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A Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) divulgou recentemente um estudo inédito que busca mapear o ensino superior em cerca de 150 países, cobrindo todos os continentes. Diferentemente dos relatórios anteriores — mais normativos ou conceituais —, o documento atual consolida dados comparáveis de dezenas de sistemas nacionais.
Batizada de Higher Education Global Trends Report, a análise expõe avanços notáveis, mas também impasses do setor em escala mundial. A grande questão em debate continua sendo: qual é, afinal, a função social da universidade no século 21? Além da formação profissional, a instituição é chamada a responder a crises globais complexas.
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Entre 2000 e 2024, o número de estudantes universitários saltou de 100 milhões para 269 milhões no mundo, mostra o levantamento. No entanto, essa expansão não veio acompanhada de redução das desigualdades entre regiões nem de maior permanência dos alunos até a conclusão dos cursos.
Em uma leitura crítica, publicada no Jornal da USP, a professora Carlota Boto, da Faculdade de Educação da USP, pontua que, embora o relatório reconheça o ensino superior como um bem comum, o texto não dá a real dimensão do significado desse direito à educação.
Um exemplo disso é o reconhecimento de que a expansão quantitativa das matrículas não garantiu igualdade de oportunidades de permanência nos cursos. Ou seja, se esse acesso ampliado não se traduz em trajetórias acadêmicas bem-sucedidas, há um descompasso evidente.
O que o relatório da Unesco diagnostica, mas não explica?
As cotas raciais e sociais são adotadas hoje por um terço das regiões pesquisadas pela Unesco • Freepik
O relatório é cirúrgico em identificar os sintomas: nos Estados Unidos, a taxa de escolarização no ensino superior chega a 80%, ante uma média mundial de 43%, enquanto na África subsaariana, apenas 9% da população alcança esse nível educacional. Mas falta, segundo a professora, a densidade da análise: por que isso acontece e o que isso revela sobre o direito à educação.
Por outro lado, há tópicos bem desenvolvidos, como o detalhamento dos modelos financeiros capazes de sustentar, de forma contínua, ensino, pesquisa e políticas de permanência nas universidades. Outro aspecto bem estudado é a crescente internacionalização: atualmente, mais de sete milhões de estudantes cursam o ensino superior fora de seus países de origem.
Tema historicamente polêmico, as cotas raciais e sociais são adotadas por apenas um terço das regiões pesquisadas pela Unesco. No Brasil, enfatiza Boto, essas políticas não comprometeram a qualidade do ensino, que se manteve estável mesmo com uma população universitária mais diversa.
Para a professora da USP, falta ao documento um recorte étnico-racial. Uma questão que ficou de fora da análise é: “Será que, em termos mundiais, os negros possuem o mesmo acesso e permanência nos sistemas de ensino superior em relação às pessoas brancas?”, indaga.
Além disso, ao usar Europa e EUA como referência “universal”, o relatório prioriza métricas ligadas à economia, inovação e empregabilidade. A projeção desse viés para o resto do mundo leva a professora da USP a advertir que “o papel das Humanidades parece aqui relegado a um não lugar”.
O que o relatório significa para a universidade pública brasileira?
Assunto do momento, o impacto da inteligência artificial no ensino superior também é abordado no relatório. Além da falta de protocolos éticos para o uso da tecnologia em sala de aula, chama a atenção a grande desigualdade no acesso à internet — 83% nas zonas urbanas contra 48% nas zonas rurais.
Focando especificamente na realidade brasileira, Boto aponta o financiamento como primeiro desafio. Para garantir que as universidades continuem sendo gratuitas e acessíveis a todos, é necessário assegurar uma fatia fixa do orçamento estatal, mesmo em cenários de restrição fiscal, como o observado hoje no Estado de São Paulo, afirma a pesquisadora.
Entre as demais condições necessárias para sustentar a democratização do acesso às universidades públicas brasileiras, estão: a permanência estudantil, bolsas de caráter social e de mérito acadêmico, auxílio-moradia e apoio à saúde mental.
Como proposta de adaptação da universidade às mudanças tecnológicas sem reduzir sua função formativa mais ampla, Boto sugere novos currículos e formas de avaliação diante “dos potenciais revolucionários trazidos pela inteligência artificial”, sem abrir mão da formação humanística.
“No limite”, conclui Boto, “a boa universidade é aquela que proporciona a seus estudantes o acesso a um legado cultural acumulado, mas é também a instituição debruçada sobre um compromisso social e a formação cidadã”.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por jorgemarin
