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Manifestantes na África do Sul exigiram que todos os estrangeiros sem documentação deixem o país até terça-feira (30), antes de protestos anti-imigração que muitos temem que se tornem violentos.
Milhares de africanos de outros países estão retornando às suas nações ou se refugiando em acampamentos por medo de ataques — embora o grupo que organiza os protestos, o “March and March”, afirme que o movimento é pacífico.
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Por que os manifestantes protestam contra os imigrantes?
Grupos anti-estrangeiros afirmam que a África do Sul está tomada por imigrantes ilegais que tiram empregos dos sul-africanos, sobrecarregam serviços públicos e são responsáveis pelas altas taxas de criminalidade.
Em 24 de junho, Musa Hlongwa, presidente do grupo civil anti-imigração “United South Africa”, declarou a jornalistas:
“Os sul-africanos estão cansados de enfrentar longas filas em hospitais… de competir por vagas em escolas públicas com imigrantes ilegais… de competir por empregos com cidadãos estrangeiros… cansados de nigerianos que vendem drogas para a juventude deste país”, afirmou Hlongwa.
Pesquisas revelam aumento no “sentimento anti-imigração”
Três pesquisas realizadas no ano passado indicaram um aumento no sentimento anti-imigração na África do Sul.
Um levantamento do Conselho de Pesquisa em Ciências Humanas revelou que os sul-africanos estavam mais hostis em relação aos imigrantes do que nunca.
Apenas um em cada seis adultos afirmou que receberia bem todos os estrangeiros, enquanto 42% disseram que não receberiam nenhum — um aumento em relação ao terço registrado em 2021.
Uma pesquisa do Afrobarometer mostrou que sete em cada dez sul-africanos consideram negativo o impacto econômico dos imigrantes, com uma maioria expressiva de 85% defendendo que as autoridades reduzam o número de refugiados que entram no país ou barrem totalmente a sua entrada.
O instituto Ipsos constatou que quase três quartos dos entrevistados não confiavam “nem um pouco” em imigrantes vindos de outras partes da África.
Número de imigrantes abaixo dos padrões internacionais
Um dos argumentos desse grupo é sobre o número de imigrantes que estaria no país.
Porém, uma pesquisa do órgão nacional de estatísticas realizada em 2023 mostrou que havia 3,1 milhões de imigrantes na África do Sul, o que equivale a cerca de 4,1% da população — uma queda em relação aos 5,6% registrados uma década antes.
Esse índice é baixo para os padrões internacionais. No Reino Unido, a proporção é de 17%; no Canadá, 22%; e na Austrália, 30%, segundo dados da ONU de 2024.
Defensores de causas migratórias afirmam que as estatísticas não refletem os números reais, que seriam inflados pela chegada de imigrantes sem documentação. No entanto, a StatsSA utiliza dados do censo projetados para contabilizar também esse grupo.
“A impressão é de que há… hordas de pessoas entrando no país, mas os dados apontam o contrário”, disse Anthony Kaziboni, pesquisador sênior do Centro de Desenvolvimento Social na África da Universidade de Joanesburgo.
Alegações sobre a criminalidade
Outro argumento diz respeito a um suposto aumento na taxa de criminalidade.
A polícia não divulga dados sobre a nacionalidade de condenados, mas números da população carcerária do Departamento de Justiça de 2017 mostravam que 11.842 estrangeiros estavam detidos em prisões sul-africanas — ou cerca de 6% da população carcerária total.
Desses, 1.380 estavam presos por terem entrado ilegalmente no país.
“Todas as evidências sugerem que os imigrantes respeitam a lei de forma desproporcionalmente alta. A maioria de seus crimes consiste em violações das leis de imigração”, afirmou Loren B. Landau, professor de Migração e Desenvolvimento na Universidade de Oxford.
Emprego e renda
Um relatório do Banco Mundial de 2018 mostrou que, para cada imigrante empregado, cerca de dois empregos são criados para sul-africanos por meio da atividade econômica.
Isso ocorre porque os imigrantes ganham dinheiro e gastam a maior parte dele na África do Sul, adquirindo bens e serviços produzidos pela população local.
“Se você tem um restaurante na África do Sul… (você) tem mais clientes em potencial”, afirmou Lauren Gilbert, diretora de dados de ciência política da GeoQuant.
“Se os imigrantes vivem em condições precárias de cozinha (por exemplo) — já que a moradia para imigrantes costuma ser ruim —, é mais provável que consumam comida de rua”, avaliou.
Imigrantes e uso de serviços públicos
Outro ponto abordado pelos manifestantes é que os imigrantes estariam sobrecarregando os serviços públicos.
Porém, é muito improvável que imigrantes sem documentação tentem utilizar hospitais ou escolas públicas — serviços que exigem registro prévio — por medo de serem descobertos, disse Kaziboni.
Os serviços de saúde e educação enfrentam dificuldades em todo o país, mas isso se deve principalmente ao subinvestimento crônico e à corrupção endêmica, segundo economistas.
“Culpar diretamente os imigrantes pela crise de um sistema de saúde falido é injusto e infundado. Não há evidências que sustentem isso”, adicionou Kaziboni.
“Devemos culpar a má governança, a má gestão e a corrupção”, afirmou ele.
TópicosÁfrica do SulImigraçãoProtestos
Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por tiagotortella
