A Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) aprovou, nessa terça-feira (26), projeto de lei da deputada Ăndia Armelau (PL) que prevĂȘ o uso, em ambientes pĂșblicos e privados, de banheiros e vestiĂĄrios neutros para uso de pessoas trans, nĂŁo binĂĄrias ou que nĂŁo realizaram cirurgia de afirmação de gĂȘnero. A medida vale para hospitais, universidades, centros de convençÔes, terminais de transporte, espaços culturais, centros esportivos e shoppings do estado.Â
O projeto segue agora para o governador em exercĂcio, desembargador Ricardo Couto, que terĂĄ atĂ© 15 dias Ășteis para sancionar ou vetar a medida.
NotĂcias relacionadas:PL que veta criança em evento LGBTQIA+ Ă© inconstitucional, diz jurista.Parada LGBTI+ do RJ traz âtoda forma de amorâ como tema em 2026.Durante a votação, a lĂder da bancada do PCdoB e primeira deputada trans da Casa, Dani Balbi, solicitou que a manifestação de cada parlamentar fosse nominal. A proposta foi aprovada por 29 votos favorĂĄveis, 13 contrĂĄrios e uma abstenção. Logo apĂłs a aprovação, Balbi encaminhou ofĂcio ao governador em exercĂcio, desembargador Ricardo Couto, pedindo veto total Ă Â decisĂŁo.
Para a autora da proposta, deputada Ăndia Armelau, a criação de um terceiro banheiro busca proteger mulheres e crianças. A parlamentar afirma que pessoas trans devem ser respeitadas, mas argumenta que a proposta visa a garantir a segurança e o conforto nos banheiros femininos. âEu aceito as pessoas trans, mas tambĂ©m preciso ser respeitada como mulherâ, explicou.
De acordo com a iniciativa, os ambientes deverĂŁo contar com fraldĂĄrio para crianças de atĂ© trĂȘs anos, vaso sanitĂĄrio infantil, lavatĂłrio adequado e acessibilidade para pessoas com deficiĂȘncia (PCDs) ou com mobilidade reduzida. O texto tambĂ©m proĂbe o acesso de crianças desacompanhadas e de pessoas cisgĂȘnero aos banheiros neutros. No entanto, instituiçÔes religiosas, como igrejas, seminĂĄrios teolĂłgicos e unidades confessionais, ficam dispensadas da obrigação.
A medida determina ainda que os espaços tenham sinalização especĂfica, inclusive em braille. O projeto define como banheiros e vestiĂĄrios neutros aqueles destinados a pessoas cuja identidade de gĂȘnero nĂŁo se enquadra nos espectros masculino e feminino ou que nĂŁo tenham se submetido a procedimento cirĂșrgico de redesignação de gĂȘnero.
Multa
De acordo com o texto, a instalação e adequação dos banheiros deverão seguir requisitos técnicos, especialmente normas de acessibilidade e vigilùncia sanitåria. Os estabelecimentos jå em funcionamento terão prazo de 12 meses, após a publicação da lei, para fazer as adaptaçÔes necessårias.
O descumprimento poderĂĄ acarretar advertĂȘncias, multas e atĂ© interdição do estabelecimento em caso de reincidĂȘncia. As multas poderĂŁo começar em 1.100 UFIRs-RJ â cerca de R$ 5.456 â e dobrar em caso de nova infração.
Os recursos arrecadados serĂŁo destinados ao Fundo Estadual de Investimentos e AçÔes de Segurança PĂșblica e Desenvolvimento Social (Fised), com aplicação em programas de conscientização sobre os direitos das pessoas trans nĂŁo redesignadas e nĂŁo binĂĄrias, alĂ©m do atendimento a vĂtimas de violĂȘncia motivada por identidade de gĂȘnero ou orientação sexual.
O texto tambĂ©m prevĂȘ a criação de um canal especĂfico para recebimento de denĂșncias relacionadas ao descumprimento da norma e para prevenção de atos discriminatĂłrios. AlĂ©m disso, determina que o Poder PĂșblico promova campanhas educativas de combate Ă transfobia em espaços coletivos, incentivando a convivĂȘncia respeitosa e inclusiva.
Na justificativa, Ăndia Armelau declara que o Brasil Ă© um paĂs conservador e sugeriu que o Estado possa auxiliar financeiramente na implementação da medida em grandes espaços pĂșblicos. Segundo ela, o estado do Rio estaria sendo pioneiro ao discutir o tema.
Contraponto
A deputada estadual Dani Balbi (PCdoB) criticou a aprovação do projeto que institui banheiros e vestiĂĄrios âneutrosâ no estado, o que pode criar restriçÔes relacionadas ao uso por pessoas trans. A parlamentar jĂĄ encaminhou ofĂcio ao governador Ricardo Couto pedindo veto integral Ă proposta.
Para Dani Balbi, a proposta Ă© âclaramente inconstitucionalâ e representa mais um capĂtulo na tentativa de institucionalizar a segregação e a transfobia no espaço pĂșblico. A deputada propĂŽs uma emenda que veta os estabelecimentos que tĂȘm banheiros e vestiĂĄrios neutros de proibir que pessoas trans e nĂŁo binĂĄrias se utilizem dos locais correspondentes Ă Â sua identidade de gĂȘnero.
Caso essa e outras adequaçÔes nĂŁo sejam aceitas, ela afirmou que vai adotar todas as medidas jurĂdicas cabĂveis para derrubar a lei. A parlamentar lembrou que jĂĄ atua judicialmente contra legislaçÔes semelhantes aprovadas em municĂpios fluminenses, como PetrĂłpolis e Campos dos Goytacazes.
No caso de PetrĂłpolis, a norma municipal que restringia o uso de banheiros conforme o chamado âsexo biolĂłgicoâ teve seus efeitos suspensos por medida cautelar concedida pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, apĂłs ação apresentada pela parlamentar em conjunto com lideranças polĂticas locais.
Segundo Balbi, o projeto aprovado na Alerj viola princĂpios constitucionais bĂĄsicos, como a dignidade da pessoa humana, a igualdade, a privacidade e o direito Ă identidade de gĂȘnero.
âA possibilidade de transformar banheiros e vestiĂĄrios em instrumentos de segregação Ă© cruel, inconstitucional e incompatĂvel com a realidade. Pessoas trans existem, trabalham, estudam e circulam pela cidade todos os dias. O espaço pĂșblico nĂŁo pode ser organizado pelo Ăłdio e pela exclusĂŁoâ, afirmou.
Para a parlamentar, propostas desse tipo podem expor pessoas trans a situaçÔes de constrangimento, violĂȘncia e adoecimento fĂsico e psicolĂłgico, alĂ©m de confrontarem entendimentos jĂĄ consolidados pelo STF sobre identidade de gĂȘnero e combate Ă discriminação.
âVamos reagir no campo polĂtico e jurĂdico. O Rio de Janeiro nĂŁo pode retroceder para uma lĂłgica de segregação que nega direitos fundamentais e coloca vidas em riscoâ, acrescentou Dani Balbi.
ConteĂșdo reproduzido originalmente em: Agencia Brasil por AgĂȘncia Brasil


