Petróleo: Salto com tensão entre EUA e Irã coloca mercado em cautela

Por CNN Brasil 12/07/2026 às 01:56

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Prevalecia no mercado, nas últimas semanas, uma narrativa de normalização do cenário no Oriente Médio.

Com um cessar-fogo estabelecido e um acordo de paz sendo costurado entre Estados Unidos e Irã, o fluxo de mercadorias vinha sendo retomado no Estreito de Ormuz e, consequentemente, o preço do petróleo recuou.

Porém, com o andar, perdeu-se o controle da carruagem. Os EUA e o Irã voltaram a se atacar, e o governo norte-americano revogou a licença de venda de petróleo iraniano.

No sábado (11), a IRGC (Guarda Revolucionária Islâmica do Irã) fechou o Estreito de Ormuz após disparar um tiro de advertência contra uma embarcação que tentava utilizar uma rota não autorizada para atravessar a via marítima.

O barril do tipo Brent – referência internacional negociada na ICE (International Commodities Exchange) – subiu nos pregões de terça-feira (7) e quarta-feira (8), avançando ao maior patamar desde 22 de junho.

Contudo, logo em seguida, recuou na quinta-feira (9), devolvendo parte dos ganhos da véspera, com o mercado buscando calcular de fato os impactos dos ataques.

Na sexta-feira (10), também fechou o dia em queda, contudo, o movimento não foi suficiente para devolver a alta acumulada de 5,39% da semana.

Ainda assim, a retomada das agressões vem contra o otimismo que vinha se construindo, mas não era totalmente inesperada, apontam analistas ouvidos pela reportagem.

“A gente já vinha acompanhando como nessa guerra, durante o conflito, houve muitas mudanças de posição dos Estados Unidos e do Irã. Então já se esperava que fossem ocorrer situações como essa. Talvez a veemência com que foi declarado o fim do cessar-fogo possa ter surpreendido um pouco”, diz Adriano Birle, economista responsável pelas análises de combustíveis e resinas plásticas da GEP Brasil.

Ainda assim, Birle destaca que é cedo pra dizer que as expectativas do mercado mudaram completamente.

Esperar para ver

Os analistas consultados pelo CNN Money são unânimes ao descrever o momento como de cautela. Eles indicam que tudo vai depender da duração do conflito, e que uma agressão pontual não deve gerar mudanças estruturais nos cenários.

“O ponto de atenção é não extrapolar um dia de pânico para uma tendência. O cessar-fogo entre EUA e Irã é frágil, mas existe, e o mercado já mostrou nesse ciclo que devolve prêmio de risco tão rápido quanto embute. Um Brent subindo quase 6% no dia com o S&P caindo menos de 1% sugere que, por ora, o choque está concentrado em energia e não virou aversão a risco generalizada”, pondera Daniel Borges, CEO da Route Investimentos.

“O que muda a fotografia de verdade é o Irã ameaçar fechar Ormuz de fato ou uma interrupção prolongada de fluxo. Até lá, o cenário base é volatilidade alta, e não necessariamente petróleo estruturalmente mais caro”, pontua.

Adriano Birle ressalta que, no momento, o quadro é de aumento do prêmio de risco no curto prazo, mas não necessariamente ainda uma reversão.

“E pra dizer que haveria uma reversão seria necessário aguardar os próximos desdobramentos dessa situação”, enfatiza.

O problema indicado é que, exatamente por conta dessa volatilidade geopolítica e fragilidade da relação diplomática, o “cenário é muito nebuloso para os próximos meses”, segundo Bruno Cordeiro, analista de inteligência de mercado da Stonex.

Questionado sobre as projeções para preços do petróleo, Cordeiro avalia que a estimativa pode ficar “um pouco desatualizada” com os novos desdobramentos no Oriente Médio.

Porém, o mercado não deve sair em disparada às revisões. O momento é de “observar como a situação vai se desenvolver ao longo dos próximos dias, para ter uma noção melhor de como o conlfito no Golfo Pérsico vai seguir influenciando as cotações”, pontua o analista da StoneX.

Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, reconhece que, no calor do momento, “de fato as bolsas sofreram”.

Mas ressalta que este “pode ser um evento pontual” e que é necessário acompanhar os próximos dias “para saber o que vai acontecer”.

“Precisamos compreender qual vai ser o novo nível do petróleo, se vai continuar a tendência de normalização com a retomada dos fluxos”, pondera.

“Um outro cenário, com risco de calda, vai ser o teste de resiliência do acordo. Porque, no fundo, no nosso cenário, já imaginávamos que poderia ocorrer alguns episódios como esse. Nos últimos três meses vimos acordos falharem por falta de garantia e volatilidade política. Aí, se continuar, reabre os prêmios de risco, a Bolsa pode ser prejudicada, o petróleo fica mais alto e dificulta o trabalho dos bancos centrais.”

Ainda assim, Sung acredita que “as projeções do mercado continuam válidas”, uma vez que o cenário “é incerto” e que é necessário “esperar o que vai ocorrer desses últimos eventos”.

“Se tiver uma escalada, manutenção do conflito, o preço do petróleo voltando a US$ 85, aí as revisões serão feitas e o cenário pré-acordo pode voltar. Até lá, tem um caminho a ser percorrido”, conclui o economista-chefe da Suno.

Combustíveis e perspectivas para o Brasil

No curto prazo, o mercado incorpora um prêmio de risco ao preço do petróleo e os contratos futuros sobem, relembra Carlos Eduardo Silva, diretor da Excel, empresa líder em gerenciamento de combustível e gestão de frotas.

“O mercado reage muito rapidamente a eventos geopolíticos, precificando expectativas antes mesmo de ocorrer qualquer redução física na oferta”, explica.

Entretanto, até essa nova alta ser sentida na bomba de gasolina e no bolso do consumidor, é necessária uma alta mais duradoura do petróleo, e para isso, é necessário que os conflitos comprometam efetivamente a produção, a infraestrutura petrolífera ou a logística de exportação.

“Se os episódios permanecerem localizados e não afetarem esses elementos, parte dessa alta tende a representar apenas um prêmio temporário de risco, que pode ser revertido conforme o cenário evolua”, indaga o diretor da Excel.

“O ponto de maior atenção continua sendo a possibilidade de interrupções logísticas, especialmente em corredores estratégicos como o Estreito de Ormuz, por onde passa uma parcela relevante do petróleo comercializado globalmente.”

E caso o choque de fato se estenda e efeitos concretos voltem a ser sentidos, os analistas apontam que o Brasil está preparado.

Um dos motivos são os subsídios dados pelo governo para a comercialização de combustíveis: antes mesmo que o impacto fosse registrado, com a nova alta do petróleo, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, informou na quinta-feira que desistiu de retirar o benefício de R$ 0,44 por litro da gasolina.

Em relação ao suprimento, importadores brasileiros devem continuar acessando normalmente ofertas de combustíveis de fornecedores como Estados Unidos e Europa, mesmo com a possibilidade de preços mais altos, aponta Maria Albuquerque, responsável por precificação de diesel na Argus.

“Mesmo durante a guerra e a possibilidade de restrição global de oferta, não houve crise de abastecimento no Brasil. […] O consumidor brasileiro tem a opção de recorrer ao etanol, que pode se tornar mais vantajoso em um momento de oferta ampla, e tornar a gasolina menos atrativa”, afirma Albuquerque.

Ainda assim, a especialista aponta que foram observados “gargalos pontuais” em algumas regiões do país, influenciados, entre outros fatores, por questões logísticas devido a mudanças na dinâmica do mercado interno após o início do conflito.

Outro ponto de atenção que levanta é no caso do diesel, cuja demanda é diretamente influenciada pelo andamento das safras agrícolas: “então há menos espaço para redução do consumo”, pontua.

Desse modo, apesar de o Brasil estar em uma posição mais favorável do que em crises anteriores também por ser um importante produtor de petróleo, “isso não significa imunidade”, segundo Carlos Eduardo Silva.

“Os preços domésticos continuam influenciados pelo mercado internacional, pelo câmbio e pelas decisões comerciais das distribuidoras e da Petrobras. Além disso, uma alta prolongada do petróleo pressiona custos logísticos, transporte de cargas, fretes e, consequentemente, diversos setores da economia”, elenca.

“A maior preparação hoje está na capacidade de produção nacional, mas a economia brasileira ainda permanece exposta às oscilações do mercado global de energia”, finaliza. A ver.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por joaonakamura.

Conteúdo Original / Fonte: joaonakamura

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