ContilNet Notícias
Notícias

Limpando o feed do Instagram: instruções para uma missão impossível

Por CNN Brasil Fonte: jorgemarin 30/06/2026 às 04:32
Limpando o feed do Instagram: instruções para uma missão impossível

Compartilhar matéria

Às vezes, você tem a sensação de que o Instagram está drenando sua energia ou te deixando irritado? Se o seu “Explorar” está cheio de notícias negativas, padrões de vida irreais ou fofocas que não te agregam, talvez seja o momento de fazer um “detox digital” na sua rede social.

Embora personalizar o feed seja uma tarefa hercúlea — porque toda vez que abre, o aplicativo volta para o feed padrão algorítmico (a tela inicial) —, é também um exercício de soberania digital. A plataforma não facilita, mas é uma forma de retomar o papel de sujeito e deixar de ser apenas um objeto do algoritmo.

Leia mais

Mesmo dando trabalho, a boa notícia é que o Instagram disponibiliza, a poucos toques, ferramentas que devolvem ao usuário o controle sobre o que aparece em sua timeline. É possível redefinir as recomendações do algoritmo, ativar o feed cronológico ou marcar conteúdos como indesejados.

Mas o que se percebe é que a esmagadora maioria das pessoas não faz nada disso. Continuam rolando um feed montado por uma IA (inteligência artificial) que nunca perguntou o que elas queriam ver — apenas observa o que as mantém conectadas por mais tempo.

O paradoxo é incômodo: há ferramentas, muitos tutoriais, mas a inércia vence. No fundo, as big techs não querem que você seja um “curador” do seu próprio tempo; elas querem que você seja um consumidor fluido, ou o passageiro no banco de trás, sendo levado para um destino que não escolheu.

Entrevistada pela CNN Brasil, a psicóloga Adriana de Araújo, mestre em Psicologia e autora de 17 livros, explicou que essa distância entre saber e agir tem explicação: “as pessoas não funcionam apenas na lógica”.

Para ela, pedir que alguém controle o próprio feed é “como pedir que a pessoa mantenha uma dieta rigorosa morando dentro de um restaurante, uma padaria ou um verdadeiro paraíso de guloseimas”. A dificuldade, resume a psicóloga, “não é falta de vontade: o cenário foi pensado para vencer o controle humano”.

AI resignation: como funciona a psicologia da impotência digital?

AI resignation é a força avassaladora e inevitável que enfraquece a percepção dos jovens sobre seu próprio poder de agir • Katemangostar/Magnific

Em um estudo publicado recentemente na revista Future Humanities, pesquisadores identificaram um fenômeno — que batizaram como AI resignation — “como uma força avassaladora e aparentemente inevitável, capaz de enfraquecer a percepção dos jovens sobre seu próprio poder de agir — tanto no plano pessoal quanto no político — em relação ao futuro”.

Não se trata de preguiça nem de ignorância. Para os autores, é, na verdade, uma disposição estruturalmente produzida, gerada pelo entrelaçamento entre infraestruturas de dados e narrativas que apresentam a IA como inevitável. O usuário não desiste por fraqueza, mas porque o ambiente foi construído para que desistir pareça racional.

Há um paralelo direto com a psicologia do comportamento. “Quando as pessoas tentam controlar ou mudar algo e não conseguem, é comum que parem de tentar”, diz Araújo. “Estamos lidando com sistemas muito mais rápidos e sofisticados do que a nossa própria consciência”, afirma.

Segundo a psicóloga, isso não é uma escolha consciente: “as pessoas acabam entregando o controle sem perceber. Isso reduz o esforço mental e o desgaste, mas tem um custo alto, que é a perda de autonomia das escolhas no dia a dia“. Quando essa perda passa despercebida, ela “vira padrão inconsciente”.

O estudo revela um dado preocupante: adolescentes que tentam limitar o tempo de tela com bloqueios de aplicativos acabam desativando as restrições e usando os serviços ainda mais. O pior é que os jovens interpretam esse problema estrutural — o design viciante — como uma culpa individual.

Não é falha pessoal, diz Araújo. “Quando um adolescente ativa bloqueios e depois desativa, isso mostra justamente que o sistema funciona como foi projetado”. O risco é internalizar a culpa — “eu sou fraco”, “não dou conta” —, o que piora o comportamento: “a energia passa a ser usada para tentar se regular, em vez de criar estratégias de mudança”, diz.

Como o design te prende com o que você não escolheu?

O feed do Instagram passou a mostrar os interesses da plataforma em manter a atenção do usuário durante o maior tempo possível • Jenny Lorenzo/Giphy

O sistema de recomendação do Instagram foi construído para prever o que você tem mais probabilidade de apreciar — não com base no que você declara querer, mas no que seu comportamento revela. Tudo é lido: o tempo de pausa em um vídeo, a velocidade de deslize em uma foto, o quanto você voltou a ver uma imagem.

Quando um usuário marca algo como “não tenho interesse”, o algoritmo registra o sinal. Mas, se o comportamento seguinte contradiz essa afirmação — ao assistir até o fim um Reels parecido —, a plataforma prioriza o que ele fez, não o que ele disse. A ação fala mais alto do que o desejo expresso.

Hoje, o feed deixou de refletir os interesses reais do usuário e passou a mostrar os interesses da plataforma em manter sua atenção durante o maior tempo possível. São coisas completamente diferentes, embora pareçam iguais quando você está rolando a tela no escuro.

“A pessoa pode sempre escolher, mas precisa de mais energia e consciência para fazer algo a respeito”, afirma Araújo. “Muitas pessoas não saberiam dizer exatamente que tipo de conduta deveriam ter para alterar o algoritmo. Não é um botão de ‘quero isso’ ou ‘não quero aquilo'”.

Lutando contra maré: dicas para limpar o feed e fazer um detox no Instagram

Reduzir o tempo de tela é um exercício diário: pequenos ajustes nas configurações ajudam a recuperar o controle sobre o que aparece no feed • Freepik

O primeiro passo é tocar no logo da rede no topo da tela e mudar o feed padrão para “Seguindo” para ver apenas os perfis que você segue. Vale notar que essa opção não pode ser definida como padrão permanente — ela precisa ser ativada manualmente a cada acesso.

Em seguida, vá em Perfil > menu (três linhas) > Preferências de conteúdo > Redefinir conteúdo sugerido. Esse processo não apaga sua conta nem quem você segue, mas reduz significativamente a influência do histórico recente nas recomendações. No mesmo menu, é possível ajustar os filtros de “Conteúdo sensível” e “Conteúdo político”, que tornam o feed mais previsível sem eliminar o algoritmo.

Sempre que um conteúdo indesejado aparecer, toque nos três pontinhos da publicação e selecione “Não tenho interesse”. Esse ajuste precisa ser consistente: o algoritmo registra o sinal, mas pode ignorá-lo se o seu comportamento posterior — como assistir a vídeos semelhantes até o fim — indicar o contrário.

Revise periodicamente quem você segue: perfis que não fazem mais sentido continuam alimentando o algoritmo com dados desatualizados. Preste atenção também ao tempo que você dedica a cada conteúdo — sair de um vídeo nos primeiros segundos sinaliza desinteresse com mais força do que qualquer botão.

Por fim, use o feed “Favoritos” (acessado pelo mesmo menu do “Seguindo”) para priorizar contas específicas. Embora ainda possa incluir anúncios, ele reduz a interferência algorítmica ao destacar publicações de perfis selecionados manualmente. Assim como o “Seguindo”, esse feed também não pode ser definido como padrão permanente.

Para Araújo, o trabalho psicológico nesses casos passa pelo acompanhamento dessas emoções e pela construção de novas formas de lidar com os estímulos — o que inclui mudar o ambiente, reduzir gatilhos e criar limites externos. “Estamos lidando com sistemas altamente eficientes em moldar comportamento. Ignorar isso distorce completamente o problema”, conclui.

TópicosAlgoritmoInstagramRedes sociais


Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por jorgemarin

Sair da versão mobile