Efeitos da emergĂȘncia climĂĄtica no oceano preocupam pesquisadores

Por AgĂȘncia Brasil 10/03/2026 Ă s 21:35
Efeitos da emergĂȘncia climĂĄtica no oceano preocupam pesquisadores


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O oceano tem acumulado diferentes efeitos da emergĂȘncia climĂĄtica. Aquecimento anormal das ĂĄguas, branqueamento massivo de corais, deslocamento de espĂ©cies polares, queda na reprodução de peixes e mudanças nos padrĂ”es das correntes marĂ­timas sĂŁo alguns desses impactos.

Especialistas reunidos no Rio de Janeiro alertam para a urgĂȘncia de medidas de proteção desse ecossistema, com um olhar especial para as ĂĄguas internacionais, que correspondem a dois terços do oceano e sobre as quais nenhum paĂ­s tem jurisdição.

NotĂ­cias relacionadas:

O 3Âș SimpĂłsio BBNJ (sigla, em inglĂȘs, para Biodiversidade AlĂ©m da Jurisdição Nacional) reĂșne, entre segunda-feira (10) e quarta-feira (12), cientistas, polĂ­ticos, representantes de organismos internacionais e de organizaçÔes da sociedade civil para discutir a implementação do Tratado do Alto-Mar. O acordo entrou em vigor em janeiro deste ano.

O texto, ratificado até o momento por 86 países, incluindo o Brasil, é o ponto de partida para regulamentar a proteção da biodiversidade, a troca de tecnologias marinhas, a criação de novos órgãos de governança e o acesso a recursos genéticos.

HĂĄ, no tratado, sete mençÔes Ă s mudanças climĂĄticas. Em resumo, os paĂ­ses signatĂĄrios reconhecem a necessidade de combater a perda da diversidade biolĂłgica e a degradação dos ecossistemas do oceano. Problemas como aquecimento, perda de oxigĂȘnio, poluição e acidificação sĂŁo destacados. TambĂ©m hĂĄ um direcionamento para que ĂĄreas vulnerĂĄveis sejam identificadas e protegidas.

“As NaçÔes Unidas tĂȘm instituiçÔes, como o IPCC [sigla, em inglĂȘs, para Painel Intergovernamental sobre Mudanças ClimĂĄticas], que reĂșnem especialistas sobre o clima. Mas os relatĂłrios ainda abordam o oceano de forma muito tĂ­mida. O Tratado do Alto-Mar coloca o oceano no centro das discussĂ”es”, diz Segen Farid Estefen, diretor-geral do Instituto Nacional de Pesquisas OceĂąnicas (INPO).

Impactos socioeconĂŽmicos

A professora de Oceanografia FĂ­sica e Clima na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Regina Rodrigues, destacou os efeitos sociais do aquecimento global.

“A elevação do nĂ­vel do mar ameaça mais de um bilhĂŁo de pessoas que vivem em zonas costeiras de baixa altitude. TrĂȘs bilhĂ”es de pessoas dependem de frutos do mar como principal fonte de proteĂ­na. Assim, a queda na reprodução de peixes ameaça a segurança alimentar”, explicou Regina Rodrigues.

A professora destaca que também hå riscos de deslocamento populacional. 

“E os riscos de conflitos provocados pelo clima sĂŁo altos em regiĂ”es dependentes do oceano, especialmente no PacĂ­fico, na BaĂ­a de Bengala e na África Ocidental”, complementa.

Para avançar em resoluçÔes efetivas, a professora defende uma conexĂŁo mais estreita entre os trabalhos do Tratado do Alto-Mar e os da Convenção das NaçÔes Unidas sobre Mudanças ClimĂĄticas (UNFCCC, na sigla em inglĂȘs). Hoje, os tratados funcionam de forma paralela.


Rio de Janeiro (RJ), 10/03/2026 - A professora da Universidade Federal de Santa Catarina  (UFSC), Regina R. Rodrigues, fala durante o 3Âș SimpĂłsio BBNJ (sigla, em inglĂȘs, para Biodiversidade AlĂ©m da Jurisdição Nacional), primeiro grande encontro cientĂ­fico internacional apĂłs a entrada em vigor do Tratado do Alto-Mar, no Museu do AmanhĂŁ, centro da cidade. Foto: TĂąnia RĂȘgo/AgĂȘncia Brasil

Regina Rodrigues destaca os riscos de conflitos causados pelas mudanças climĂĄticas- TĂąnia RĂȘgo/AgĂȘncia Brasil

“Precisamos nos perguntar se nossos sistemas de governança, nacionais e internacionais, correspondem à escala, à velocidade e à natureza transfronteiriça dos impactos climáticos”, diz.

Regina Rodrigues destaca  que a governança precisa ser adaptĂĄvel, porque as mudanças climĂĄticas continuarĂŁo evoluindo. “Devemos aplicar o princĂ­pio da precaução. E devemos aprender com o processo da UNFCCC para nĂŁo repetir os mesmos erros”, complementa.

Pesca

O pesquisador brasileiro do Instituto para os Oceanos e Pescas da Universidade da ColĂșmbia BritĂąnica, no CanadĂĄ, Juliano Palacios Abrantes, destacou como o aquecimento global tem impactado a pesca em todo o mundo.


Rio de Janeiro (RJ), 10/03/2026 - O pesquisadpr da University of Britsh Columbia (UBC), Juliano Palacios-Abrantes, fala durante o 3Âș SimpĂłsio BBNJ (sigla, em inglĂȘs, para Biodiversidade AlĂ©m da Jurisdição Nacional), primeiro grande encontro cientĂ­fico internacional apĂłs a entrada em vigor do Tratado do Alto-Mar, no Museu do AmanhĂŁ, centro da cidade. Foto: TĂąnia RĂȘgo/AgĂȘncia Brasil

Juliano Palacios Abrantes destacou as complexidade na forma como os estoques de peixes sĂŁo gerenciados em ĂĄguas internacionais- TĂąnia RĂȘgo/AgĂȘncia Brasil

Abrantes pontuou que hĂĄ complexidade na forma como os estoques de peixes sĂŁo gerenciados em ĂĄguas internacionais, porque atravessam mĂșltiplas jurisdiçÔes e envolvem muitos paĂ­ses interessados.

“Em um estudo recente, descobrimos que muitos estoques de peixes tropicais estão se movendo das zonas econîmicas exclusivas em direção ao alto-mar. Isso pode gerar conflitos internacionais, como já vimos na Europa com o caso da cavala”, diz Juliano Palacios Abrantes.

Outra possibilidade de acordo com o pesquisador, é o deslocamento de estoques para ĂĄreas onde nĂŁo existem acordos ou onde eles nĂŁo sĂŁo protegidos ou geridos. “E pode aumentar as desigualdades, porque apenas um nĂșmero limitado de paĂ­ses ricos tem capacidade para pescar em alto-mar”.

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