Com 8,9 mil quilĂ´metros quadrados (km²), o equivalente a um Distrito Federal (DF) e meio, a ilha de Porto Rico, terra natal do cantor Bad Bunny, tem status polĂtico ambĂguo.

Oficialmente, Ă© um territĂłrio que pertence aos Estados Unidos (EUA) no meio do Caribe com cerca de 3,2 milhões de habitantes onde predominam o idioma espanhol e a cultura latino-americana. Â
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Apesar dos porto-riquenhos terem livre trânsito nos EUA e poderem eleger o governador da ilha, Porto Rico não é um estado dos EUA. Por isso, os eleitores não podem votar para presidente e não têm representantes, com direito a voto, no Congresso estadunidense.
Ao mesmo tempo, Porto Rico tem que se submeter as leis federais do paĂs da AmĂ©rica do Norte, os habitantes servem Ă s Forças Armadas dos EUA e a nação abriga bases militares de Washington, mas nĂŁo participa das relações internacionais.
Essa situação faz com que especialistas e movimentos polĂticos considerem a ilha uma colĂ´nia de Washington, e nĂŁo um “Estado livre associado”, termo utilizado oficialmente para se referir a situação jurĂdico-polĂtica do territĂłrio latino que Ă© parte dos EUA.
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Para as Nações Unidas (ONU), a autonomia administrativa impede classificar Porto Rico como colĂ´nia clássica, conforme explicou Ă AgĂŞncia Brasil o professor de relações internacionais da Universidade CatĂłlica de BrasĂlia (UCB), Gustavo Menon.
O especialista em América Latina, por outro lado, avalia que a ilha caribenha, apesar de ter alguns mecanismos de governo autônomo, segue subordinado às decisões de Washington sem ter todos os direitos dos demais moradores dos EUA. Gustavo Menon explica que é uma espécie de colônia dos EUA, apesar de uma soberania administrativa restrita.
“Os porto-riquenhos nĂŁo votam para presidente, nĂŁo tĂŞm representação polĂtica no Congresso dos EUA, mas estĂŁo sujeitos Ă s leis federais e decisões de Washington, sendo frequentemente descrito como uma verdadeira colĂ´nia. É um resquĂcio neocolonial que persiste nessa primeira metade do sĂ©culo 21”, concluiu o especialista.
Bad Bunny no Super Bowl
Nesse domingo (9), Bad Bunny, um dos artistas mais conhecidos do mundo, fez o show do intervalo do Super Bowl em SĂŁo Francisco, nos EUA, em um show cantado em espanhol pela primeira vez nesse tipo de evento. Na apresentação, o cantor enalteceu as culturas latino-americanas dos imigrantes.Â
O Super Bowl Ă© o jogo anual do principal campeonato de futebol americano dos EUA. A partida costuma ter a maior audiĂŞncia da televisĂŁo do paĂs, com dezenas de milhões de espectadores.
Conhecido crĂtico da polĂtica anti-imigração do presidente dos EUA, Donald Trump, o porto-riquenho Bad Bunny usou no show o slogan Deus abençoe a AmĂ©rica, que está inscrito nos dĂłlares estadunidenses, para, logo em seguida, citar o nome de todos os paĂses latino-americanos, pedindo assim que a benção seja para todas as nações americanas. Â
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Bandeiras de Porto Rico, Cuba, Brasil, Venezuela e todos os paĂses das AmĂ©ricas tremularam no estádio ao lado da bandeira dos EUA. A apresentação de Bad Bunny irritou o presidente Donaldo Trump, que classificou a apresentação como “absolutamente terrĂvel”.
“Não faz sentido nenhum, é uma afronta à grandeza da América e não representa nossos padrões de sucesso, criatividade ou excelência. Ninguém entende uma palavra do que esse cara está dizendo, e a dança é repugnante”, afirmou Trump, em uma rede social.
Porto Rico e HavaĂ
O canto de Bad Bunny tem se notabilizado pela defesa da cultura latina de Porto Rico e a denĂşncia da influĂŞncia dos EUA na ilha. Em canção que tocou no show do Super Bowl, Bad Bunny cita o exemplo do HavaĂ, que virou um estado dos EUA, mas que teria perdido a identidade indĂgena original.
“Eles querem tirar meu rio e minha praia tambĂ©m. Eles querem meu bairro e que a vovĂł vá embora. NĂŁo, nĂŁo solte a bandeira nem se esqueça do lelolai [tĂ©cnica de canto presente na mĂşsica folclĂłrica de Porto Rico]. Porque eu nĂŁo quero que façam com vocĂŞs o que aconteceu com o HavaĂ”, diz a letra do cantor porto-riquenho.
De colĂ´nia espanhola Ă territĂłrio dos EUA
Com a decadĂŞncia do ImpĂ©rio Espanhol e as guerras de independĂŞncias dos paĂses latino-americanos ao longo do sĂ©culo 19, o governo de Madri chegou ao final daquele sĂ©culo com apenas Cuba e Porto Rico como colĂ´nias na AmĂ©rica Latina.
Ao mesmo tempo, os EUA surgiam como nova potĂŞncia global. A guerra hispano-americana, entre EUA e Espanha, em 1898, expulsou os espanhĂłis dos Ăşltimos territĂłrios que controlavam no continente.
Com isso, Porto Rico, Cuba e Filipinas se tornaram colĂ´nias dos EUA. Em 1917, os porto-riquenhos tornaram-se cidadĂŁos estadunidenses. Em 1952, a ilha Porto Rico ganha um novo status polĂticos ao se tornar Estado Livre Associado, ganhando autonomia administrativa interna.
O professor Gustavo Menon acrescentou Ă AgĂŞncia Brasil que, para a elite polĂtica de Washington, o territĂłrio Ă© um “protetorado” dos EUA. Ele lembra que Porto Rico nunca foi independente e avalia que Bad Bunny exerce uma espĂ©cie de soft power, termo usado para se referir a uma influĂŞncia polĂtica “branda”, geralmente no campo simbĂłlico.
“É por isso que, nessas representações artĂsticas, do ponto de vista do soft power, há uma tentativa de Porto Rico de se associar Ă s mais de 30 nações latino-americanas. Cada vez mais Porto Rico vem sendo uma pedra no sapato para o governo de Donald Trump”, completou.
Posição da ONU
A Ilha de Porto Rico não está atualmente na lista de “Territórios Não Autônomos” da ONU, o que significa que a Assembleia Geral da ONU e o direito internacional não consideram o território uma colônia formal desde 1952, quando foi declarado “Estado Livre Associado”.
Ao todo, a ONU reconhece 17 colĂ´nias, muitas no Caribe, como Bermuda, Ilhas Virgens Britânicas e Ilhas Cayman, sob controle do Reino Unido, alĂ©m das Malvinas (Ilhas Falkland) que tambĂ©m está sob controle de Londres, mas Ă© reclamado pela Argentina.Â
Por outro lado, o ComitĂŞ Especial sobre Descolonização da ONU, ĂłrgĂŁo independente da ONU, vem classificando Porto Rico como um caso de “situação colonial”. O relator especial do ComitĂŞ Koussay Aldahhak, em relatĂłrio publicado em março de 2025, afirma que a dominação colonial Ă© exercida por meio da imposição de uma estrutura de governo civil sob leis adotadas nos EUA.Â
“A dominação tem sido exercida e continua a ser exercida atravĂ©s da subordinação Ă s disposições da Constituição dos Estados Unidos. O chamado autogoverno do Estado Livre Associado, incluindo os processos eleitorais, Ă© controlado pelas disposições da Constituição dos Estados Unidos e pelas decisões tomadas pelo Congresso dos Estados Unidos no exercĂcio da soberania sobre Porto Rico”, explicou o especialista da ONU.
Ainda segundo Aldahhak, o estabelecimento do governo constitucional em Porto Rico nos anos 1950 manteve a autoridade dos EUA sob a ilha caribenha.
“O Congresso dos EUA detém plenos poderes sobre Porto Rico, inclusive nas áreas de defesa, relações internacionais, comércio exterior, assuntos monetários e outros, enquanto a ilha detém autoridade local sobre um número limitado de áreas designadas”, diz o informe.
Referendos de Porto Rico Â
A ilha caribenha de Porto Rico fez sete referendos desde 1967, de caráter consultivo, para saber a opiniĂŁo da população sobre o status polĂtico do territĂłrio.
No Ăşltimo referendo, em 2024, 58% votaram para se tornar um estado dos EUA, 29% votaram para ter status de “livre associação com os EUA” e 11% escolheram a opção da independĂŞncia polĂtica.
No referendo anterior, de 2020, os eleitores tiveram que escolher entre duas opções: entre a favor ou contra a anexação de Porto Rico como Estado dos EUA, com 52% votando para virar um estado, e 47% votando contrário.
As consultas feitas Ă população de Porto Rico nĂŁo tĂŞm efeito prático, pois nĂŁo sĂŁo reconhecidas como vinculantes pelo Congresso estadunidense. Elas servem apenas para conhecer a posição dos moradores da ilha sobre o status legal do paĂs, mas sĂŁo geralmente questionadas pela baixa participação ou pelo desenho das perguntas a serem feitas Ă população. Â


