RJ: projeto prevĂȘ uso de banheiros neutros para pessoas trans

Por AgĂȘncia Brasil 27/05/2026 Ă s 11:32

A Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) aprovou, nessa terça-feira (26), projeto de lei da deputada Índia Armelau (PL) que prevĂȘ o uso, em ambientes pĂșblicos e privados, de banheiros e vestiĂĄrios neutros para uso de pessoas trans, nĂŁo binĂĄrias ou que nĂŁo realizaram cirurgia de afirmação de gĂȘnero. A medida vale para hospitais, universidades, centros de convençÔes, terminais de transporte, espaços culturais, centros esportivos e shoppings do estado. 

O projeto segue agora para o governador em exercĂ­cio, desembargador Ricardo Couto, que terĂĄ atĂ© 15 dias Ășteis para sancionar ou vetar a medida.

NotĂ­cias relacionadas:PL que veta criança em evento LGBTQIA+ Ă© inconstitucional, diz jurista.Parada LGBTI+ do RJ traz “toda forma de amor” como tema em 2026.Durante a votação, a lĂ­der da bancada do PCdoB e primeira deputada trans da Casa, Dani Balbi, solicitou que a manifestação de cada parlamentar fosse nominal. A proposta foi aprovada por 29 votos favorĂĄveis, 13 contrĂĄrios e uma abstenção. Logo apĂłs a aprovação, Balbi encaminhou ofĂ­cio ao governador em exercĂ­cio, desembargador Ricardo Couto, pedindo veto total à decisĂŁo.

Para a autora da proposta, deputada Índia Armelau, a criação de um terceiro banheiro busca proteger mulheres e crianças. A parlamentar afirma que pessoas trans devem ser respeitadas, mas argumenta que a proposta visa a garantir a segurança e o conforto nos banheiros femininos. “Eu aceito as pessoas trans, mas tambĂ©m preciso ser respeitada como mulher”, explicou.

De acordo com a iniciativa, os ambientes deverĂŁo contar com fraldĂĄrio para crianças de atĂ© trĂȘs anos, vaso sanitĂĄrio infantil, lavatĂłrio adequado e acessibilidade para pessoas com deficiĂȘncia (PCDs) ou com mobilidade reduzida. O texto tambĂ©m proĂ­be o acesso de crianças desacompanhadas e de pessoas cisgĂȘnero aos banheiros neutros. No entanto, instituiçÔes religiosas, como igrejas, seminĂĄrios teolĂłgicos e unidades confessionais, ficam dispensadas da obrigação.

A medida determina ainda que os espaços tenham sinalização especĂ­fica, inclusive em braille. O projeto define como banheiros e vestiĂĄrios neutros aqueles destinados a pessoas cuja identidade de gĂȘnero nĂŁo se enquadra nos espectros masculino e feminino ou que nĂŁo tenham se submetido a procedimento cirĂșrgico de redesignação de gĂȘnero.

Multa

De acordo com o texto, a instalação e adequação dos banheiros deverão seguir requisitos técnicos, especialmente normas de acessibilidade e vigilùncia sanitåria. Os estabelecimentos jå em funcionamento terão prazo de 12 meses, após a publicação da lei, para fazer as adaptaçÔes necessårias.

O descumprimento poderĂĄ acarretar advertĂȘncias, multas e atĂ© interdição do estabelecimento em caso de reincidĂȘncia. As multas poderĂŁo começar em 1.100 UFIRs-RJ — cerca de R$ 5.456 — e dobrar em caso de nova infração.

Os recursos arrecadados serĂŁo destinados ao Fundo Estadual de Investimentos e AçÔes de Segurança PĂșblica e Desenvolvimento Social (Fised), com aplicação em programas de conscientização sobre os direitos das pessoas trans nĂŁo redesignadas e nĂŁo binĂĄrias, alĂ©m do atendimento a vĂ­timas de violĂȘncia motivada por identidade de gĂȘnero ou orientação sexual.

O texto tambĂ©m prevĂȘ a criação de um canal especĂ­fico para recebimento de denĂșncias relacionadas ao descumprimento da norma e para prevenção de atos discriminatĂłrios. AlĂ©m disso, determina que o Poder PĂșblico promova campanhas educativas de combate Ă  transfobia em espaços coletivos, incentivando a convivĂȘncia respeitosa e inclusiva.

Na justificativa, Índia Armelau declara que o Brasil Ă© um paĂ­s conservador e sugeriu que o Estado possa auxiliar financeiramente na implementação da medida em grandes espaços pĂșblicos. Segundo ela, o estado do Rio estaria sendo pioneiro ao discutir o tema.

Contraponto

A deputada estadual Dani Balbi (PCdoB) criticou a aprovação do projeto que institui banheiros e vestiĂĄrios “neutros” no estado, o que pode criar restriçÔes relacionadas ao uso por pessoas trans. A parlamentar jĂĄ encaminhou ofĂ­cio ao governador Ricardo Couto pedindo veto integral Ă  proposta.

Para Dani Balbi, a proposta Ă© “claramente inconstitucional” e representa mais um capĂ­tulo na tentativa de institucionalizar a segregação e a transfobia no espaço pĂșblico. A deputada propĂŽs uma emenda que veta os estabelecimentos que tĂȘm banheiros e vestiĂĄrios neutros de proibir que pessoas trans e nĂŁo binĂĄrias se utilizem dos locais correspondentes à sua identidade de gĂȘnero.

Caso essa e outras adequaçÔes não sejam aceitas, ela afirmou que vai adotar todas as medidas jurídicas cabíveis para derrubar a lei. A parlamentar lembrou que jå atua judicialmente contra legislaçÔes semelhantes aprovadas em municípios fluminenses, como Petrópolis e Campos dos Goytacazes.

No caso de Petrópolis, a norma municipal que restringia o uso de banheiros conforme o chamado “sexo biológico” teve seus efeitos suspensos por medida cautelar concedida pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, após ação apresentada pela parlamentar em conjunto com lideranças políticas locais.

Segundo Balbi, o projeto aprovado na Alerj viola princĂ­pios constitucionais bĂĄsicos, como a dignidade da pessoa humana, a igualdade, a privacidade e o direito Ă  identidade de gĂȘnero.

“A possibilidade de transformar banheiros e vestiĂĄrios em instrumentos de segregação Ă© cruel, inconstitucional e incompatĂ­vel com a realidade. Pessoas trans existem, trabalham, estudam e circulam pela cidade todos os dias. O espaço pĂșblico nĂŁo pode ser organizado pelo Ăłdio e pela exclusĂŁo”, afirmou.

Para a parlamentar, propostas desse tipo podem expor pessoas trans a situaçÔes de constrangimento, violĂȘncia e adoecimento fĂ­sico e psicolĂłgico, alĂ©m de confrontarem entendimentos jĂĄ consolidados pelo STF sobre identidade de gĂȘnero e combate Ă  discriminação.

“Vamos reagir no campo político e jurídico. O Rio de Janeiro não pode retroceder para uma lógica de segregação que nega direitos fundamentais e coloca vidas em risco”, acrescentou Dani Balbi.


ConteĂșdo reproduzido originalmente em: Agencia Brasil por AgĂȘncia Brasil

ConteĂșdo Original / Fonte: AgĂȘncia Brasil

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