Gana trava Inglaterra na Copa do Mundo com esquema ultra defensivo. Entenda a estratégia!
Seleção comandada por Carlos Queiroz transforma o empate em um exercício de resistência, repetindo uma fórmula que já havia dado trabalho a Espanha e Portugal em Mundiais anteriores
Guilherme Silva
23/06/2026 às 21:37
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(Foto: Reprodução Instagram @england)
Futebol às vezes não é sobre o que se faz com a bola, mas sobre o que se impede o outro de fazer com ela. Nesta terça-feira (23/6), em Boston, Gana escolheu esse segundo caminho e conseguiu segurar a Inglaterra em um empate sem gols, com o ataque inglês batendo sempre na mesma parede: a defesa africana. O resultado carregou a assinatura de Carlos Queiroz, treinador que transformou a arte de fechar espaços em marca registrada e que já havia levado essa mesma ideia para a Copa do Mundo de 2018, quando dirigia o Irã.
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Uma muralha com Gana
A máxima de que quem não se expõe sobrevive ajudou a desenhar o início da partida. Desde o apito inicial, a Inglaterra ficou com a bola. Rodou o campo, tentou acelerar, procurou espaços. Nos primeiros minutos, os ingleses controlaram amplamente a posse, mas encontraram sempre o mesmo cenário quando se aproximavam da área adversária. Gana já estava lá. Em bloco baixo, compacta, com praticamente todos os jogadores protegendo o próprio gol.
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Abrir em tela cheia Kane e Carlos QueirozReprodução Formação defensiva dos jogadores de Gana durante o confronto com os inglesesReprodução/CazéTV Carlos Queiroz, técnico de GanaReprodução Confronto entre Inglaterra x GanaReprodução/CazéTV Formação defensiva dos jogadores de Gana durante o confronto com os inglesesReprodução/CazéTV
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Na prática, o time de Carlos Queiroz jogou como se tivesse o único objetivo de fechar todos os caminhos até o goleiro. Quando a Inglaterra atacava, Gana recuava em massa. O time formou duas linhas muito próximas, uma atrás da outra, com pouquíssimos espaços entre elas. E, na frente disso tudo, apenas um jogador mais adiantado, sozinho, esperando qualquer saída.
Trata-se de um 4-4-1-1 bastante recuado, que na prática se comporta como duas barreiras de quatro jogadores bem próximas e um atacante isolado à frente. Para quem não acompanha os detalhes táticos do futebol, a imagem é simples: imagine uma rua estreita sendo fechada por dois portões colocados um atrás do outro. Mesmo que o primeiro seja ultrapassado, o segundo continua bloqueando a passagem. Foi exatamente isso que a Inglaterra encontrou.
O velho plano de Carlos Queiroz
A estratégia não nasceu em Boston. Aos 73 anos, Carlos Queiroz acumula uma das trajetórias mais extensas do futebol de seleções. Nascido em Angoche, no então Moçambique Português, o treinador construiu carreira em diferentes continentes, passou por clubes como Sporting, Real Madrid e Nagoya Grampus, trabalhou ao lado de Sir Alex Ferguson no Manchester United e comandou seleções como Portugal, África do Sul, Colômbia, Egito, Catar, Omã e Irã.
Mas foi justamente com equipes consideradas inferiores tecnicamente que sua marca se consolidou. Na Copa do Mundo de 2018, comandando o Irã, Queiroz chamou atenção ao montar sistemas defensivos capazes de dificultar a vida de seleções favoritas.
Contra a Espanha, os iranianos passaram boa parte do jogo bloqueando espaços e limitando as ações ofensivas adversárias. A derrota por 1 a 0 veio apenas em um lance que terminou nos pés de Diego Costa após uma sequência de desvios. O Irã ainda chegou a marcar, mas teve o gol anulado por impedimento.
Dias depois, diante de Portugal, o roteiro se repetiu. A equipe reduziu espaços, congestionou a entrada da área e segurou um empate por 1 a 1. Nos minutos finais, os iranianos desperdiçaram uma oportunidade que poderia ter garantido uma classificação histórica às oitavas de final. O princípio era simples: quanto menos espaço, menor o perigo.
Quando a posse não vira ameaça
A consequência do plano apareceu nos números e nas sensações. A Inglaterra terminou o primeiro tempo com ampla superioridade na posse de bola. Mas posse não significa necessariamente perigo.
A equipe de Thomas Tuchel circulava a bola de um lado para o outro sem conseguir transformar domínio territorial em finalizações. O resultado foi um primeiro tempo sem nenhum chute no alvo. A seleção africana praticamente abriu mão de atacar para garantir que os ingleses também não encontrassem caminhos.
O pior 0 a 0 da Copa
Em uma Copa do Mundo que já havia produzido outros empates sem gols, Boston entregou um cenário diferente. Nos outros placares zerados do torneio, os goleiros haviam sido protagonistas. Vozinha brilhou contra a Espanha na estreia de Cabo Verde. Room fechou o gol diante do Equador. Courtois e Beiranvand também tiveram atuações decisivas no empate entre Bélgica e Irã. Desta vez, não. Os goleiros quase não precisaram trabalhar.
O primeiro chute no alvo da partida aconteceu apenas aos 11 minutos do segundo tempo, quando Anthony Gordon finalizou sem força para defesa tranquila de Benjamin Asare. O dado ajuda a explicar o tipo de jogo que foi disputado em Boston.
Entre tensão e resistência
Nem tudo foi apenas marcação. Aos 20 minutos da primeira etapa, Jordan Ayew e Reece James se chocaram de cabeça em uma disputa aérea. O atacante ganês levou a pior, sofreu um corte e precisou receber atendimento médico antes de retornar ao gramado com um curativo.
Pouco antes do intervalo, jogadores e integrantes das comissões técnicas se envolveram em uma discussão na saída para os vestiários. O clima, porém, esfriou rapidamente.
Na volta para o segundo tempo, as câmeras flagraram Carlos Queiroz e Jude Bellingham conversando de forma amistosa, encerrando qualquer resquício da tensão anterior.
A única brecha
Toda estratégia defensiva carrega um risco. Uma hora, a porta pode abrir. Aos 23 minutos da etapa final, Harry Kane conseguiu escapar da forte marcação africana e bateu cruzado para defesa segura de Asare.
Mas a grande oportunidade inglesa apareceu apenas aos 40. O’Reilly cabeceou na trave após cruzamento na área. A bola sobrou limpa para Kane dentro da pequena área. Livre e de frente para o gol, o atacante tentou concluir de primeira. A finalização saiu muito acima do travessão.
Foi a melhor chance da Inglaterra em toda a partida. E também o lance que resumiu a noite. Durante quase 90 minutos, Gana impediu que a Inglaterra encontrasse espaço. Quando finalmente encontrou, faltou precisão.
Resistir também é jogar
A estratégia vista em Boston não foi uma novidade para quem acompanhou a estreia ganesa. Na vitória por 1 a 0 sobre o Panamá, a seleção africana também passou grande parte da partida defendendo e apostando em uma oportunidade isolada para decidir.
Após aquele jogo, Carlos Queiroz resumiu o plano. “A ideia era vencer na base da inteligência, deixando o adversário controlar a partida e, então, marcar um gol”, disse o treinador português.
O empate mantém os ingleses na liderança do Grupo L, com quatro pontos. Gana aparece logo atrás, também com quatro, separada apenas pelo saldo de gols. Mais do que o resultado, porém, Boston deixou uma demonstração clara da identidade construída por Carlos Queiroz ao longo de décadas. Nem sempre vencer significa atacar mais. Às vezes, passa apenas por não deixar o outro jogar.
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Tags:Carlos Queiroz, Copa do Mundo, Gana, Inglaterra
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Conteúdo reproduzido originalmente em: Portal Leo Dias por Guilherme Silva



