Compartilhar matéria
Durante seu encarceramento na notória prisão de Evin, em Teerã, a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz Narges Mohammadi conseguia enviar clandestinamente fragmentos de seus escritos para fora da prisão com a ajuda de amigos e companheiras de detenção.
Os riscos eram enormes; Mohammadi, de 54 anos, sofreu espancamentos violentos, adoeceu gravemente e passou grande parte das últimas duas décadas na prisão — longe de seus filhos — devido ao seu ativismo contra o regime iraniano.
“Uma amiga minha tentava levar apenas três folhas de papel durante um dia de visita, mas as forças de segurança da prisão as confiscaram dela”, disse Mohammadi à jornalista Jomana Karadsheh, da CNN, na quarta-feira (16), em uma de suas primeiras entrevistas desde que foi libertada da prisão, em maio, sob licença médica temporária.
Em outra ocasião, mais de 20 de seus cadernos foram perdidos depois que ela, segundo seu relato, foi brutalmente espancada e transferida à força para outra prisão.
No entanto, ela continuou escrevendo, sem temer as consequências de se manifestar, e transformou esses fragmentos no livro de memórias “A Woman Never Stops Fighting”, que está sendo lançado este mês em alguns países europeus.
No livro, Mohammadi compartilha novos detalhes sobre os responsáveis pelos maus-tratos que sofreu na prisão.
“Para documentar essas coisas, é melhor falar abertamente sobre os métodos deles, expor e revelar a tortura que praticam”, disse ela, vestindo um vestido multicolorido com a palavra “paz” estampada em vários idiomas e sentada diante de um retrato de Mahsa Jhina Amini — morta após ser detida pela polícia da moralidade do Irã, o que desencadeou protestos em todo o país no outono de 2022.
Publicar um livro como esse é perigoso. “Pode haver consequências, mas é assim que é a vida para nós nesta região e neste país”, afirmou.
Ela também reconheceu o risco de represálias por falar com a CNN, mas disse não estar preocupada e que era seu “dever” se manifestar.
Para evitar colocá-la em risco adicional, a CNN concordou em concentrar a entrevista em seu novo livro de memórias e em suas experiências pessoais, em vez de abordar eventos recentes no Irã.
“Se eu pudesse voltar ao momento em que comecei a minha luta, a cada instante em que fui presa, mesmo sabendo o que aconteceria comigo, certamente faria a mesma escolha de iniciar a luta”, disse ela.
“Mas, quando olho para Ali e Kiana”, acrescentou ela, referindo-se aos seus filhos gêmeos, hoje com 19 anos, “vejo-me tomada pela dúvida. Será que eu realmente tinha o direito de privá-los de uma vida comum, de ter a mãe por perto? Essa é a parte difícil da questão, e não consigo respondê-la com certeza.”
Ao todo, Mohammadi — uma das mais proeminentes ativistas de direitos humanos do Irã — foi condenada a mais de 44 anos de prisão e a 154 chicotadas, segundo sua fundação.
Durante seu período mais recente de detenção, entre dezembro e maio, ela sofreu espancamentos e “maus-tratos que colocaram sua vida em risco”, afirmou o Comitê Nobel da Noruega em fevereiro, citando “relatos confiáveis”.
Esses relatos indicavam que ela foi espancada repetidamente com bastões de madeira e cassetetes durante sua prisão, em dezembro, e arrastada pelo chão pelos cabelos, sofrendo ferimentos que deixaram cortes abertos em sua cabeça.
Ela também recebeu chutes repetidos na região pélvica e genital, o que lhe causou dores intensas e a deixou incapaz de se sentar ou de realizar atividades normais, disse à CNN, em fevereiro, Jørgen Watne Frydnes, presidente do Comitê Nobel da Noruega.
“Fiquei em confinamento solitário por dois meses nessas mesmas condições, sem permissão para fazer ligações, ver minha família ou sequer meus advogados”, relembrou Mohammadi.
Ela sofreu um episódio com suspeita de ataque cardíaco em março, perdeu 20 quilos e seu estado de saúde se deteriorou a tal ponto que sua vida corria “perigo iminente”, alertou sua fundação em abril.
Após meses de negligência por parte das autoridades, ela foi hospitalizada por 18 dias, sofrendo de uma doença cardíaca causada por ansiedade e estresse crônicos, informou a fundação.
Na ocasião, a Tasnim, uma das agências de notícias estatais semioficiais do Irã, negou as informações de que seu estado de saúde havia piorado.
Por fim, Mohammadi recebeu alta e teve permissão temporária para retornar para casa.
Ela afirma que continua recebendo tratamento médico.
Manter prisioneiros em confinamento solitário é “uma das ferramentas do governo” para “destruir uma pessoa”, em vez de simplesmente executá-la, disse Mohammadi.
O objetivo é “quebrá-los psicológica, emocional e fisicamente; despojá-los de sua identidade e de sua humanidade, e distorcer e minar suas percepções”, afirmou ela.
Negar aos prisioneiros acesso oportuno a tratamento médico é “outro método que coloca gravemente em risco a sua saúde e, em alguns casos, leva à morte”, disse ela. “Essas mortes são uma forma de execução silenciosa.”
O governo iraniano e a mídia oficial minimizaram as denúncias de maus-tratos feitas por Mohammadi, apesar dos relatos de testemunhas oculares e da comoção pública internacional.
Apesar dos riscos associados à oposição ao regime, dois movimentos de protesto em grande escala abalaram o Irã nos últimos anos — um em janeiro e outro no outono de 2022, desencadeado pela morte de Amini, de 22 anos.
Ambos foram reprimidos violentamente pelas autoridades.
“Se você olhar para as ruas de Teerã, e até mesmo para cidades de todo o país, verá com que coragem as mulheres se mantêm firmes nas ruas”, disse Mohammadi.
“Por meio do movimento ‘Mulher, Vida, Liberdade’, conseguimos criar a força do manifestante e apresentá-la ao mundo; isto é, alguém que saía às ruas corria o risco de ser espancado, morto, preso e executado, mas possuía uma sensação de poder, uma sensação de legitimidade que forçava o governo a recuar.”
Para Mohammadi, que vive constantemente na dualidade entre as identidades de mãe e ativista, seu livro representa tanto uma homenagem àqueles que lutam pela democracia quanto as “palavras de uma mãe que escreveu esta obra na prisão”, enquanto seus filhos vivem longe, no exílio, na França.
“Ali e Kiana sempre foram a força que me trouxe de volta à vida e manteve viva a minha esperança”, disse ela. “Espero vê-los, abraçá-los e ver o quanto cresceram — ver se agora chego à altura dos ombros deles, ou se eles chegam à altura dos meus — e estar ao lado deles novamente.”
Esse conteúdo foi publicado originalmente emVer original
Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por laurasantana.
