Mais de um terço dos projetos apresentados em 2024 se sobrepõem

Por AgĂŞncia Brasil 14/08/2025 Ă s 09:27
Mais de um terço dos projetos apresentados em 2024 se sobrepõem


Logo AgĂŞncia Brasil

Em 2024, mais de um terço dos projetos de lei apresentados entraram em conflito ou duplicaram normas já existentes, o que demonstra que foram feitos sem atentar à necessidade de inovação legislativa e à articulação com políticas públicas vigentes, inclusive com decretos e outras regulamentações do Executivo. De 585 projetos de lei que têm relação com políticas públicas de saúde, 26% foram classificados como situações de contraposição e 11% como de sobreposição, conforme o estudo Radar Político da Saúde, apresentado pelo Instituto de Estudos para Políticas da Saúde (IEPS). 

O levantamento percebeu a sobreposição e a atribuiu a um conjunto de fatores: o esvaziamento do papel das comissões que avaliam as propostas; a falta de especialização dos gabinetes, que trabalham em diversos temas; e a ausência ou dificuldade de estabelecer diálogo com órgãos técnicos, como as assessorias de ministérios. Com esse conjunto de dificuldades, tende a crescer o número de proposições sem sentido, que se sobrepõem ou contrariam políticas públicas já implementadas, o que é considerado desperdício de tempo e de recursos públicos, sem integração com políticas consolidadas ou com a lógica de funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS), por exemplo.

NotĂ­cias relacionadas:

O estudo mostra ainda que 40% das propostas legislativas na área complementam políticas públicas existentes, mas não geram fortalecimento estrutural do SUS. Menos de 10% dos projetos em cada casa legislativa se dedicam a aprimoramentos estruturantes do sistema de saúde.

Esse tipo de conflito se dá nĂŁo apenas com matĂ©rias que tramitam na casa, mas muitas vezes com regras e normas infralegais, de ĂłrgĂŁos do Poder Executivo, como regras para autorização de medicamentos de alto custo ou programas que estĂŁo há anos ativos, regulados por decretos ou outras ferramentas diretas. “É louvável que queira se transformar em lei um programa que tem dado certo, que a gente viu que tem dado certo. Mas, Ă s vezes, esse processo engessa medidas que nĂŁo precisariam estar em leis. Quando vocĂŞ transforma uma medida em lei, vocĂŞ engessa o processo, faz com que essas normas fiquem mais morosas para se adaptar a novas evidĂŞncias que surgem”, explica JĂşlia Pereira, gerente de relações institucionais do IEPS.

O estudo defende ainda a visĂŁo de que o Congresso Nacional tem papel central nas polĂ­ticas pĂşblicas, porĂ©m deve desempenhar papel de protagonista no aprimoramento da saĂşde pĂşblica, e o excesso de proposta dificulta essa atuação. “AlĂ©m de os parlamentares atuarem como porta-vozes das demandas locais, em momentos cruciais, como durante a pandemia, Ă© imprescindĂ­vel que o Congresso seja ágil na aprovação de medidas essenciais para o enfrentamento de desafios, como, por exemplo, a criação de planos de emergĂŞncia, que visam a uma abordagem mais estruturada”, pondera Pereira, lembrando da importância da Casa ao aprovar a Lei 8.080, que criou o SUS, e medidas importantes em momentos cruciais, como a pandemia de covid 19. 

Condições específicas 

O levantamento tambĂ©m avaliou a quem se destinavam as propostas e identificou que apenas 19% dos projetos tĂŞm foco em populações especĂ­ficas, com baixa atenção a grupos historicamente negligenciados, como negros, indĂ­genas e mulheres. Apenas 249 das 1.314 proposições analisadas foram classificadas como voltadas a pĂşblicos especĂ­ficos. Delas, 38 tratam da saĂşde das mulheres (15%). Grupos como povos indĂ­genas, população em situação de rua e comunidades tradicionais seguem com presença residual, representando menos de 3% do total. A publicação concluiu que “a baixa prioridade legislativa para essas populações contrasta com as desigualdades estruturais que impactam diretamente suas condições de saĂşde”.

Bloqueador de anuncios detectado

Por favor, considere apoiar nosso trabalho desativando a extensĂŁo de AdBlock em seu navegador ao acessar nosso site. Isso nos ajuda a continuar oferecendo conteĂşdo de qualidade gratuitamente.