado estava o Partido Federalista, sediado no Nordeste e liderado por John Adams e Alexander Hamilton, que simpatizava com a Inglaterra em sua contínua disputa global contra a França da era revolucionária. Do outro, encontrava-se o Partido Democrata-Republicano, sediado no Sul e liderado por Thomas Jefferson e James Madison, que simpatizava com a França.
Os conflitos entre eles sobre questões como as tarifas eram tão acalorados que Jefferson escreveu mais tarde: “Homens que foram íntimos a vida toda atravessam a rua para evitar se encontrar.”
No entanto, o conflito atingiu um nível verdadeiramente perigoso quando os federalistas, temendo que os republicanos-democratas estivessem conspirando com a França, aprovaram as Leis de Estrangeiros e de Sedição (Alien and Sedition Acts) em 1798, durante a presidência de Adams, e as utilizaram para processar editores de jornais e até mesmo um representante dos EUA alinhado ao proto-partido de Jefferson por criticarem a administração.
“Em conjunto, as leis dividiram a cidadania entre os cidadãos leais, respeitosos para com o presidente, e a oposição desleal”, escreveu Corey Brettschneider, professor de ciência política da Universidade de Brown, em seu livro “The Presidents and The People”.
Essas tensões diminuíram quando as leis expiraram, após a vitória de Jefferson na eleição presidencial de 1800. No entanto, a disputa entre federalistas e democratas-republicanos voltou a atingir um nível perigoso durante a Guerra de 1812.
Os federalistas opunham-se de tal forma à contra a Inglaterra que três governadores do partido, originários do Nordeste, recusaram-se a fornecer tropas, e ativistas chegaram a reunirem-se em uma convenção em 1814 que sinalizava a possibilidade de secessão, um erro de cálculo que acelerou o colapso do partido.
Presidente dos EUA, Donald Trump • Alex Wong/Getty Images
Historiadores frequentemente apontam a década de 1960 como o outro período mais intenso de conflito interno prolongado.
Naqueles anos, os Estados Unidos foram abalados e desafiados por movimentos de massa em defesa dos direitos civis e contra a Guerra do Vietnã; mudanças culturais profundas nas relações de gênero e nos costumes sexuais; abismo geracional acentuado; onda de atentados a bomba e outros atos de violência cometidos por grupos de extrema-esquerda, como o Weathermen; crescimento de movimentos de extrema-direita como a John Birch Society; conflitos raciais em grandes cidades; por um “tumulto policial” durante a Convenção Democrata de 1968; e pelos assassinatos de John F. Kennedy, Robert F. Kennedy e Martin Luther King Jr.
Os confrontos acirrados da década de 1960, estenderam-se pela década de 1970, impulsionados pelas tentativas secretas do presidente Richard Nixon de reprimir seus críticos e garantir sua reeleição, um processo que culminou no escândalo de Watergate.
Assim como a celebração do centenário do país foi vista como uma oportunidade de reunificação após a Guerra Civil, o bicentenário de 1976 ecoou temas de reconciliação na esteira dos conflitos acirrados em torno dos direitos civis, da Guerra do Vietnã e do caso Watergate.
Em contrapartida, a reconciliação nacional parece tão distante agora que poucos líderes, neste fim de semana, sequer lhe dedicaram palavras de apoio formal.
As divisões da era Trump vão perdurar?
Os historiadores divergem sobre como as causas subjacentes da discordância entre a América “vermelha” e a “azul” nos dias de hoje se comparam às disputas substantivas do início do século XIX e da década de 1960.
“Na minha opinião, não estamos nem de longe tão divididos hoje quanto estávamos nos anos de Adams e Jefferson ou mesmo no final da década de 1960”, afirmou Yuval Levin, diretor de Estudos Sociais, Culturais e Constitucionais do “American Enterprise Institute”, uma organização conservadora.
“Vivemos há tanto tempo em um cenário de divisão equilibrada que nenhum dos partidos está realmente em condições de avançar muito com sua agenda quando vence as eleições”, completou.
Então candidato presidencial republicano Donald Trump durante tentativa de assassinato em comício em Butler, Pensilvânia • 13/7/2024 REUTERS/Brendan McDermid/Arquivo
Outros enxergam implicações mais profundas na crescente divergência entre as visões de identidade americana defendidas pelos Democratas e pelos Republicanos da era Trump.
Suas visões conflitantes sobre direitos, liberdades e quem pode ser considerado um americano legítimo alimentaram disputas acirradas em torno de imigração, direitos LGBTQIA+, censura em sala de aula, proibição de livros, diversidade na educação e no ambiente de trabalho, e acesso ao aborto.
Embora as batalhas econômicas não tenham gerado tanta intensidade emocional, as duas coalizões apresentaram abordagens antagônicas quanto ao papel do governo federal na oferta de assistência à saúde, na proteção ambiental, na tributação dos mais ricos e nos gastos militares em contraposição às necessidades internas.
Essas disputas têm se desenrolado não apenas na política nacional, mas também em uma divergência crescente entre as políticas sociais e econômicas de estados democratas e republicanos, um cenário sem precedentes, pelo menos desde a era da segregação de Jim Crow.
“Essas forças (que dividem os estados) têm atuado desde antes de Trump e agora estão dando frutos, ou produzindo veneno, dependendo de como se olha para a situação”, diz Kettl.
Como observa Kettl, a distância entre essas duas coalizões já vinha aumentando antes de Trump surgir como o eixo central da política americana em 2016. No entanto, ele intensificou consideravelmente a força que as afasta.
Especialmente em seu segundo mandato, Trump buscou mobilizar o poder federal de maneiras sem precedentes contra os estados e cidades que votaram contra ele.
Trump mobilizou a Guarda Nacional em Los Angeles e outras cidades governadas por democratas até que a Suprema Corte o impediu. (Eles permanecem mobilizados em Washington, D.C., onde Trump tem atuado sob autoridade separada.)
Seu governo iniciou investigações criminais contra vários funcionários democratas locais e estaduais e direcionou programas de assistência social de estados governados por democratas com investigações de fraude e suspensões de auxílio.
Membros da Guarda Nacional em fila enquanto manifestantes se reúnem nas proximidades em Los Angeles, Califórnia, EUA • 09/06/2025 REUTERS/Leah Millis
Ele negou ajuda emergencial a estados governados por democratas em uma proporção muito maior do que a estados governados por republicanos e impôs reduções drásticas nos gastos federais com pesquisa científica, o que prejudica desproporcionalmente as áreas metropolitanas governadas por democratas.
Seu governo tentou cortar o financiamento para estados e cidades governados por democratas para praticamente todos os fins domésticos importantes: saúde pública, habitação, preparação para desastres, a menos que adotassem políticas de estados governados por republicanos sobre imigração, diversidade e outras questões. (Os tribunais, no entanto, bloquearam quase todos esses esforços.)
Trump e assessores como Stephen Miller retratam regularmente autoridades democratas como “traidores” desleais envolvidos em “insurreição” e “comportamento insurgente, punível com a morte”.
O historiador Douglas Brinkley afirmou considerar essas medidas contra os locais que votaram contra Trump as formas “mais flagrantes” pelas quais o presidente ameaçou os princípios democráticos da nação.
“A ideia de que um presidente pune estados porque não votaram nele é algo abominável”, disse Brinkley. “Isso é autoritarismo por definição.”
Em uma entrevista, Brettschneider descreveu Trump como uma amálgama de outros presidentes que, em sua opinião, mais ameaçaram a democracia. Assim como John Adams, disse Brettschneider, Trump menospreza a oposição política, classificando-a como inerentemente antiamericana.
Assim como Woodrow Wilson, Trump alimenta abertamente ressentimentos racistas e nativistas. E, assim como Richard Nixon, famoso por ter elaborado uma “lista de inimigos”, Trump quer utilizar a vasta maquinaria do governo federal para punir seus adversários.
“Cada um deles (presidentes anteriores) tem sua própria maneira de agir; não é tudo igual”, disse Brettschneider. “Mas o que não é novidade é a ideia de que a América tem inimigos internos que precisam perder a liberdade.”
De modo semelhante, Manisha Sinha vê o maior risco nos esforços de Trump para rotular amplos segmentos da população americana, como imigrantes e seus filhos, bem como manifestantes que se opõem às suas políticas, como fundamentalmente antiamericanos ou como “o inimigo interno”, expressão que ele próprio utilizou.
Presidente dos EUA, Donald Trump • REUTERS/Evan Vucci
“É um forte indício de governo antidemocrático e autoritário quando se questiona a legitimidade da própria existência dos oponentes e a legitimidade da cidadania das pessoas de quem não se gosta”, afirmou Sinha.
Levin também é um crítico ferrenho de Trump, a quem acusa de ter demonstrado um interesse agressivo e deliberado em promover a divisão.
No entanto, Levin aponta a incapacidade de qualquer um dos partidos de obter uma vantagem duradoura sobre o outro como o principal motor das divisões atuais. “Na prática, temos dois partidos minoritários na política americana desde a eleição de 2000”, afirmou Levin, autor do livro “American Covenant.”
“Isso significa que tudo está sempre em jogo, e nenhum dos partidos tem incentivo para participar do tipo de negociação e formação de coalizões que constitui a essência da prática do constitucionalismo americano”, disse Levin.
Uma grande questão, à medida que a nação inicia seus próximos 250 anos, é se a hostilidade aberta de Trump em relação às pessoas e aos locais fora de sua coalizão servirá de modelo para futuros presidentes.
Prováveis pré-candidatos democratas à presidência em 2028 estão adotando um tom mais duro quanto ao enfrentamento do movimento trumpista, mas muitos observadores permanecem céticos de que eles buscariam punir sistematicamente os estados e eleitorados republicanos da mesma maneira.
Futuros pré-candidatos republicanos à presidência que desejam manter o apoio de Trump provavelmente sentirão mais pressão para adotar seu estilo e estratégia de confronto, como o vice-presidente JD Vance frequentemente demonstra. Brinkley afirma que o princípio unificador da abordagem de Trump é que “ele quer fazer com que as pessoas que não estão ao seu lado se sintam americanos menos americanos.”
Se os eleitores repudiarem essa visão ao rejeitar aliados de Trump nas eleições de 2026 e 2028, disse Brinkley, isso poderá levar a história a ver Trump como um fenômeno intenso, porém passageiro.
Mas, se um número suficiente de eleitores endossar sua abordagem nas próximas eleições, acrescentou Brinkley, “isso significa que Trump venceu e é uma figura de grande relevância na história dos EUA – não apenas uma figura definidora de uma era, o que ele já é”.
De qualquer forma, as divisões profundas e acirradas que Trump aprofundou provavelmente persistirão muito depois de sua presidência.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por laurasantana
