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Toda vez que você abre o Instagram, o TikTok ou o YouTube, uma decisão já foi tomada antes mesmo de sua primeira rolagem: o que vai aparecer, em que ordem e com que frequência.
Essa decisão não vem de um editor humano nem de uma ordem cronológica de publicações, mas vem de um conjunto de sistemas automatizados que aprenderam, ao longo do tempo, o que prende a sua atenção. O aprendizado obtido é usado para montar, em frações de segundo, um feed personalizado para cada usuário.
Para Daniel Delgado, especialista em inteligência artificial, entender como esses sistemas funcionam é mais do que uma curiosidade técnica. É uma forma de retomar, ao menos em parte, o controle sobre aquilo que você consome. “Quem entende o jogo ganha controle real. Quem não entende ganha apenas a ilusão de escolha”, afirma.
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O que é, de fato, o algoritmo?
A primeira coisa que o especialista esclarece é que o algoritmo não é um programa único. “É um conjunto de regras e de modelos que aprendem com dados e que, juntos, decidem a ordem e a prioridade do que cada pessoa vê toda vez que abre ou atualiza o aplicativo”, explica.
O processo acontece em três etapas. Primeiro, o sistema reúne tudo que poderia ser mostrado para aquele usuário naquele momento. Depois, filtra esse volume de conteúdo até sobrar um grupo de candidatos considerados relevantes. Por fim, dá uma nota para cada candidato e os organiza do mais ao menos provável de prender a atenção daquela pessoa específica.
Mas Daniel faz questão de apontar uma tensão que costuma passar despercebida: “O objetivo declarado das plataformas é entregar relevância e uma boa experiência. O objetivo prático, que sustenta o negócio, é capturar e manter a sua atenção pelo maior tempo possível, porque é o tempo de uso que gera receita com anúncios.” Relevância e retenção, como ele explica, nem sempre apontam para o mesmo lado.
Os quatro fatores que moldam o feed
Quando o assunto é o que mais pesa na personalização, Daniel organiza os fatores em quatro blocos. O primeiro é a atividade recente do próprio usuário: o que curtiu, comentou, salvou, reassistiu, quem seguiu e, principalmente, quanto tempo ficou em cada conteúdo.
O segundo são as características do próprio conteúdo: tema, áudio, legenda, formato e o histórico de desempenho daquele post com pessoas de perfil parecido.
O terceiro é a relação entre o usuário e quem publicou: troca de mensagens, comentários frequentes, visitas ao perfil.
O quarto é o contexto: idioma, localização, tipo de aparelho e horário.
Entre todos esses sinais, o especialista destaca um princípio que considera central: “O algoritmo dá mais peso ao que você faz do que ao que você diz que gosta. Você pode afirmar que adora conteúdo de finanças, mas, se na prática assiste mais a vídeos de humor, é humor que vai dominar o seu feed”.
Curtida, comentário, compartilhamento: o que vale mais?
Uma das dúvidas mais comuns sobre o funcionamento do algoritmo é se todas as formas de interação têm o mesmo peso. A resposta, segundo Daniel, é não. E a tendência recente aponta para uma hierarquia clara, com o tempo de atenção no topo.
“Tudo o que você faz é uma pista que diz ao algoritmo ‘isso aqui chamou a minha atenção’. Curtir é uma pista. Salvar um conteúdo é outra. Assistir ao mesmo vídeo duas ou três vezes é outra, e das mais fortes”, explica o especialista.
As demais interações valem conforme o esforço que exigem de quem age. A curtida é barata, custa pouco e vale pouco. O comentário é intermediário, e aqueles que geram conversa pesam mais do que um emoji isolado. O compartilhamento é o mais caro: quando alguém manda um conteúdo para outra pessoa, coloca a própria reputação em jogo ao recomendá-lo, o que o torna um dos sinais mais fortes para alcançar novas audiências.
Daniel ainda chama atenção para as pistas que a maioria nem percebe que está dando. “As plataformas registram se você reassistiu, se pausou no meio, se deslizou na hora e até a velocidade com que rola a tela”, afirma. Reassistir, por exemplo, é um dos sinais mais reveladores de interesse genuíno.
O celular está “ouvindo” as conversas?
Uma das crenças mais disseminadas sobre as redes sociais é a de que os aplicativos escutam as conversas dos usuários para exibir anúncios relacionados. A resposta do especialista, alinhada com o que empresas de segurança digital como Kaspersky e AVG e veículos como CBS News e Washington Post concluíram após testes técnicos, é direta: não, pelo menos não da forma que a maioria imagina.
Mas a explicação para a sensação de estar sendo ouvido é, segundo o especialista, mais perturbadora do que a própria teoria do microfone. A primeira razão é a precisão do rastreamento de dados: as empresas montam um perfil detalhado do usuário a partir do histórico de navegação, localização, comportamento nos aplicativos e cruzamento entre dispositivos, sem precisar de áudio.
A segunda é a proximidade: como os aplicativos conhecem a localização, o sistema percebe quando duas pessoas da mesma rede estão próximas e usa o interesse de uma como indício do interesse da outra.
A terceira é psicológica. “Existe um fenômeno chamado correlação ilusória, que é a nossa tendência de reparar nas coisas que coincidem com algo em que acabamos de pensar ou conversar. Você esquece as mil vezes em que falou de um assunto e nada apareceu, mas lembra com força da vez em que o anúncio surgiu logo depois”, explica Daniel.
Como ensinar o algoritmo a trabalhar a seu favor
Conhecendo as regras do jogo, é possível influenciar o que o algoritmo aprende sobre você. “O algoritmo aprende pelo que você faz, então aja com intenção”, explica Daniel.
Na prática, isso significa assistir até o fim e salvar os conteúdos que realmente interessam, mas também agir ativamente sobre o que não quer ver: deslizar rápido, ocultar ou marcar “não tenho interesse” ensina o sistema pelo lado negativo, o que é tão eficaz quanto curtir.
Comentar e compartilhar nos temas desejados são os sinais mais fortes para aumentar esse tipo de conteúdo no feed. As plataformas também têm ampliado as ferramentas de controle: o Instagram, por exemplo, passou a permitir o “reset” do conteúdo sugerido nas configurações, apagando o histórico usado pelo algoritmo e recomeçando do zero em um ou dois dias.
“Uma dica prática: logo depois de resetar, vale passar de 15 a 20 minutos engajando só com o conteúdo certo, para treinar o algoritmo novo na direção que você quer”, orienta o especialista.
O que muda com o avanço da IA?
Para o futuro, a direção dominante identificada pelo especialista é a hiper-personalização: feeds ajustados ao comportamento, ao contexto e à intenção de cada pessoa, com sistemas processando milhões de dados em tempo real.
A inteligência artificial também já atua na criação e adaptação do próprio conteúdo: a Meta, por meio do pacote Advantage+, já permite que anunciantes gerem automaticamente imagens, vídeos e textos ajustados para diferentes perfis de público. Em 2025, mais de quatro milhões de anunciantes já usavam essas ferramentas.
Sobre o controle do usuário nesse cenário, o especialista afirma: há mais ferramentas explícitas disponíveis, mas sistemas mais avançados também tendem a ser mais difíceis de entender e mais persuasivos.
“O cenário mais provável é um paradoxo: tecnicamente, mais opções de controle, mas exigindo mais conhecimento e mais intenção ativa para usá-las de verdade”, finaliza.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por lucastmachado