Olivia Rodrigo usa moda para contar a história de sua nova era

Por CNN Brasil 28/06/2026 às 06:32

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Nunca é fácil para astros do pop apresentarem uma nova fase da carreira. Se se apegar demais ao que já fizeram no passado, podem ouvir críticas pela falta de inovação. Se se distanciarem demais do que os fãs conhecem e esperam, correm o risco de perder a base que lhes deu projeção. No caso de Olivia Rodrigo, a nova era de “You Seem Pretty Sad for a Girl so in Love” se apoia principalmente — como ela canta no single de estreia, “Drop Dead” — em sua própria intuição feminina.

O terceiro álbum de estúdio da artista de 23 anos, lançado neste mês, inaugura talvez a fase mais empolgante de sua carreira até agora, na qual seu estilo e seu som amadurecem lado a lado.

O disco, com 13 faixas, acompanha o ciclo de um relacionamento, da euforia da paixão inicial até o impacto de implorar por carinho de um parceiro que antes era facilmente apaixonado.

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O álbum já garantiu a Rodrigo seu terceiro primeiro lugar consecutivo na parada Billboard 200. Ela manteve o embalo na segunda-feira ao anunciar o Daisy Chain Fields, um novo festival de música com line-up exclusivamente feminino — incluindo Chappell Roan, Doechii, Bikini Kill e Katseye —, cuja renda será destinada a organizações de defesa dos direitos das mulheres.

O evento é inspirado no Lilith Fair, o festival feminista pioneiro dos anos 1990 criado por Sarah McLachlan, que também fará uma participação especial, ao lado de Stevie Nicks e Karen O.

Os dois álbuns anteriores de Rodrigo, “Sour” (2021) e “Guts” (2023), já haviam sacudido a indústria musical. Faixas como “Drivers License” e “Vampire” mostraram seu talento ‘para compor baladas sobre términos, enquanto sucessos como “Good 4 U” e “Get Him Back” evidenciaram sua habilidade no punk rock dos anos 1990 — um universo musical que se tornou sua principal marca sonora.

Até agora, seu estilo refletia essa preferência, com minissaias xadrez e botas plataforma que remetiam a uma mistura entre Gwen Stefani e Cher Horowitz. As eras de Rodrigo também sempre tiveram paletas de cores bem definidas: os dois primeiros álbuns eram associados ao roxo vibrante, enquanto You Seem Pretty Sad migrou discretamente para um rosa-claro marcadamente feminino.

Se a função de um álbum de estreia é apresentar um artista ao mundo, e a do segundo é consolidar sua reputação, o terceiro oferece a oportunidade de expandir para além das fórmulas e características que o tornaram famoso.

No caso de Rodrigo, “You Seem Pretty Sad” praticamente abandona as referências ao pop punk e ao rock alternativo e, em vez disso, incorpora sonoridades que marcaram os anos 1980. Pense em New Order ou nos elementos pós-punk do The Cure (o vocalista da banda inglesa, Robert Smith, inclusive participa da faixa “What’s Wrong with Me”, lado B do álbum). Naturalmente, o guarda-roupa da cantora acompanhou essa mudança.

O uso cuidadoso da moda durante a divulgação de “You Seem Pretty Sad” faz mais do que permitir que Rodrigo experimente novos visuais — ele também funciona como uma ferramenta artística. Saem os sapatos Mary Jane da Dr. Martens e as saias xadrez de colegial. Trabalhando com a dupla de irmãs e stylists Chloe e Chenelle Delgadillo, Rodrigo reconstruiu seus looks característicos para que parecessem mais delicados e maduros, com produções inspiradas em referências de moda tão diversas quanto seu gosto musical.

Anatomia de uma nova era

O novo álbum “acaba incorporando um pouco da new wave dos anos 1980, mas o visual dela não segue exatamente essa estética”, afirmou a jornalista musical Brittany Spanos sobre a evolução do som e do estilo de Rodrigo. “Enquanto, nos dois ciclos anteriores de álbuns, ela buscava referências em visuais mais grunge dos anos 1990, desta vez ela expandiu isso para versões mais hiperfemininas dessa estética.”

Para construir a “paleta feminina” desta nova fase, Rodrigo apostou em uma combinação de vestidos retos inspirados na moda mod dos anos 1960, sapatilhas da Repetto — marca fundada na década de 1970 —, jeans no estilo dos anos 2000 combinados com sapatos peep toe e releituras contemporâneas da estética twee.

No videoclipe do primeiro single do álbum, “Drop Dead”, Rodrigo aparece com dois figurinos: uma réplica de um vestido de crochê usado por Jane Birkin no filme francês “Catherine & Co” (1975) e um conjunto de camisola rosa e azul da coleção pré-outono 2026 da Chloé — este último com um visual que poderia ter saído diretamente do figurino de Maria Antonieta, de Sofia Coppola.

“Acho que Olivia sabe trabalhar referências de uma forma mais profunda do que muitos astros do pop”, afirmou por e-mail Gabriella Karefa-Johnson, stylist e porta-voz de tendências do aplicativo de compras de moda Depop. (O Depop é um dos parceiros oficiais do festival Daisy Chain Fields, de Rodrigo.)

“Quando penso nas referências ao estilo boho, aos anos 2000 e a Jane Birkin, o que fica claro para mim é que não existe um único fio condutor estético. A referência é mais um estado de espírito e uma mensagem de libertação — todas essas estéticas remetem a mulheres em seus momentos mais livres e intensos. É disso que trata a música dela, então por que ela também não deveria se vestir dessa forma?”

O guarda-roupa recente de Rodrigo ajuda a construir o universo do álbum, mas seu novo estilo também não surgiu isoladamente. “Ela sabe como os jovens estão se vestindo hoje — afinal, ela é uma deles!”, afirmou Karefa-Johnson.

Somente nos últimos três meses, as buscas por vestidos babydoll aumentaram 144% no Depop, enquanto as pesquisas por jeans de cintura baixa dos anos 2000 cresceram 102%, e por sapatos peep toe, 108%, segundo a plataforma. Outras tendências queridas por Rodrigo, como a moda mod vintage e o indie sleaze, também estão em alta no site.

Mas a relação entre as escolhas de figurino da cantora e as tendências de moda deste ano é simbiótica.

“Não dá para contar a história da música popular sem contar a história da moda”, disse Spanos. “As duas estão completamente entrelaçadas. Artistas, gêneros musicais e fases da carreira sempre influenciaram e moldaram tendências de moda, e o contrário também acontece.”

Por que as referências de moda importam

Foi então que o vestido babydoll virou o elefante na sala.

Pouco depois de Rodrigo lançar o primeiro single de seu novo álbum, a cantora se viu no centro de uma tempestade midiática. Um vestido babydoll de mangas bufantes que ela usou durante um show promovido pelo Spotify em Barcelona levou algumas pessoas nas redes sociais a acusá-la de promover uma estética infantilizada e hipersexualizada.

A indignação pública em relação à forma como uma estrela pop se veste, no entanto, existe muito antes de Rodrigo se tornar um nome conhecido. Nas últimas décadas, artistas como Miley Cyrus, Britney Spears e Christina Aguilera enfrentaram reações semelhantes.

Rodrigo rebateu as críticas em entrevista ao The New York Times, em maio. Segundo ela, o figurino fazia referência às “heroínas” do movimento feminista riot grrrl, Kathleen Hanna e Courtney Love. “Você não deveria ser responsabilizada por algum homem sexualizar você de uma maneira que nunca foi sua intenção”, afirmou.

“Acho que parte da confusão veio de uma sensação de desconexão entre o som e o visual”, disse Spanos, que escreveu sobre a controvérsia em um artigo para a revista The Cut. Embora o tom e os temas de “You Seem Pretty Sad” não reproduzam exatamente os comentários sociais presentes na discografia das heroínas riot grrrl de Rodrigo, o vestido babydoll ainda desempenha um papel importante na maneira como ela deseja representar este novo capítulo da carreira.

“Existe uma suavidade e uma vulnerabilidade”, afirmou Spanos sobre o novo álbum de Rodrigo, que a levaram a “abraçar silhuetas e estruturas femininas que também têm um pouco de ousadia”.

A crítica musical independente Molly Mary O’Brien observou que o período entre o início e a metade dos anos 1990 — que deu origem à primeira onda da moda pop punk — e o momento atual, em que Rodrigo constrói sua carreira, são muito diferentes.

“Temos uma longa trajetória de mulheres na música subvertendo expectativas sexuais ou, simplesmente, expectativas relacionadas à feminilidade”, disse O’Brien.

“De certa forma, é quase um símbolo do quanto as mulheres na indústria da música avançaram. Nos anos 1990, o grunge era um movimento alternativo que acabou se tornando popular. Acho que Rodrigo talvez esteja sinalizando isso por meio de suas roupas… Existe esse movimento constante entre o alternativo e o mainstream, e ela parece estar tentando equilibrar essas duas coisas.”

A forma como celebridades utilizam referências de moda em seus figurinos não acontece por acaso, afirmou Karefa-Johnson.

“Precisamos pensar de forma crítica e compreender a complexidade que existe por trás da superfície visual de uma tendência ou de uma referência”, acrescentou. “As referências de moda mais interessantes usam a história como ponto de partida — elas criam atrito ao colocar o futuro em contato com o passado. Uma referência não deve servir como um modelo a ser copiado, mas como um ponto de partida para explorar algo novo.”

Uma era de experimentação

Rodrigo segue os passos de outras gigantes do pop que usam referências visuais em seus figurinos para sugerir novas fases da carreira. Embora Taylor Swift frequentemente receba o crédito por popularizar o conceito de “eras”, artistas vêm utilizando a estética para comunicar e promover novos ciclos de álbuns há décadas — basta lembrar de Beyoncé, Madonna, David Bowie e dos Beatles.

O próprio gênero pop também oferece aos artistas espaço para experimentar, afirmou O’Brien, acrescentando que o público de hoje já está bastante familiarizado com a ideia de “eras” e entende que os artistas passam por várias delas ao longo da carreira.

“Quanto mais fácil é descrever alguma coisa, mais fácil é vendê-la”, disse O’Brien. “Os Estados Unidos adoram uma estrela pop adolescente e, depois, adoram destruí-la assim que ela demonstra qualquer sinal de autonomia ou independência… Os tempos mudam, mas continua existindo esse impulso de questionar a integridade de jovens artistas mulheres.”

No fim das contas, a dicotomia entre a estrela pop que desfila por Versalhes usando uma camisola transparente e a artista que pisa no palco com coturnos até os joelhos parece completamente autêntica e intencional. Assim como as duas metades de You Seem Pretty Sad, o guarda-roupa de Rodrigo explora a tênue fronteira entre se apaixonar e ter o coração partido.

Esse conteúdo foi publicado originalmente emInternacionalVer original TópicosModaOlivia Rodrigo


Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por flavioismerim

Conteúdo Original / Fonte: flavioismerim

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