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No consultório do psicoterapeuta, ocorre frequentemente que alguns pacientes que tragam situações nas quais estão ligados ao passado de uma forma que passam quase a viver nesse outro tempo. Dessa forma, o presente deixa de ter o seu lugar e perde sua força e intensidade, e novas decisões e vinculações quase deixam de acontecer.
Essas pessoas, que têm esse forte apego ao passado ou a uma fase específica, muitas vezes estão ligadas a um amor do passado (relação com pais que não ficou resolvida). Em muitos casos, esse amor nem existiu ou não teve a grandiosidade que a fixação quase patológica faz com que a pessoa, acorrentada ao passado, realmente acredite na força da fantasia, que passa a uma idealização.
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Quando se amplia a investigação na história de vida e na estrutura psicológica, é possível adentrar em algumas hipóteses de que muito desse amor (idealizado) era fruto de uma necessidade de manter uma história, às vezes mítica, que dê um sentido, mesmo que em nível de fantasia, na vida dessa pessoa.
Quais seriam os mecanismos psicológicos que fazem com que certas pessoas fiquem fixadas e paralisadas em um outro lugar de sua história? E por que esse passado representa algo tão forte que leva os indivíduos a uma enorme paralisação?
Revisitando a teoria psicanalítica
Alguns estudos da Teoria do Apego, desenvolvida por John Bowlby, mostram o quanto o desenvolvimento do vínculo afetivo do bebê e seus cuidadores é um fator preponderante para ajudar no desenvolvimento das necessidades biológicas e emocionais. Na sua teoria, ele afirma que todo indivíduo nasce com a capacidade de ter um sistema de apego. Quando a criança pode ter essa troca com quem cuida dela, em relação às suas necessidades, passa a ocorrer um desenvolvimento seguro, o que leva a criança a buscar vincular-se e a repetir essa experiência, que foi fundamental para o seu desenvolvimento saudável.
Quando isso não ocorre, a criança passa a viver um desenvolvimento de insegurança, medos, grandes dificuldades e conflitos nas futuras relações. Os estudos apontam que esse apego excessivo ao passado pode ser caracterizado por pessoas que se sentem inseguras e precisam garantir algo que, supostamente, foi muito bom. No nosso desenvolvimento, pode ocorrer um receio de vivermos novas situações – pela dor, pelo medo e pela insegurança de antigas experiências. Algumas pessoas recorrem ao passado na tentativa de ficarem com algo que já conhecem e que passou por um processo de idealização e transformação.
Esse apego ao passado pode funcionar como uma barreira de proteção contra a dor, levando a um evitamento de novas vinculações. A necessidade de se viver no passado parece dar uma capa de proteção, para que mesmo memórias dolorosas possam ser transformadas em situações boas. Em muitos casos, algo que foi tão doloroso (uma relação com os pais ou amorosa) passa a ocupar um lugar tão forte que a pessoa não consegue manter e criar um novo amor (o trabalho de terapia pode dar uma nova ressignificação).
Esse também é um mecanismo encontrado na melancolia, quando não se consegue fazer o luto daquilo que não existe mais. Segundo Winnicott, as primeiras relações de objeto entre a criança e quem cuida dela serão determinantes para que futuros relacionamentos saudáveis possam ocorrer. Muitos pacientes com dificuldades narcísicas, que não puderam ter essa relação de afeto e amor com seus pais, podem tornar-se compulsivos por afetos, recorrendo a vivências de idealização.
Um exemplo clínico
Rachel veio em busca de terapia, trazendo a questão de que seu casamento fora maravilhoso e não conseguia aceitar por que seu marido não queria mais continuar esse casamento de conto de fadas. Ela tinha 60 anos e tinha deixado seu trabalho como advogada para se dedicar a essa vida que sempre sonhara. À medida que a análise avançava, foi possível perceber outras nuances desse casamento.
O marido, oriundo de uma tradicional família paulista, era a possibilidade que ela sempre almejara de sair de uma vida simples e de pais que haviam emigrado para o Brasil depois da Segunda Guerra. Segundo Rachel, esse marido era o príncipe de seus sonhos, embora a terapia mostrasse bem o contrário em relação ao caráter dele. Além de ser uma relação com níveis de crueldade, ele tinha traços que repetiam a forma como seu pai sempre tratara as mulheres da família.
Unidos pelo ódio
Algumas relações conjugais, mantidas pelo desamor e pela indiferença, vão destruindo a possibilidade de uma troca afetiva. As longas esperas por melhorar a relação e voltar a ser o paraíso perdido – e voltar a ser aquilo que sonhamos. Qual seria a resposta?
O trabalho terapêutico ensina que o ódio pode nutrir as relações perversas (amor de destruição). Amores idealizados por fantasias que impossibilitam viver as dores de um conflito e, por vezes, um rompimento. A possibilidade de se deparar sem as máscaras que dão uma falsa proteção, assim como perceber que, antes de as pessoas se verem numa pseudo conjugalidade, cada um é único e dotado de possibilidades e enfrentamentos.
Talvez uma das saídas desses pactos perversos e vivências em um passado que há muito deixou de existir seja a coragem de poder se sentir frágil e encarar a necessidade de romper com fantasias destrutivas.
*Texto escrito pela psicóloga Dorli Kamkhagi (CRP: 15511), head de Psicologia da Brazil Health
TópicosmemóriaPsicologia
Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por nathalieayres
