Análise: Trump tem poucas opções em relação ao Irã — e todas são ruins

Por CNN Brasil 09/07/2026 às 09:33

Compartilhar matéria

A situação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação ao Irã começa a se assemelhar a uma ilusão de ótica conhecida como a escada de Penrose, que sobe e desce infinitamente, mas sempre termina no mesmo lugar.

O dilema foi criado pelo próprio Trump, após ele ter iniciado uma guerra que nunca prometeu uma saída definitiva e ter elaborado um memorando de entendimento que não abordou as razões do conflito.

Ele se viu diante de um dilema familiar quando a fumaça se dissipou na noite de quarta-feira (8), após novos ataques aéreos dos EUA em retaliação aos ataques do regime iraniano a navios no Estreito de Ormuz.

Leia Mais:

  • Sepultamento de Ali Khamenei será restrito à família, diz mídia do Irã
  • Autoridade do Irã relata novos ataques dos EUA
  • Análise: Acordo vago provocou escalada de violência entre EUA e Irã

Então, surgem questionamentos: ele deve intensificar a guerra — com um custo humano, econômico e político potencialmente alto — para tentar quebrar um novo status quo que dá ao Irã a maior vantagem? Ou deve tentar reviver um cessar-fogo falho que paga bilhões ao Irã apenas para negociar?

A mais recente escalada, apenas três semanas depois de Trump ter assinado o memorando de entendimento, que ele saudou como um acordo que só ele poderia fazer, ressaltou a ampla futilidade do esforço de guerra dos EUA até o momento.

Em suma, ao disparar uma nova onda de mísseis e ataques aéreos, ele correu o risco de iniciar uma segunda guerra para corrigir os problemas causados ​​pela primeira — especificamente, o controle do Irã sobre o Estreito de Ormuz.

Os ataques do Irã a embarcações ressaltaram sua determinação em preservar essa vantagem estratégica, que, além da sobrevivência de seu regime repressivo, representava seu principal ganho na guerra.

O país pretende transformar a rota crucial de petróleo e gás em fonte de receita por meio da cobrança de pedágios. Os ataques a diversos navios pareciam ter o objetivo de forçar as embarcações a navegar apenas pelas rotas de sua preferência, confirmando assim sua hegemonia.

Os ataques e as represálias dos EUA parecem contradizer o memorando de entendimento. No entanto, o documento, negociado pela equipe do enviado americano Steve Witkoff e pelo genro de Trump, Jared Kushner, é tão vago, carece tanto de mecanismos de execução e demonstra tamanha ingenuidade quanto às intenções do Irã, que não surpreende que tenha fracassado rapidamente.

Visivelmente irritado durante uma viagem para a cúpula da Otan, a aliança militar ocidental, na Turquia, Trump declarou que o acordo provisório estava “encerrado” e classificou o Irã como “louco”.

Ainda assim, afirmou que seus negociadores poderiam continuar as conversas, caso quisessem.

Reforçando a impressão de incoerência estratégica, ele acrescentou: “Eles jamais construirão uma arma nuclear sob o nosso acordo, mas não sei se teremos um acordo. Podemos simplesmente fazer isso sem um acordo, porque, quer saber? É mais fácil”.

Escalada do conflito acarretaria custos enormes

Na ausência de um plano inovador e inédito, as opções de Trump são limitadas e podem não funcionar.

Ele poderia ordenar uma escalada de grande porte. Embora uma invasão ao Irã seja impensável, ele poderia cogitar ataques aéreos contra a infraestrutura civil ou usinas de energia iranianas, ou uma invasão de áreas costeiras ao longo do Estreito de Ormuz para repelir as forças do Irã.

Outra possibilidade seria uma operação para tomar a ilha de Kharg, um importante polo petrolífero iraniano.

No entanto, os custos poderiam ser imensos e desencadear a reação econômica negativa que ele explicitamente afirmou querer evitar ao assinar o memorando de entendimento.

Um ataque de fuzileiros navais ou forças especiais à ilha de Kharg acarretaria um alto risco de baixas para os EUA. Apesar de outros equívocos, Trump, até o momento, não seguiu o exemplo de presidentes que tentaram recuperar sua credibilidade ordenando ações que resultaram na morte de muitos militares ou civis americanos.

E qualquer escalada por parte dos EUA não ocorreria de forma isolada.

Fumaça sobe em um local desconhecido após o que o Comando Central dos EUA descreve como uma nova onda de ataques contra o Irã na terça-feira, depois que três petroleiros foram atingidos por projéteis no Estreito de Ormuz, nesta imagem estática extraída de um vídeo divulgado em 7 de julho de 2026 Comando Central dos EUA/Divulgação via REUTERS • via REUTERS

Ampliar a lista de alvos no Irã provavelmente provocaria retaliações contra aliados americanos no Golfo e bases dos EUA na região. Instalações de petróleo e gás poderiam entrar na mira — o que, novamente, poderia desencadear uma crise energética global.

Trump enfrentaria, então, uma reação negativa dentro dos EUA, incluindo a volta dos preços elevados da gasolina, que prejudicaram sua posição política durante a guerra e comprometeram as perspectivas já incertas do Partido Republicano antes das eleições de meio de mandato, que ocorrem em novembro.

Não está sequer claro se uma guerra em larga escala destruiria a capacidade do Irã de ameaçar Ormuz, visto que alguns poucos drones, lançados a quilômetros de distância, poderiam paralisar o transporte marítimo comercial.

Em teoria, Trump poderia restabelecer o bloqueio dos EUA a navios e portos iranianos, após já ter retomado as sanções ao petróleo. No entanto, após semanas sob o primeiro embargo desse tipo, o Irã não chegou nem perto da “rendição incondicional” exigida pelo presidente americano.

O almirante reformado James Stavridis disse a Jim Sciutto, da CNN, que o melhor curso de ação para Trump talvez fosse atacar alvos econômicos no Irã, embora reconhecesse que o republicano não dispunha de um leque de opções favoráveis.

“Estamos indo para uma briga de facas armados com uma faca, mas temos uma arma de fogo à disposição. Francamente, não acho que vamos conquistar a Ilha de Kharg, mas poderíamos bloqueá-la. Isso significaria o fim da economia iraniana”, disse Stavridis.

O ex-militar ponderou que poderia haver retaliação iraniana severa, mas, talvez, a pressão econômica sustentada sobre o Irã pudesse forçar o regime a considerar se conseguiria suportar indefinidamente as consequências políticas de uma economia devastada.

Trump faz novas ameaças

Uma outra possibilidade seria Trump simplesmente abandonar a situação, deixando o mundo diante da realidade de um Estreito de Ormuz sob disputa. Isso significaria energia mais cara e uma passagem perigosa e mais custosa para os navios.

Os mercados poderiam se ajustar, mas ele não conseguiria isolar os EUA das consequências econômicas, incluindo dos índices de ações que ele usa como termômetro de seu sucesso pessoal.

Com o tempo, um volume menor de petróleo no mercado poderia esgotar criticamente os estoques de reserva. E ignorar o problema consolidaria uma derrota humilhante para o presidente e arruinaria a percepção global sobre o poder dos EUA.

O Irã poderia ostentar indefinidamente sua principal vantagem estratégica resultante do conflito.

Essa oportunidade é agora tão valiosa que levou os novos governantes do Irã a arriscar um acordo que proporcionava bilhões de dólares em isenção de sanções dos EUA e fundos de reconstrução.

Mais uma vez, as premissas de uma administração liderada por magnatas, de que todos podem ser influenciados por ganhos financeiros, já abaladas pelo caso da Ucrânia, parecem cada vez mais frágeis e desacreditadas.

Isso coloca sob novo escrutínio os principais negociadores de Trump: Witkoff e Kushner.

Uma nova reportagem da CNN apontou que várias ex-autoridades dos EUA a par do processo afirmaram que muitos funcionários de carreira com a expertise necessária para negociar um acordo complexo com o Irã — incluindo especialistas em energia nuclear — foram consultados apenas esporadicamente.

A Casa Branca rejeitou essas críticas, classificando-as como reclamações de pessoas de fora que nunca fecharam um acordo.

Ao mesmo tempo, porém, a estratégia do Irã traz riscos sérios. Um eventual excesso de ousadia pode fortalecer o apoio regional a uma postura mais dura por parte dos EUA.

Também pode sinalizar divisões internas no regime, à medida que oficiais recém-promovidos e nacionalistas da Guarda Revolucionária Islâmica buscam desacreditar colegas mais moderados que defendem a negociação.

As opções limitadas dos EUA oferecem uma possível explicação para o fato de Trump, logo após ordenar os ataques de quarta-feira, ter voltado rapidamente a fazer ameaças.

“Se isso acontecer de novo, a situação vai piorar muito”, escreveu ele nas redes sociais.

No entanto, o Irã não cedeu a tais advertências durante os bombardeios muito mais prolongados e agressivos dos EUA e de Israel no início do conflito.

A bordo do Air Force One, o avião presidencial, no retorno da Turquia, Trump recorreu a mais uma estratégia habitual de seu repertório.

“Eles ligaram há pouco tempo; querem muito fazer um acordo”, disse ele, retomando um discurso que repete há meses, mas que nunca parece se concretizar.

Às vezes, o presidente parece travar uma guerra não apenas contra o Irã, mas também contra a realidade.

Esse conteúdo foi publicado originalmente emVer original TópicosDonald TrumpEstados UnidosIrã


Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por tiagotortella

Conteúdo Original / Fonte: tiagotortella

Bloqueador de anuncios detectado

Por favor, considere apoiar nosso trabalho desativando a extensão de AdBlock em seu navegador ao acessar nosso site. Isso nos ajuda a continuar oferecendo conteúdo de qualidade gratuitamente.