Análise: Super El Niño já entrou na conta da economia

Por CNN Brasil 08/07/2026 às 03:32

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O número que importa agora é 63%. Esta é a probabilidade indicada pelo CPC/NOAA para que o El Niño alcance intensidade muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.

Se essa projeção se confirmar, o evento ficará entre os maiores já registrados desde 1950. Não se trata de uma curiosidade climática. É um dado de risco econômico.

A expressão “Super El Niño” ajuda a comunicar a gravidade do cenário, mas exige cuidado. O termo não é a régua operacional dos centros climáticos.

O que o boletim da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) aponta é um El Niño já presente, em fortalecimento, com chance majoritária de atingir o patamar “muito forte” no fim do ano.

Para governos, empresas e investidores, essa diferença é menos semântica do que prática: não se espera a fotografia final de um evento climático para começar a proteger balanços, estoques, contratos e orçamentos.

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A grande mudança de 2026 está na forma de medir a força do El Niño. O ECMWF (Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo) passou a utilizar desde 1º de junho um cálculo mais ajustado à realidade atual dos oceanos.

Em vez de olhar apenas para o aquecimento de uma área específica do Pacífico, chamada Niño 3.4, o novo método compara essa região com o restante dos oceanos tropicais.

Isso é importante porque os mares do planeta inteiro estão mais quentes. Sem essa comparação, uma parte do calor observado no Pacífico poderia ser atribuída ao El Niño, quando na verdade reflete o aquecimento mais amplo dos oceanos.

Isso não reduz o alerta. Melhora a qualidade da decisão. A metodologia do ECMWF indica que previsões pelo índice relativo tendem a ficar cerca de 0,5 °C abaixo das medições tradicionais.

Mesmo assim, os modelos seguem apontando um evento forte a muito forte. A mensagem para a economia é clara: o risco permanece elevado, mas a régua ficou mais precisa.

No Brasil, o El Niño toca quatro frentes sensíveis da economia: alimentos, energia, seguro e gasto público com desastres.

A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) elevou para 358,6 milhões de toneladas a estimativa da safra brasileira de grãos 2025/26. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostrou que a agropecuária cresceu 11,7% em 2025, em uma economia que avançou 2,3%.

Qualquer perturbação relevante em chuva, calor ou janela de plantio não fica confinada ao campo; ela atravessa inflação, exportações, crédito rural e renda regional.

Na energia, o risco aparece por outra porta. Ondas de calor elevam a carga do Sistema Interligado Nacional, pressionam a operação e podem encarecer o atendimento.

A bandeira amarela da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) adiciona R$ 18,85 por megawatt-hora consumido; a bandeira vermelha patamar 1 acrescenta R$ 44,63 por megawatt-hora.

O El Niño não aciona sozinho essas bandeiras, mas pode compor o cenário que leva a maior despacho térmico, menor conforto hidrológico e custo maior para o consumidor.

Há ainda o mercado de proteção. Em ano de risco climático crescente, o seguro rural deveria funcionar como amortecedor macroeconômico.

Mas o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural entrou em 2026 sob bloqueio de R$ 461,7 milhões e, semanas depois, sofreu cancelamento adicional de R$ 56,3 milhões.

A verba disponível caiu para cerca de R$ 473,8 milhões, menos da metade do inicialmente previsto. É um detalhe fiscal que deixa de ser detalhe quando o país se aproxima de um evento climático potencialmente severo.

O Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) já sinaliza, para o terceiro trimestre, chuva acima da média em áreas do Sul e abaixo da média no centro-norte do país, além de maior probabilidade de temperaturas acima da média no segundo semestre.

O Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) reforça que os efeitos do El Niño no Brasil variam conforme a região, estação e interação com outros oceanos.

No Sul, o risco é de excesso de chuva e eventos severos. No Norte e em parte do Nordeste, a preocupação recai sobre irregularidade hídrica, calor e pressão sobre rios, agricultura e geração.

A tentação editorial será tratar o rótulo “Super El Niño” como sentença. Seria um erro. Eventos de 1982, 1997 e 2015 mostram que a intensidade no Pacífico não se traduz automaticamente no mesmo impacto em todos os lugares.

O Atlântico Tropical, os bloqueios atmosféricos, a posição dos jatos e a resposta da circulação regional podem ampliar ou amortecer efeitos no Brasil.

A leitura correta é mais útil e menos espetacular: o país entrou numa janela de preparação. A ciência já entregou o aviso. Agora o teste saiu dos modelos climáticos e foi para a mesa de operadores de energia, produtores rurais, seguradoras, prefeitos, governadores e Ministério da Fazenda.

O Brasil aprendeu, em crises recentes de chuva, seca e energia, que o problema raramente está na falta de alerta; está na lentidão com que o alerta vira decisão. Em 2026, esse alerta já está no painel.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por joaonakamura

Conteúdo Original / Fonte: joaonakamura

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