"Raízes do Sagrado Feminino" mostra papel feminino nas religiÔes

Por Anna Karina de Carvalho - RepĂłrter da AgĂȘncia Brasil 25/05/2026 Ă s 12:08

No momento em que os debates sobre igualdade de gĂȘnero, violĂȘncia contra a mulher e liberdade religiosa ganham força em diferentes partes do mundo, o novo documentĂĄrio da cineasta Carla Camurati propĂ”e uma reflexĂŁo sobre como as religiĂ”es ajudaram a moldar, ao longo dos sĂ©culos, o lugar ocupado pelas mulheres na sociedade.

No filme Raízes do Sagrado Feminino, que estreia no Rio de Janeiro e em São Paulo, Camurati investiga de que forma textos sagrados do Hinduísmo, Budismo, Judaísmo, Cristianismo e Islamismo influenciaram estruturas sociais e culturais marcadas pelo patriarcado.

NotĂ­cias relacionadas:Investimento em cultura qualifica e emancipa, diz Margareth Menezes.Cortejo de culturas tradicionais reĂșne trĂȘs geraçÔes da mesma famĂ­lia .“NĂŁo se trata de atacar a fĂ©, trata-se de questionar as interpretaçÔes”, afirmou a diretora em entrevista Ă  AgĂȘncia Brasil.

O documentĂĄrio reĂșne pesquisadores, teĂłlogos, rabinos, historiadores e lideranças religiosas para discutir como narrativas consideradas divinas foram usadas historicamente para justificar silenciamentos, submissĂ”es e exclusĂ”es femininas. Entre os entrevistados estĂŁo Monja Cohen, Nilton Bonder, Mary Del Priore e Ivone Gebara.

Segundo Carla Camurati, o filme nasceu de um processo amplo de investigação acadĂȘmica e histĂłrica.

A diretora Carla Camurati fala sobre o filme RaĂ­zes do Sagrado Feminino – Foto COPACANA FILMES/DIVULGAÇÃO

“O filme teve vĂĄrias dimensĂ”es de pesquisa. A acadĂȘmica, em cima dos textos sagrados, a pesquisa de entrevistados e a pesquisa de imagem. NĂŁo havia uma linha crĂ­tica desde o princĂ­pio. Era um processo vivo”, disse.

A cineasta afirmou que a principal intenção do longa foi “iluminar lugares obscuros” que, ao longo do tempo, acabaram modificados ou apagados das interpretaçÔes religiosas tradicionais: “O que a gente queria era iluminar o que, no percurso desses sĂ©culos, havia desaparecido ou sido mal entendido. Foi esse mosaico que a gente fez”, explicou.

Durante a pesquisa, segundo a diretora, tornou-se evidente a presença de estruturas patriarcais na formação das religiĂ”es: “Ao ler os textos e fazer as prĂ©-entrevistas, isso ficou muito claro”, afirmou, ao comentar se o chamado “sagrado feminino” teria sido silenciado no decorrer da histĂłria.

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Ao longo do documentårio, Camurati também identifica semelhanças entre religiÔes distintas na maneira como o feminino foi estruturado simbolicamente.

“Foi a primeira coisa que me chamou atenção. Como existem hĂĄbitos, preconceitos e açÔes comuns entre religiĂ”es com doutrinas tĂŁo diferentes”, disse. “No filme, isso ajuda a dar fluidez e compreensĂŁo para as pessoas.”

Uma das falas destacadas pela diretora Ă© a da teĂłloga Ivone Gebara, que afirma no documentĂĄrio: “É de nĂłs, mulheres, que nasceu a experiĂȘncia da liberdade”. Para Camurati, a reflexĂŁo trouxe nova dimensĂŁo ao debate proposto pelo longa: “A Ivone Gebara Ă© uma gĂȘnia. Quando ela falou isso, imediatamente deu outra dimensĂŁo para esse lugar da mulher dentro da minha cabeça”, relatou.

DocumentĂĄrio RaĂ­zes do Sagrado Feminino abre debate sobre papel das mulheres nas religiĂ”es – Foto COPACANA FILMES/DIVULGAÇÃO

A cineasta tambĂ©m destacou interpretaçÔes contemporĂąneas apresentadas no filme, como a releitura da personagem bĂ­blica Eva, associada ao conhecimento e nĂŁo Ă  culpa. “Ela escolhe o fruto do conhecimento. É uma leitura muito bonita”, afirmou.

Sem assumir tom de confronto religioso, RaĂ­zes do Sagrado Feminino propĂ”e discutir atĂ© que ponto estruturas espirituais ajudaram a consolidar hierarquias de poder entre homens e mulheres: “RaĂ­zes do Sagrado Feminino nĂŁo pretende dividir. Pretende iluminar. Porque compreender as raĂ­zes Ă© o primeiro passo para transformar o futuro”, disse Carla.

Conhecida por dirigir Carlota Joaquina, Princesa do Brazil, considerado marco da retomada do cinema brasileiro nos anos 1990, a cineasta retorna ao documentĂĄrio apĂłs Oito presidentes, 1 Juramento. Em RaĂ­zes do Sagrado Feminino, ela atravessa sĂ©culos de histĂłria para discutir a relação entre religiĂŁo, poder e desigualdade de gĂȘnero.

O documentĂĄrio estĂĄ em cartaz em cinemas de SĂŁo Paulo e do Rio de Janeiro e deverĂĄ chegar posteriormente Ă s plataformas de streaming.


ConteĂșdo reproduzido originalmente em: Agencia Brasil por Anna Karina de Carvalho – RepĂłrter da AgĂȘncia Brasil

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