Quem é o rei de Oyó? Entenda a ligação do monarca nigeriano com Xangô

Por CNN Brasil 04/07/2026 às 15:33

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A visita do Alaafin de Oyó, Ọba Abimbola Akeem Owoade I, a Salvador mobilizou lideranças religiosas, pesquisadores e comunidades tradicionais de matriz africana. Para muitos brasileiros, o nome de Oyó desperta imediatamente a lembrança de Xangô — um dos orixás mais conhecidos do Candomblé e da Umbanda. O que nem todos sabem é que, na tradição iorubá, Xangô também é identificado como um antigo rei do reino de Oyó, localizado na atual Nigéria.

Segundo a embaixadora cultural do Palácio de Oyó, Paula Gomes, o Alaafin é a mais importante autoridade tradicional da civilização iorubá e representa uma linhagem que remonta ao próprio Xangô.

“Na tradição iorubá, o Alaafin ocupa o trono pertencente à linhagem direta do Orixá Xangô, sendo considerado herdeiro de uma das mais importantes tradições políticas e espirituais do povo iorubá”, explica à CNN Brasil.

Embora a Nigéria seja atualmente uma república, o Alaafin mantém um papel de liderança cultural, histórica e espiritual, sendo responsável por preservar tradições que atravessaram séculos.

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Qual a relação do Rei de Oyó com o orixá Xangô?

Segundo a tradição iorubá, Xangô não nasceu como orixá. Ele foi um dos Alaafins de Oyó, lembrado como um rei poderoso, estrategista e associado à justiça. Após sua morte, passou por um processo de divinização e tornou-se um dos orixás mais reverenciados da religião iorubá.

Por isso, quando se fala no Rei de Oyó, fala-se também da linhagem do reino onde Xangô governou. Nas tradições religiosas preservadas no Brasil, Xangô passou a ser cultuado como o orixá do trovão, do fogo, da justiça e do equilíbrio, sem que sua dimensão histórica fosse esquecida.

História e religião caminham juntas

Especialistas explicam que a figura de Xangô reúne duas dimensões que coexistem: a histórica e a religiosa.

Do ponto de vista histórico, ele é lembrado como um antigo soberano de Oyó. Já na cosmologia iorubá e nas religiões afro-brasileiras, é uma divindade ligada ao poder, à justiça e ao equilíbrio, cultuada há séculos.

Essa união entre história e espiritualidade é comum nas tradições africanas, nas quais ancestrais de grande importância podem ser elevados à condição de orixás.

A passagem pela Bahia

Esta foi a primeira visita do atual Alaafin ao Brasil. Seu antecessor, Lamidi Olayiwola Adeyemi III, esteve em Salvador em 2014.

A programação acadêmica da visita foi organizada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). O sacerdote Diego de Ogum, a embaixadora cultural do Palácio de Oyó, Paula Gomes, e a sacerdotisa de Iemanjá Renata Barcellos atuaram como membros da comissão oficial do Alaafin de Oyó por meio da ASA Orisa Brasil, organização voltada à preservação do culto e do patrimônio iorubá. Durante a visita, eles integraram o staff responsável pelo acompanhamento da comitiva real.

Já a comitiva foi composta por professores, integrantes do Conselho Real de Oyó (Oyo Mesi), além de outros três reis tradicionais: os monarcas de Igboho, Iganna e Oro.

Entre os compromissos da agenda, o Alaafin visitou o Mafro (Museu Afro-Brasileiro), o Memorial das Baianas, o Muncab (Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira), a Uneb (Universidade do Estado da Bahia), diversos terreiros tradicionais e a Pedra de Xangô.

Além das visitas a espaços religiosos e culturais, a agenda incluiu compromissos acadêmicos. Na UFBA (Universidade Federal da Bahia), a rainha representou o Alaafin durante o lançamento de um livro dedicado à história de Oyó.

Sacerdote Diego de Ogum, ao lado da embaixadora Paula Gomes e da sacerdotisa de Iemanjá Renata Barcellos • Arquivo pessoal | Sacerdote Diego de Ogum

Segundo Paula Gomes, um dos momentos que mais chamou a atenção do casal real foi justamente a visita ao monumento dedicado a Xangô em Salvador.

“Eles ficaram impressionados ao ver um espaço público tão significativo dedicado a Xangô e reconheceram o compromisso do povo brasileiro com a preservação dessa herança cultural”, destaca.

A agenda intensa, com dias que ultrapassaram 12 horas consecutivas de compromissos, fez com que algumas visitas precisassem ser canceladas.

Ainda assim, de acordo com a embaixadora cultural, o Alaafin lamentou não conseguir cumprir toda a programação prevista e fez questão de deixar uma mensagem às comunidades religiosas brasileiras.

Ao longo da visita, ele manifestou orgulho pela forma como as tradições iorubás são preservadas no Brasil, incentivou a participação das crianças nos cultos, defendeu o ensino da língua yorùbá às novas gerações e reforçou que os brasileiros serão sempre bem-vindos à cidade de Oyó, na Nigéria.

Por que a visita emociona religiosos?

A escolha de Salvador como um dos principais destinos da visita não foi por acaso. A capital baiana é considerada um dos maiores centros de preservação da cultura iorubá fora da África, mantendo viva uma herança religiosa, linguística e cultural que remonta ao antigo Império de Oyó.

Para sacerdotes e praticantes das religiões de matriz africana, a presença do Alaafin representa muito mais do que a visita de uma autoridade tradicional. Ela simboliza o reencontro entre a terra de origem do povo iorubá e uma das maiores comunidades da diáspora africana no mundo. Na Bahia, costumes, cantigas, idiomas litúrgicos e rituais atravessaram séculos e continuam sendo preservados por gerações de terreiros.

Nesse contexto, a passagem do monarca é percebida como um reconhecimento da resistência dessas comunidades e da continuidade da tradição iorubá no Brasil.

Segundo Paula, o significado da visita vai além do aspecto religioso e reúne diferentes dimensões históricas e culturais. Além de reconectar a diáspora às suas origens, ela reconhece o trabalho de preservação realizado pelas comunidades tradicionais brasileiras, fortalece iniciativas de cooperação entre Brasil e Nigéria, reafirma a importância espiritual do trono de Oyó para os devotos de Orisá e amplia os laços institucionais entre os dois países.

“Ao visitar terreiros e comunidades religiosas, o Alaafin reconhece o esforço de gerações de brasileiros que preservaram a cultura, os rituais, os valores e a memória yorùbá, mesmo diante dos desafios históricos enfrentados ao longo dos séculos”, afirma.

O Alaafin de Oyó, trajando vestes vermelhas, ao lado de outros reis tradicionais durante visita ao Ilê Agboulá, terreiro dedicado ao culto de Bàbá Egúngún, uma das mais importantes tradições ancestrais do povo iorubá.• Arquivo pessoal | Diego de Ogum

TópicosÁfricaNigériaReligião


Conteúdo reproduzido originalmente em: CNN Brasil por Bárbara Carvalho

Conteúdo Original / Fonte: Bárbara Carvalho

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