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O Iraque poderia servir de exemplo de como os Estados Unidos conseguiriam cumprir sua ameaça de expulsar os países que continuam negociando com o Irã do sistema financeiro baseado no dólar.
Washington já sancionou diversos bancos iraquianos acusados de fazer negócios com Teerã, embora tenha evitado medidas que devastariam a economia do aliado estratégico de ambos os países.
O presidente dos EUA, Donald Trump, alertou que qualquer país que fornecer ao Irã uma tábua de salvação econômica enfrentará severas consequências. Isso poderia colocar os principais parceiros comerciais do Irã nos últimos anos na mira: China, Emirados Árabes Unidos, Turquia, Índia, Paquistão e Omã.
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, anunciou na última segunda-feira (24) um “ataque econômico” contra o Irã com sanções, afirmando que seus parceiros comerciais seriam alvos, sem nomeá-los.
Como os EUA influenciam a economia iraquiana
Desde a invasão do Iraque em 2003, os Estados Unidos exercem controle efetivo sobre as receitas petrolíferas do país, principalmente por meio do Banco da Reserva Federal de Nova York, o que confere a Washington uma influência extraordinária sobre os assuntos de Bagdá.
Um aliado raro tanto dos Estados Unidos quanto do Irã, com mais de US$ 100 bilhões em reservas mantidas nos EUA, o Iraque depende fortemente da boa vontade de Washington para manter o fluxo de suas receitas petrolíferas e finanças.
A Reuters revelou, no final de 2024, uma rede de contrabando de óleo combustível que gera pelo menos US$ 1 bilhão por ano para o Irã e seus aliados no Iraque. Outros vizinhos do Irã envolvidos em esquemas semelhantes podem enfrentar escrutínio similar por parte de Washington.
Embora os EUA tenham uma influência excepcionalmente forte sobre o Iraque em comparação com outros grandes parceiros comerciais do Irã, o status do dólar americano como pilar do comércio global torna seu alcance formidável.
Que medidas os EUA já tomaram contra o Iraque?
Em abril, a Reuters noticiou que os EUA suspenderam um envio de US$ 500 milhões em dinheiro vivo para o Iraque e interromperam partes da cooperação em segurança para pressionar Bagdá em relação às milícias apoiadas pelo Irã. Em janeiro, Washington teria ameaçado políticos iraquianos de alto escalão com sanções — inclusive sobre as receitas do petróleo — caso esses grupos se juntassem ao próximo governo.
Sucessivas administrações americanas têm buscado sufocar esse fluxo de dólares com sanções a bancos iraquianos nos últimos anos, embora alguns dos maiores bancos tenham sido poupados.
O atual primeiro-ministro do país surgiu como um candidato considerado aceitável pelo governo Trump, que tem pressionado Bagdá constantemente para conter a influência de Teerã.
A pressão dos EUA aumentou os custos e os riscos das transações financeiras com o Irã, forçando as instituições iraquianas a aprimorarem a conformidade, afirmou Neil Quilliam, pesquisador associado do think tank britânico Chatham House.
Mas isso não rompeu os laços econômicos do Iraque com o Irã, que vão além do sistema financeiro — deixando Bagdá presa entre a dependência de Washington e de Teerã.
“Países como a China ou a Turquia têm economias maiores e mais espaço para absorver pressão. O Iraque tem menos alternativas e uma resiliência financeira significativamente menor”, disse Quilliam.
“Sua vulnerabilidade vem menos da escala de seu comércio com o Irã e mais de sua dependência do acesso contínuo à arquitetura financeira liderada pelos EUA.”
Quais são os laços comerciais do Iraque com o Irã?
O comércio do Iraque com o Irã ultrapassou US$ 10 bilhões em 2025, segundo dados oficiais, impulsionado principalmente pelas exportações iranianas de alimentos e bens de consumo para o mercado iraquiano.
O comércio caiu em 2026, após o início da guerra com o Irã, aumentando os riscos de segurança, interrompendo as travessias de fronteira e elevando os custos de transporte.
O Irã há muito considera seu vizinho e aliado Iraque como um “pulmão” econômico e exerce considerável influência militar, política e econômica no país por meio das poderosas milícias xiitas e partidos políticos que apoia. O país também obtém divisas do Iraque por meio de exportações e evita as sanções americanas utilizando o sistema bancário iraquiano.
A energia é fundamental para essa relação: o Iraque paga ao Irã entre US$ 4 bilhões (R$ 20 bilhões) e US$ 5 bilhões (R$ 25,8 bilhões) por ano pelo gás natural usado para gerar eletricidade, segundo autoridades do setor energético iraquiano. Essas autoridades alertam que novas medidas americanas podem colocar esses pagamentos em risco.
As novas medidas americanas contra o Iraque serão eficazes?
O Iraque tem sido, há muito tempo, uma rota eficaz para o Irã burlar as sanções, afirmou Tom Keatinge, diretor do Centro de Finanças e Segurança do Royal United Services Institute.
“À medida que as conexões do Irã com o sistema financeiro internacional se tornam mais restritas, as vulnerabilidades existentes serão exploradas em maior escala. Nesse sentido, o Iraque, seu sistema bancário e seu setor financeiro informal podem esperar enfrentar desafios crescentes”, acrescentou.
Ele afirmou, no entanto, que uma abordagem baseada em incentivos, em vez de medidas punitivas, poderia ser mais eficaz. Por exemplo, os EUA poderiam fornecer assistência técnica ao banco central iraquiano e ao governo iraquiano em geral, em “uma estratégia baseada em incentivos em vez de punições”, acrescentou.
Os EUA também temem consequências mais amplas para o sistema financeiro. Questionado sobre por que não chegou a penalizar o Irã diretamente ou a nomear países específicos, Bessent respondeu: “Por que eu iria querer implodir o sistema financeiro global?”
Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por tomasbraga.
