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Durante mais de um século, a competitividade na mineração foi determinada pela qualidade das reservas, pela eficiência logística, pela capacidade de investimento e pela escala operacional.
Esses fatores continuam relevantes. Mas deixaram de ser suficientes.
Em uma indústria na qual um ganho de apenas 1% de produtividade pode representar dezenas ou centenas de milhões de dólares em geração adicional de valor, a nova fronteira competitiva não está apenas no subsolo.
Ela está nos dados.
Não por acaso, a CNN Brasil escolheu discutir a “Nova Era da Mineração” em seu próximo CNN Talks. A escolha do tema reflete uma mudança estrutural que já vem transformando as maiores mineradoras do planeta: a vantagem competitiva do século XXI dependerá tanto da capacidade de transformar informação em produtividade quanto da capacidade de extrair minério.
A mineração está se tornando o principal laboratório brasileiro de infraestrutura inteligente.
O mesmo conjunto de tecnologias que transforma aeroportos, rodovias, portos, sistemas de saneamento, redes elétricas e operações logísticas encontra nas minas um ambiente singular para geração de resultados. Sensores monitoram ativos em tempo real. Algoritmos antecipam falhas. Sistemas de inteligência artificial identificam padrões invisíveis ao olhar humano. Centros integrados de operação coordenam equipamentos, ferrovias, portos e plantas industriais espalhados por centenas de quilômetros.
O que está em curso não é apenas uma transformação tecnológica.
É uma transformação econômica.
Durante décadas, produzir mais significava investir mais. Novas minas, novos caminhões, novas plantas industriais, novas estruturas logísticas.
Hoje, uma parcela crescente dos ganhos de competitividade nasce da capacidade de extrair mais valor dos ativos já existentes.
Estudos internacionais indicam que soluções avançadas de manutenção preditiva podem reduzir entre 15% e 20% as paradas não programadas de equipamentos críticos. Projetos de automação e analytics avançado têm reportado ganhos superiores a 20% em produtividade em determinadas operações e reduções de custos operacionais que podem superar 15% em processos específicos.
Em uma operação que movimenta bilhões de dólares por ano, pequenas melhorias geram impactos extraordinários.
É exatamente isso que as líderes globais do setor vêm demonstrando.
A Vale tem ampliado o uso de inteligência artificial, automação e centros integrados de operação para aumentar confiabilidade operacional, segurança e produtividade. A companhia já opera sistemas avançados de monitoramento de ativos, manutenção preditiva e integração operacional que conectam mina, ferrovia e porto em uma mesma arquitetura de decisão.
A Rio Tinto tornou-se referência global ao desenvolver, na Austrália Ocidental, uma das mais sofisticadas operações minerais do mundo. Seu sistema AutoHaul opera mais de 1.700 quilômetros de ferrovia automatizada e integra minas, trens e terminais portuários em uma estrutura altamente digitalizada, elevando previsibilidade e eficiência logística.
A BHP segue caminho semelhante. A companhia utiliza inteligência operacional, automação e análise avançada de dados para otimizar equipamentos, reduzir variabilidade operacional e ampliar retorno sobre ativos de grande escala.
Essas iniciativas apontam para uma tendência inequívoca: a principal inovação da mineração contemporânea não é a máquina.
É a inteligência que coordena a máquina.
A relevância dessa transformação ultrapassa o próprio setor mineral.
Poucas atividades econômicas ocupam posição tão estratégica na economia moderna. A mineração fornece os insumos que sustentam praticamente todas as cadeias produtivas relevantes do século XXI. O minério de ferro está na infraestrutura física. O cobre percorre redes elétricas e data centers. O níquel e o lítio impulsionam baterias e mobilidade elétrica. Os minerais críticos viabilizam a transição energética, a digitalização e a inteligência artificial.
Não existe infraestrutura moderna sem mineração.
Mas existe algo novo acontecendo.
Pela primeira vez, a mineração deixa de ser apenas fornecedora dos insumos que constroem a infraestrutura. Ela passa a liderar a incorporação das tecnologias que definirão a própria infraestrutura do futuro.
Talvez por isso a mineração esteja se tornando um dos setores mais observados por investidores globais.
Não apenas pelo tamanho de suas reservas ou pela demanda crescente por minerais estratégicos, mas pela capacidade de combinar ativos físicos de larga escala com inteligência digital, produtividade operacional, eficiência energética, segurança e geração sustentável de valor.
Durante décadas, a mineração ajudou a construir cidades, indústrias, ferrovias, portos e sistemas energéticos.
Agora, ela ajuda a construir algo ainda maior.
O modelo de infraestrutura inteligente que poderá orientar a competitividade brasileira nas próximas décadas.
E talvez resida aí sua característica mais singular.
Poucos setores conseguem multiplicar valor econômico de forma tão ampla. Cada ganho de produtividade na mineração se propaga para a construção civil, para a indústria, para a energia, para a logística, para a tecnologia e para a economia digital.
Ao aumentar sua própria eficiência, a mineração aumenta a eficiência de todo o sistema produtivo.
É por isso que compreender a transformação digital da mineração deixou de ser uma discussão setorial.
Passou a ser uma discussão sobre o futuro da competitividade do Brasil.
* Fabio Veras é conselheiro no Conselho Nacional de Proteção de Dados. Empresário e PhD pela UFMG, foi titular do Conselho Superior da Anatel.
Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por danielrittner



