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A agricultura global e a cadeia de suprimentos de alimentos respondem por quase um terço das emissões globais de gases de efeito estufa, sendo que as fazendas são responsáveis por quase metade dessas emissões.
Ao mesmo tempo, a agricultura é um dos setores mais ameaçados pelas mudanças climáticas, com a expectativa de que o aumento das temperaturas devaste culturas agrícolas em diversas partes do mundo.
“Nunca foi tão evidente que nosso sistema alimentar precisa ser consertado”, afirmou Chuck de Liedekerke, CEO e cofundador da Soil Capital, empresa belga que remunera agricultores por reduzirem suas emissões de carbono e melhorarem a qualidade do solo por meio de práticas de agricultura regenerativa focadas na restauração da terra.
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“Há séculos estamos esgotando a fertilidade natural dos nossos solos”, disse. “Se for possível investir, por meio de práticas regenerativas, na fertilidade dos solos, todo o sistema se torna mais resiliente.”
O solo pode armazenar o carbono absorvido pelas plantas. Segundo Liedekerke, o carbono estocado no solo é “um dos principais motores da fertilidade” e aumenta a retenção de água, o que pode tornar as lavouras mais resistentes à seca. No entanto, quando há o uso de máquinas pesadas nas lavouras, o solo libera parte desse carbono de volta para a atmosfera.
Os agricultores que trabalham com a Soil Capital se comprometem a aumentar os níveis de carbono em seus solos por meio de práticas regenerativas. Entre elas estão a redução da movimentação do solo e do uso de fertilizantes químicos, o aumento da diversidade de plantas, o cultivo de culturas de cobertura entre as safras comerciais e o plantio de árvores e outras vegetações nas propriedades.
A empresa monitora a quantidade de carbono armazenada nos solos e emite certificados referentes às melhorias registradas. Esses certificados são vendidos a empresas parceiras da Soil Capital e cada um equivale à redução ou remoção de uma tonelada métrica de dióxido de carbono equivalente (CO₂e), permitindo que essas companhias compensem parte de suas emissões.
Os certificados custam entre 20 e 60 euros, e os agricultores recebem 70% da receita obtida com a venda. “O que impede muitos produtores de adotar a agricultura regenerativa é o risco que precisam assumir em um contexto de margens muito apertadas”, afirmou Liedekerke. “Por isso, um incentivo financeiro é hoje o fator mais importante para promover mudanças em larga escala.”
Em abril, a Soil Capital anunciou uma parceria plurianual com a Nestlé, maior empresa de alimentos e bebidas do mundo. A Nestlé pretende obter 50% de seus principais ingredientes de agricultores que utilizem práticas regenerativas até 2030. Segundo os dados mais recentes da companhia, o fornecimento de ingredientes responde por mais de 70% de suas emissões totais de gases de efeito estufa.
“Estamos investindo na saúde de longo prazo da nossa base de fornecimento, fortalecendo a resiliência e focando no solo”, afirmou Anita Wälz, responsável pela área de sustentabilidade da Nestlé na Europa, na ocasião do anúncio.
A agricultura regenerativa também vem ganhando espaço em outros segmentos. Em maio, as fabricantes de bebidas Carlsberg e Diageo estiveram entre as 40 organizações que assinaram uma declaração de intenções para ampliar a adoção da agricultura regenerativa em suas cadeias de suprimentos, por meio de um programa desenvolvido pela plataforma Sustainable Agriculture Initiative.
A Unilever pretende implementar práticas regenerativas em mais de 1 milhão de hectares até 2030. Já a PepsiCo quer adotar essas práticas em cerca de 4 milhões de hectares de áreas que produzem os ingredientes utilizados pela empresa no mesmo período.
Outras companhias também atuam no mercado de créditos de carbono vinculados ao solo, como a dinamarquesa Agreena, que se apresenta como o maior programa de carbono do solo da Europa.
Barreiras à adoção
De acordo com a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o sequestro líquido de carbono em solos agrícolas poderia compensar cerca de 4% das emissões globais anuais de gases de efeito estufa causadas pela atividade humana ao longo do restante do século.
Mas nem todos estão convencidos de que a agricultura regenerativa possa contribuir de forma significativa para mitigar as mudanças climáticas.
“A ideia de que será possível sequestrar grandes quantidades de carbono em solos agrícolas em produção me parece improvável”, afirmou Timothy Searchinger, diretor técnico para agricultura, florestas e ecossistemas do World Resources Institute.
Segundo ele, o uso de culturas de cobertura “pode sequestrar uma pequena quantidade de carbono ao longo do tempo”, mas atualmente essas culturas ocupam menos de 4% das áreas agrícolas dos Estados Unidos e enfrentam obstáculos para uma adoção mais ampla, incluindo custos e o curto período disponível para o estabelecimento das plantas antes do inverno.
Searchinger acrescentou que também existe debate científico sobre até que ponto o plantio direto contribui para aumentar os estoques de carbono no solo. Nos Estados Unidos, a maioria dos agricultores que adota o sistema sem revolvimento do solo ainda revolve o solo de forma periódica, o que, segundo ele, tende a anular boa parte dos benefícios relacionados ao armazenamento de carbono.
“São boas práticas, mas não fazem grande diferença para o clima”, disse Searchinger, ressaltando, porém, que a agricultura regenerativa pode reduzir a erosão, melhorar a retenção de água e elevar a qualidade hídrica.
Liedekerke argumenta que os benefícios potenciais da agricultura regenerativa vão além da questão climática. Além do carbono, a Soil Capital monitora indicadores relacionados à saúde do solo, biodiversidade e gestão da água.
“Não se trata apenas de reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Queremos aumentar a fertilidade do solo”, afirmou. “Se não há fertilidade, não há fazendas. Se não há fazendas, não há alimentos.”
Atualmente, a empresa apoia 1,8 mil agricultores em uma área de 500 mil hectares distribuída por seis países. Segundo Liedekerke, a meta é alcançar 10 milhões de hectares nos próximos dez anos.
“Acredito que, dentro de dez anos, a agricultura regenerativa poderá ser a norma”, disse. “Acabamos de cruzar a linha de partida, então ainda há muito progresso empolgante pela frente.”
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Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por gabriellaweiss



