Por que muitas mulheres no Brasil querem parto normal, mas fazem cesárea?

Por CNN Brasil 13/07/2026 às 03:56

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Um estudo inédito do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infãncia), divulgado nesta segunda-feira (13), analisou as barreiras que mulheres enfrentam na decisão pelo parto normal, em um país onde a cesariana é a forma de nascimento mais comum, ainda que 7 a cada 10 brasileiras prefiram a via natural no começo da gravidez, segundo dados da FioCruz (Fundação Oswaldo Cruz).

De acordo com a pesquisa, alguns dos fatores que influenciam para que mulheres que desejam ter parto normal tenham cesáreas sem indicação médica são: orientações superficiais sobre o parto, falta de participação do parceiro, desconhecimento sobre o Plano de Parto e o acesso restrito à analgesicos.

Intitulado “Já decidiu sobre o parto? Influências e barreiras na decisão da via de nascimento entre gestantes”, o estudo mostra que a decisão sobre o parto depende não só de fatores psicológicos e individuais da mulher, mas também de fatores sociais e estruturais.

“O nosso desafio não é ‘convencer’ as mulheres, mas garantir as condições para que elas possam fazer escolhas informadas e viver um parto seguro e respeitoso. E ter informação confiável, atendimento de saúde qualificado, acesso aos direitos e uma rede de apoio adequada faz toda a diferença para que isso aconteça. Quando promovemos um parto respeitoso, estamos protegendo não apenas os direitos das mulheres, mas também os direitos de cada criança a um início de vida mais seguro e saudável”, explica Luciana Phebo, chefe de Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil.

O estudo combinou revisão da literatura científica e entrevistas com mais de 130 gestantes, puérperas e profissionais de saúde em Belém, no Pará, e São Paulo, tanto na rede pública quanto na rede privada. A pesquisa buscou compreender os fatores que influenciam a decisão sobre a via de nascimento, sem constituir uma amostra estatística nacional.

O que dificulta o acesso ao parto normal?

Segundo o Unicef, foi identificado como as pessoas ao redor da gestante influenciam a decisão sobre o parto. Enquanto as experiências pessoais de mães, avós, tias e sogras têm muito impacto sobre as preferências das gestantes, especialmente entre pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde), os parceiros também possuem um papel importante.

Quando participam pouco do pré-natal, os acompanhantes podem ter mais dificuldade para compreender o processo do parto e acabar pressionando pela cesariana ao presenciarem o momento do trabalho de parto, de acordo com a pesquisa.

Já ao analisar aspectos estruturais, conectados às políticas e à condição dos serviços, a pesquisa mostra que a falta de acesso à analgesia, por exemplo, pode fazer com que algumas mulheres vejam a cesariana como a única alternativa para lidar com a dor. O desejo por uma laqueadura também pode favorecer cesarianas sem indicação clínica – especialmente diante da baixa oferta de métodos contraceptivos que possam ser associados ao parto normal.

A análise também identificou que, especialmente no setor privado, fatores institucionais e econômicos podem desencorajar a oferta do parto normal. Profissionais de saúde apontaram aos pesquisadores que a organização do trabalho médico, a previsibilidade do agendamento de cesarianas e custos associados à contratação de equipes para acompanhar longos trabalhos de parto podem funcionar como incentivos às cesarianas, mesmo sem indicação clínica.

O estudo ainda aponta os fatores que podem facilitar o acesso ao parto normal. Algumas experiências mostraram potencial para fortalecer escolhas mais informadas e ampliar a autonomia das mulheres durante a gestação e o nascimento: 

  • Experiências como Centros de Parto Normal;
  • Maior participação de doulas, obstetrizes e enfermeiras obstetras
  • Programas de incentivo ao pré-natal
  • Uso do Plano de Parto.

A expansão do acesso à analgesia e aos métodos não medicamentosos para controle da dor na rede pública de saúde também pode contribuir para diminuir a preferência pela cesárea sem indicação.

A participação ativa do parceiro antes e durante o parto é outro fator que pode fortalecer a decisão da mulher e contribuir para partos mais seguros, assim como o compartilhamento de relatos com mulheres na rede de apoio – em especial mães e avós, mas também amigas ou referências comunitárias.

Recomendações do Unicef

O órgão da ONU recomenda que poder público, rede privada de saúde e profissionais de saúde atuem juntos para que as mulheres tenham as condições de escolher o melhor tipo de parto para si e para a criança. Para isso, é preciso atuar em todos os níveis para:

  • Qualificar o pré-natal com informações claras sobre fases do trabalho de parto, manejo da dor, Plano de Parto, direitos, analgesia e métodos não farmacológicos para alívio da dor, e planejamento reprodutivo, incluindo orientação sobre laqueadura após parto vaginal e métodos contraceptivos reversíveis de longa duração;
  • Incluir parceiros e acompanhantes nas orientações sobre trabalho de parto; ampliar a atuação de doulas como apoio físico, emocional e informacional.
  • Mobilizar mães, avós, sogras, parteiras e referências locais como aliadas do cuidado, e fortalecer conteúdos confiáveis nos espaços digitais onde gestantes buscam informação;
  • Ampliar as políticas públicas para apoiar mães antes, durante e depois do parto;
  • Revisar modelos que favorecem a cesariana sem indicação médica, com decisões baseadas em evidências; incluir capacitação sobre direitos, desigualdades e cuidado respeitoso na formação de profissionais de saúde; criar modelos de financiamento e remuneração que não incentivem cesarianas sem indicação clínica; e monitorar indicadores de saúde materna e neonatal com transparência.

Metodologia

A pesquisa em Belém e São Paulo ouviu 94 gestantes e puérperas — 73 do SUS e 21 do setor privado, por meio de 11 grupos focais e 41 entrevistas individuais —, além de 37 profissionais de saúde, incluindo gestores, médicos e enfermeiros de Unidades Básicas de Saúde, hospitais públicos e serviços privados.

Ao todo, foram 131 pessoas ouvidas, além da revisão de 77 artigos científicos e de documentos institucionais sobre parto humanizado nos níveis federal, estadual e municipal. O estudo organiza seus achados em três níveis, de acordo com uma metodologia do Unicef para atuar com mudança social e de comportamento (SBC, na sigla em inglês): psicológico, sociológico e estrutural.

Junto com a pesquisa, realizada com apoio financeiro da farmacêutica MSD, por meio de sua iniciativa global MSD para Mães, o Unicef lançou a campanha “Parto normal. Uma escolha que merece respeito”. O órgão convida gestantes, famílias, redes de apoio e profissionais de saúde a refletirem sobre como opiniões podem pressionar as mulheres, mesmo não sendo um substituto para informações de qualidade.


Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por Rafael Saldanha.

Conteúdo Original / Fonte: Rafael Saldanha

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